Último Portal, O

[rating:4]

O longa-metragem europeu “O Último Portal” (The Ninth Gate, Espanha/França/EUA, 1999) foi aguardado, na época do lançamento nos cinemas, como um retorno triunfal de Roman Polanski ao horror. Depois de ver o filme, porém, a platéia demonstrou decepção, considerando a trama frouxa. Foram dois erros seguidos dos analistas de plantão: primeiro, Polanski nunca foi um cineasta especializado em horror; e se visto com atenção, “O Último Portal” se mostra um prato cheio para quem gosta de procurar pistas escondidas e desvendar significados ocultos por trás de uma história aparentemente simples.

Sobre a primeira afirmação, é preciso analisar com cuidado a carreira do diretor polonês. Versátil, ele já dirigiu desde comoventes dramas de guerra (“O Pianista”) até intrincados contos neo-noir (“Chinatown”). Parte da obra mais autoral do Polanski de fato flerta com elementos dos thrillers de mistério e/ou sobrenaturais (“O Bebê de Rosemary”, “O Inquilino”), mas mesmo nestes filmes o cineasta se recusou a chafurdar nos clichês do gênero. Polanski sempre deixou soluções fáceis de lado. Ele sabe que, mais até do que a história, o elemento que realmente faz a diferença neste tipo de filme é a atmosfera crescente de mistério. Isto – clima funesto e tensão incessante – existe de sobra em “O Último Portal”.

Baseado num romance do espanhol Arturo Pérez-Reverte, o longa-metragem narra a os esforços de um especialista em livros raros para inspecionar as últimas duas cópias remanescente de um livro demoníaco. Esperto e amoral, Dean Corso (Johnny Depp) é contratado por um rico colecionador de artigos de ocultismo, chamado Boris (Frank Langella), para a tarefa, que parece no mínimo esquisita. Afinal, Boris acabara de adquirir um dos três únicos exemplares existentes de um tratado sobrenatural, escrito em 1666. Mas ele desconfia que apenas um dos três livros é original, e deseja saber qual.

Para isso, Corso precisa comparar o livro de Boris com os outros dois, que estão em mãos de outros colecionadores, na França e na Espanha. Em tese, uma tarefa relativamente simples, apesar de meio espinhosa devido ao cuidado que donos de tomos raros dedicam aos objetos. Considerando a enorme soma de dinheiro envolvida, Corso topa a parada. Logo se verá envolvido em uma crescente espiral de mistério, ao verificar que deixa involuntariamente um rastro de sangue e mortes a cada nova parada. Para complicar ainda mais as coisas, uma misteriosa mulher loira (Emmanuelle Seigner) parece segui-lo.

A primeira hora de projeção é atmosférica. Através de uma narrativa clara e levemente cômica (cortesia da performance descontraída de Johnny Depp), Polanski apresenta os personagens principais e inicia a missão, enquanto aguça a curiosidade do espectador ao mostrar claramente que há mais no quadro completo do que aquilo que enxergamos. Não é preciso ser gênio para perceber que Dean Corso está dando um passo para dentro de um círculo freqüentado por pessoas dispostas a qualquer coisa para obter o que desejam. Fica evidente que não há apenas humanos envolvidos no caso, mas também forças sobrenaturais.

Para os espectadores que ainda não viram o filme, uma dica importante: preste bastante atenção na chamada mise-en-scéne (ou seja, a composição dos elementos visuais dentro de cada tomada), pois o longa está repleto de sugestões, citações – algumas bastante complexas e até eruditas – e pistas escondidas que podem, ou não, abrir para o espectador uma leitura diferente, subterrânea, dos eventos vividos por Corso, até o final ambíguo (e, para muitos, decepcionante, já que o filme termina numa nota melancólica).

Em “O Último Portal”, a palavra-chave é interpretação. Como David Lynch nos melhores momentos, Polanski se recusa a explicar a natureza dos acontecimentos que vemos na tela; podemos interpretá-los da maneira que quisermos. O que pensamos sobre a trama pode ser ou não verdade. Algumas perguntas importantes: qual a identidade da bela loira que persegue Corso? Quem é responsável pelos assassinatos que ele presencia?

Uma breve consulta aos fóruns de cinéfilos que discutem o filme (o Internet Movie Database tem um bem completo) mostra que os fãs têm dezenas de teorias sobre o filme e o significa oculto das ações de Dean Corso e demais personagens. Vê-lo uma segunda vez também pode ajudar a colocar os acontecimentos em outra perspectiva. Agora, nada é mais gostoso do que raciocinar e encontrar uma explicação para tudo por conta própria, certo?

