Inverno de Sangue em Veneza

[rating:5]

A grande maioria dos filmes persegue o objetivo de contar uma história onde a continuidade seja perfeita. Quando um trabalho assim é bem sucedido, o espectador compreende tudo claramente e mergulha na história de tal maneira que acaba esquecendo que está vendo ficção. “Inverno de Sangue em Veneza” (Don’t Look Now, Itália/Inglaterra, 1973) não está interessado em continuidade e nem em uma narrativa linear. É um filme de sensações, que não deseja comunicar objetivamente uma história, mas construir cuidadosamente uma atmosfera de desorientação e mistério.

A primeira seqüência, verdadeira aula de montagem descontínua, deixa claro este objetivo e apresenta o filme de modo brilhante. As cenas mostram duas ações paralelas em uma mansão rural da Inglaterra. Do lado de fora, duas crianças brincam à beira de um lago; dentro da casa, um homem e uma mulher trabalham à mesa. Roeg monta as duas cenas de maneira sensacional. Ele cria conexões entre os personagens onde não existem, através de associações, sempre procurando evocar a idéia de que os adultos sentem algum tipo de pressentimento sobre o que ocorre com os meninos.

Em certo momento, por exemplo, o arqueólogo John Baxter (Donald Sutherland) olha a foto do interior de uma igreja. Ele se concentra em um ponto vermelho por trás do altar. Há um corte, e a tomada seguinte mostra a filha dele, correndo pelo gramado, vestindo uma capa de chuva… vermelha. A menina dá um grito, há outro corte, e a mãe levanta a cabeça, como se ouvisse algo. Depois a criança se aproxima perigosamente do lago, e a ação corta para dentro de casa, onde o pai derrama sem querer uma taça de vinho nas fotos, deixando uma enorme mancha vermelha na silhueta da igreja. A mensagem não é linear, mas é clara: sangue. Algo está errado.

Não há palavras. Mesmo assim, a platéia compreende perfeitamente o que Nicolas Roeg está fazendo, ao manipular a técnica do “jump cut” (cortes que rasgam a continuidade do espaço e do tempo) com uma ousadia impressionante: aqui, neste lugar isolado, acontece algo esquisito, estranho, talvez sobrenatural. Não sabemos o que é. Os personagens também não. Todos estamos desorientados, confusos; sabemos que algo ocorre, mas não sabemos o quê. Esta sensação continuará até o final do filme (e talvez até bem depois dele).

A idéia-chave para entender o filme pode ser resumida em uma palavra: pressentimento. John Baxter pressente a morte da filha, mas não consegue evitá-la. Para tentar superar o trauma, ele e a esposa Laura (Julie Christie) viajam juntos a Veneza, onde ele trabalha na restauração de uma velha igreja. Querem juntar os cacos emocionais e tentar salvar o casamento. Eles encontram duas velhas videntes em um restaurante, e elas afirmam que conseguem ver a criança morta. Dizem ter uma mensagem do além para os dois, mas não compreendem o que é. Eles pressentem que algo está por acontecer, mas não sabem o quê nem quando. Todo mundo, personagens e platéia, fica confuso.

A ambientação do longa-metragem é virtualmente perfeita. Veneza é quase um personagem: os canais escuros e becos apertados contribuem para acentuar mais e mais a sensação de desorientação. As gárgulas fazem caretas nas portas das igrejas diabólicas, como se o casal Baxter não fosse bem-vindo ali. É uma cidade úmida e fria, nada convidativa. Ainda por cima, Nicolas Roeg filmou tudo com iluminação em chave baixa, enchendo as imagens com muitas sombras e grandes contrastes.

Além disso, usou um truque inteligente para realçar o isolamento emocional do casal: retirou todo mundo das ruas, nas cenas em que John e Laura caminham pela cidade. Quando os dois estão passeando, em especial nas cenas noturnas, não há uma viva alma na rua. Está tudo deserto. O clima é lúgubre, desolado, escuro. Para conseguir esse efeito, Roeg dirigiu a câmera ele mesmo em diversas seqüências, embora o design do visual seja do fotógrafo Anthony Richmond.

Para completar, o cineasta britânico dá um uso estilizado à cor vermelha, retirando-a dos cenários e das roupas dos personagens. O vermelho só aparece em determinadas situações, sempre com grande impacto, fisgando o olho do espectador e indicando-o os elementos estranhos nas cenas mais importantes. É a presença do vermelho que desorienta tudo. A cada aparição da cor vermelha, surgem mais dúvidas. As visões de John são reais? Ele está imaginando tudo? Está à beira de um colapso nervoso, talvez? O tratamento de cores de “Inverno de Sangue em Veneza” é uma influência decisiva na obra do italiano Dario Argento.

