Espíritos, Os

[rating:4]

A primeira incursão de Peter Jackson em Hollywood é uma interessante mistura de filme de horror e comédia, com bons efeitos especiais e incursões ocasionais no drama romântico e na ação desenfreada, o que faz de “Os Espíritos” (The Frighteners, EUA, 1996) um ótimo programa. Pouco divulgado no Brasil, onde foi lançado diretamente em vídeo, o filme é uma oportunidade consistente para que fãs da série “O Senhor dos Anéis” conheçam um pouco mais as origens do cineasta neozelandês que se tornou o homem mais poderoso do cinema, neste início de século XXI.

Pouca gente veria, no diretor criativo que consegue injetar frescor e diversão numa trama onde um operário-padrão da direção faria uma aventura mediana, um futuro titã de Hollywood. No entanto, pelo menos uma pessoa anteviu o sucesso do neozelandês: o colega Robert Zemeckis (da série “De Volta Para o Futuro”). Foi ele quem conseguiu que a Universal bancasse o projeto de Jackson, sugerindo ainda um protagonista, o ator Michael J. Fox, que trabalhara com ele na famosa série juvenil dos anos 1980. Zemeckis ganhou crédito de produtor executivo. E só isso, já que “Os Espíritos” não fez grande sucesso na época do lançamento.

A receita de Peter Jackson para sua primeira incursão na indústria mais rica do cinema foi simples: um mergulho em terreno que ele já conhecia, a interseção entre comédia e horror. Os primeiros filmes do cineasta, como “Fome Animal”, trabalhavam nessa zona perigosa. Não são muitos os diretores que se arriscam nesse entrelugar de gêneros, pois o risco de pesar demais a balança para um dos lados é grande; nesses casos, é normal que cineastas sem muito talento acabem produzindo paródias involuntárias, que nem fazem rir os fãs de comédias e nem assustam os que preferem horror. Jackson, porém, é um fã de carteirinha dos dois gêneros, e já havia mostrado que sabia trabalhar nessa faixa de risco. É o que faz com perícia em “Os Espíritos”.

A história tem como personagem principal o paranormal Frank Bannister (J. Fox). O sujeito ganha a vida convencendo moradores da pequena cidade de Fairwater de que estão sendo perseguidos por fantasmas, e cobrando dinheiro para afastá-los. Boa parte das pessoas da região acredita que Bannister seja um charlatão; o fato é que, embora seja um trapaceiro, ele tem mesmo o dom de ver fantasmas. O truque de Bannister é outro. Ele trabalha em conjunto com três espíritos (o juiz é hilariante), encarregados de assustar pessoas para que Bannister seja, então, contratado para fazer o “exorcismo”, coisa que ele obviamente dá conta com facilidade.

O personagem rende boas risadas e cenas cômicas, amparadas no fato de que apenas ele (e o público) conseguem realmente ver os fantasmas – as visitas de Bannister ao cemitério local são sempre hilariantes. A situação, é evidente, desperta automaticamente a simpatia do público pelo rapaz, cuja habilidade para ver os mortos tem conexão com um fato obscuro do passado dele, que o deixou traumatizado e solitário. É por isso que Lucy (Trini Alvarado), uma recente viúva cujo falecido marido procura Bannister para entrar em contato com ela, mexe com os sentimentos do candidato a herói. Está aí o elemento romântico do filme.

As coisas complicam quando surge na cidade um misterioso espírito encapuzado que mata moradores de Fairwater. Com sua habilidade extraordinária, Bannister vê os crimes e conclui que um serial killer do além está matando os habitantes da cidade, por razões desconhecidas. Infelizmente, ninguém acredita nele, já que as mortes parecem ocorrer por causas naturais; as tentativas canhestras e solitárias de investigar os casos acabam tornando o paranormal suspeito, aos olhos da polícia. Aí temos uma situação clássica dos filmes de Hitchcock: um homem inocente, obrigado a investigar um crime para não ser preso por ele.

A condução da trama é firme, e Peter Jackson conta com um roteiro decente – escrito por ele e a esposa, Fran Walsh – para trabalhar, levando o caso a seguir um rumo surpreendente e inserindo personagens interessantes, como um bizarro agente do FBI (Jeffrey Combs, ator de uma série de horror cômico chamada “Reanimator” que é a grande inspiração de Jackson). O policial, aliás, funciona como um resumo do filme: engraçado e aterrorizante ao mesmo tempo, ele provoca risos, mas também arrepios.

Outro destaque está nos efeitos especiais, que marcam também a primeira incursão da Weta – a firma do diretor, que depois se tornaria uma referência no setor, a partir de “O Senhor dos Anéis” – em Hollywood. A técnica criada pela empresa para mostrar os fantasmas, fazendo-os brilhar como objetos fosforescentes, é extremamente bem feita. Também é muito eficaz do ponto de vista narrativo, pois permite que o espectador identifique instantaneamente, em cada cena, quais os personagens que estão vivos e quais estão mortos (uma versão aprimorada dessa técnica foi utilizada para mostrar o exército fantasma de “O Retorno do Rei”).

Na época do lançamento, “Os Espíritos” motivou comparações entre o trabalho de Peter Jackson e o de Tim Burton. Há, realmente, semelhanças: ambos são cineastas extremamente visuais, que sabem trabalhar na fronteira da comédia com o horror sem derrapar. O trabalho de Peter Jackson, porém, é menos estilizado e mais acessível, pelo menos do ponto de vista narrativo, o que não é um demérito. Além disso, o neozelandês possui um talento natural imbatível para criar resoluções dramaticamente poderosas, algo que “Os Espíritos” realiza sem problemas. Ao final, fica a certeza de que a diversão é garantida para todas as idades.

A Columbia lançou uma edição simples no Brasil, em 2001, com boa qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (wide 2.35:1). A Universal fez o mesmo em 2005, acrescentando apenas uma introdução curta (3 minutos) do diretor Peter Jackson. O detalhe importante é que a edição da Universal promete, na capa, a Versão do Diretor, com 14 minutos a mais. É mentira: o filme tem a mesmíssima montagem do lançamento de 2001. Pena, pois o DVD da Versão do Diretor, na Região 1 (EUA), contém um disco que pode ser lido dos dois lados e inclui, além das cenas extras e de um comentário em áudio do diretor, mais dois documentários gigantescos, um explorando os storyboards (45 minutos) e outro cobrindo as filmagens (nada menos do que 224 minutos!).

– Os Espíritos (The Frighteners, EUA, 1996)
Direção: Peter Jackson
Elenco: Michael J. Fox, Trini Alvarado, Jeffrey Combs, Peter Dobson
Duração: 109 minutos (versão normal), 123 minutos (versão do diretor)

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