O filme não saiu no Brasil em DVD. Nos EUA, o disco é simples: ótima qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), comentário em áudio de Polanski e um pequeno making of.

– O Último Portal (The Ninth Gate, Espanha/França/EUA, 1999)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Johnny Depp, Frank Langella, Lena Olin, Emmanuelle Seigner
Duração: 133 minutos

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9 comentários em “Último Portal, O

  1. A obra filme de Roman Polanski o The Ninth Gote A Nona Porta ou como intitulo O Ultimo Portal, pois, é esse titulo que me indetifico mais, e que usarei para referenciar a obra. O filme foi adaptado do Livro de Arturo Pérez – Reverte O Clube Dumas. A historia se passa em um ambiente misterioso e intrigarante. Onde Johnny Depp o Deam Corso é, como dizemos aqui, um rato de sebo de livros. Seu trabalho é, descobrir livros raros para negociolos com uma margem muito alta de lucro. Deam tem uma fisionomia largada, desinteressada, mas tem um grande conhecimento de obras raras literárias. Ele freqüenta o meio mercham de livreiros e colecionadores, sendo na sua maioria, abastados e desequilibrados no sentido psicológico.
    Ponlaski já havia trabalhado com essa perspectiva ocultista em O Bebe de Rosemary. Causando uma tensão, um terror ao público. Extraordinário o poder que Polanski tem, de entreter e criar um universo de conspiração ocultista. Em O Último Portal não é diferente, o clima tenso faz com que fiquemos vidrados na tela.
    Outro fator interessante é a presença da garota, Emmanuelle Seigner, que acompanha o tempo todo Deam. Ela seria uma espécie de sacerdotisa dotada de poderes e capaz de encaminhar Deam a iluminação. A garota representa uma iluminada tirada de trechos de escritos sobre sociedades ocultas. Certas sociedades praticavam o Tantra, exercícios sexuais orientais. Essas sociedades trabalham o que chamam de A Mão Esquerda, incluindo combinações de números mágicos como a Cabala – porta – on = sol, significa o portal solar – caminho envolvendo a mulher a roda, considerado como esquerdo ou lunar aspecto da criação.

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  2. Polanski fez sua segunda incursão no satanismo com esse filme, mas é notório que chafurdou na mediania. A história poderia ser muito melhor aproveitada. Virou um filme banal, infelizmente. Johnny Depp está bem, e há alguns momentos bastante tensos e sugestivos, além de tipos bizarros e intrigantes, mas nada proporciona, nem remotamente, aqueles calafrios que a mera presença da velhinha Ruth Gordon nos causavam em “O bebê de Rosemary”. Outra coisa é a terrível Emmanuelle Seigner, que só está presente porque é a mulher do diretor (outra vez; ela estragou “Busca frenética” e “Lua de fel”). Frank Langella está canastrão demais, e ainda solta gargalhadas “satânicas” de vilão de desenho animado vagabundo, lá pelo final. Um desperdício. Mas, como é Polanski, claro que haverá sempre quem goste.

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  3. É um filme ocultista, e não um filme de terror. E quem quer ver o filme deve vê-lo neste intuito. É um absurdo criticar um filme por não se enquadrar num rótulo clássico de terror, como vi alguns fazendo aqui. Eram comuns na Idade Média a circulação de Grimórios, livros com conjuração de demônios. Isto é tudo ocultismo medieval, nada a ver com tantra de mão esquerda e outras tolices inventadas por pretensos magos do século XIX.

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  4. Não sou crítico, mas um simples cinéfilo. Gosto dos filmes de Polanski, neste ele consegue realmente criar um crescente suspense e mantem o espectador ligado na história. Mesmo assim, achei o filme um pouco longo e cansativo. Gosto da perspectiva da associação de idéias e da livre interpretação do espectador, mas qdo isso ocorre em demasia e em um filme longo, cansa um pouco. O filme tem sequencias muito boas, como a perseguição de carro, o ritual na mansão e no castelo, a desconcertante cena de sexo em meio ao incêndio no castelo. Qto aos atores, gosto do Johnny Depp e do Frank Langela, e achei a que a atriz Emmanuelle Seigner consegue criar um clima meio sobrenatural e de mistério. Mesmo assim, francamente, esperava mais, na minha parca avaliação, achei o filme apens regular (acho que esperava uma obra prima!).

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  5. Filme acaba sendo regular devido a seu final. Apesar de ser um filme longo ele prende a atenção e mantem o clima de suspense. O final é decepcionante com a sensação de que faltou algo e deixa abertura para uma continuação.

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