Boa parte dos espectadores, mesmo entre aqueles que amaram cada fotograma do longa-metragem, despreza o polêmico final. A última cena é mesmo inclassificável. Chocante? Bizarra? Decepcionante? Adequada? Desimportante? Tudo isso junto? Ao final de “Inverno de Sangue em Veneza”, apenas uma certeza: este é um filme original, tremendamente criativo, feito por um cineasta cheio de confiança e no auge de sua habilidade como contador de histórias. E se nada disso é suficiente, saiba que Julie Christie está belíssima e protagoniza uma longa e visceral cena de sexo com Sutherland na metade da produção.

O filme não está disponível no Brasil em DVD, mas pode ser adquirido em lojas virtuais que vendam a edição da Região 1 (EUA), onde foi lançado pela Paramount em um disco simples, tendo apenas o trailer como extra. A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e de som (Dolby Digital 2.0) é boa.

– Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, Itália/Inglaterra, 1973)
Direção: Nicolas Roeg
Elenco: Donald Sutherland, Julie Christie, Hilary Mason, Clelia Matania
Duração: 110 minutos

7 comentários em “Inverno de Sangue em Veneza

  1. Esse texto explicou exatamente o que eu ia dizer: esse filme não conta uma história. Se resume a um casal que perdeu a filha e encontra duas mulheres de idade. Nota zero, infelizmente.

    Curtir

  2. Parabéns ao CineRepórter! Análise quase perfeita desta obra-prima de Nicolas Roeg. “Quase” por quê? Faltou citar a arrepiante trilha sonora do italiano Pino Donaggio e citar os autores deste roteiro hipnótico da dupla Alan Scott e Chris Bryant que conseguiu melhorar o conto original de Daphne du Maurier (a mesma escrita de “Rebecca” e “Os Pássaros”, ambos filmados por Alfred Hitchcock).

    Curtir

  3. Faz mais de dez anos que eu queria ver esse filme. Como não lançaram em dvd até hoje, resolvi baixar da net. E valeu a pena! O filme é simplesmente maravilhoso! Belas atuações e uma Veneza muito intrigante. Um expoente do grande cinema dos anos 70. Quando for lançado em dvd, certamente terei minha cópia original.

    Curtir

  4. Olá Rodrigo. Acabei de assistir o filme. Vc tem razão não uma história linear, mais de começo predomina uma atmosfera carregada de fatalidade e mistério. As cenas são mostradas de modo a confundir o espectador. No filme alterna momentos que sinalizam que algo terríviel vai acontecer a maior parte do tempo. O diretor habilmente o contruí a partir de cenas que à primeira vista parecem aluncinaçoes, mas que depois se revelam sinistras premonições, como por exemplo aquela em que John ve Laura e as videntes em barcaça atravendo um dos canais de Veneza. Concordo com vc, Nicolas Roeg é um diretor muito talento e até mesmo o banal através de suas lentes ganha um toque de originalidade. Um exemplo disso,é a cena da transa do casal (bastante ousada para os padroes da época) que se alternam com outra, depois da consumação e que revela cumplicidade e afeto entre ambos. Outro momento notavél, a cena do acidente do andaime, que é filmada do ponto do vista de John, dando-nos a impressão que estamos junto com ele. Quanto ao final, acredito que todo o filme converte para ele, ou seja, havia outro modo de concluí-lo. Para mim é seu ponto climático e conforme vc disse suscita várias leituras (eu não vou me aprofundar nisso para não estragar a estranha sensação de medo, que suscita, sensação esta que poucas vezes senti). É verdade que a cidade de Veneza com suas ruas sinistras, mal iluminadas e labíriticas oferem a ambientação perfeita para o filme, que para mim é uma obra-prima do terror/suspense gótico e influenciou diretores como Dario Argento ( como vc disse principamente no uso da cor vermelha) e M. Night Shamalayn, uma vez que esse filme com sua ligação com o mundo dos mortos, prenuncia O Sexto Sentido. Seja pelo angustiante clima de mistério e suspense. que culmina em dos momentos mais terríveis do cinema de terror/ horror ou seus méritos artísticos ( direção, atuaçoes, trilha sonora do mestre Pino Donaggio), Inverno de Sangue em Veneza é um filme que merece ser conhecido. É uma pena que Paramount no Brasi ainda não tenha percebido sua importância, já que sem dúvida é um dos melhores da década de setenta. Abraço.

    Curtir

  5. este é um filme lúgubre mas que prende as pessoas até o final apesar de acharmos que não conseguiremos chegar a ele tamanha carga negativa e soturna da solidão de Veneza no inverno. Porem um magnificoe bem filmado filme, arrepiante mas cativante

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s