Vingador do Futuro, O

[rating:3.5]

Como se sabe, o escritor de ficção científica Philip K. Dick tinha uma série de obsessões: o funcionamento da memória, a possibilidade de interferências tecnológicas no cérebro humano, colônias humanas em Marte, universos futuristas, clima de paranóia. Todos esses elementos estão presentes na aventura “O Vingador do Futuro” (Total Recall, EUA, 1990), uma intensa história de suspense transformada em thriller apenas razoável pelo cineasta holandês Paul Verhoeven. Embora correto, o filme peca pelo visual hiper-estilizado e pela insistência em colocar as seqüências de ação em patamar mais importante do que o desenvolvimento dramático.

A história focaliza, num futuro não especificado em que o ser humano já instalou colônias em todo o sistema solar, o operário Douglas Quaid (Arnold Schwarzenegger). O musculoso e pacato trabalhador braçal vem tendo sonhos recorrentes que o transportam para Marte. As imagens intrigantes, que incluem beijos molhados em uma misteriosa e atlética morena que ele jamais viu, fazem nascer nele a obsessão por conhecer o planeta vermelho. Como não tem dinheiro para realizar a viagem, Douglas recorre a uma solução tecnológica: um implante de memória.

Isso significa que, através de uma técnica especial de manipulação das ondas cerebrais, Douglas pode ganhar lembranças completas de ter passado duas semanas em Marte, mesmo sem jamais ter posto o pé no planeta – ele até pode escolher a opção de virar um agente secreto durante o período. Ocorre que algo dá errado no procedimento médico, e depois dele o operário passa a ser perseguido pela CIA, sem entender direito o que está acontecendo. As pistas indicam que ele pode ser mesmo um ex-espião que teve a memória original apagada e substituída por outra, mais inofensiva. Ou seria tudo apenas um devaneio fruto do implante?

Esta confusão entre sonho e realidade é, de fato, outra característica importante do trabalho de Philip K. Dick, e também pode ser encontrada em outros filmes baseados na obra dele (especialmente “Minority Report”, de Spielberg, e “O Pagamento”, de John Woo). Pena que a abordagem de Verhoeven não tenta sustentar a dúvida por muito tempo, o que poderia tornar o subtexto do longa-metragem bem mais rico e complexo, algo que já havia ocorrido com o excelente “A Scanner Darkly”, de Richard Linklater. O objetivo, aqui, é pura e simplesmente fornecer ao público doses abundantes de ação desenfreada, com o máximo de tiros, explosões e sangue que for possível exibir.

Do ponto de vista narrativo, a história original é o ponto alto. A trama é intrincada e cheia de desvios labirínticos, a progressão dramática é sempre intensa, e a abertura onírica rima de forma inteligente com o final impossível. Apesar disso, Verhoeven não se preocupou muito em desenvolver este enredo com consistência, criando diálogos rasos e simplistas, além de filmar transições preguiçosas entre as cenas de ação, que se sucedem em intervalos regulares de quinze minutos.

Além disso, a concepção visual é extremamente artificial, com cenários excessivamente limpos e metalizados, embebidos em uma iluminação vermelho-sol de néon, que deixam o longa-metragem com a cara datada dos anos 1980. A maquiagem dos mutantes que vivem nos subúrbios da colônia marciana também é muito fraca, e a edição das seqüências de ação fragmenta as tomadas em múltiplos cortes. Tudo isso reunido dá a “O Vingador do Futuro” uma atmosfera artificial, passando muito longo do realismo vulgar e barato que as histórias de Philip K. Dick exigem para funcionar a contento. Ainda assim, há idéias suficientemente boas para garantir diversão agradável à platéia.

O DVD simples lançado no Brasil é da Universal. A qualidade da imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e de som (Dolby Digital 5.1) é ótima. Entre os extras, apenas galerias de fotos e storyboards. Curiosamente, por um defeito na transposição do formato PAL para NTSC na fita master entregue pelo estúdio francês Studio Canal, a duração do filme tem cinco minutos a menos do que o DVD norte-americano, mas o problema é imperceptível.

– O Vingador do Futuro (Total Recall, EUA, 1990)
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Michael Ironside, Rachel Ticotin
Duração: 108 minutos

Um comentário em “Vingador do Futuro, O

  1. Paul Verhoeven é um cineasta – com o perdão da palavra – escroto. Os filmes dele são explosões de sexo e violência. Certa vez, li alguém dizendo que o diretor, na verdade, estaria ridicularizando o próprio cinema americano, que se resumiria a isso. Enfim, fazer um filme como “Showgirls”, que beira o Cine Privê, só ele mesmo. Mas quanto ao “O Vingador do Futuro” (este título é péssimo), concordo que a abordagem poderia ser mais humana e profunda. E a figura de Arnold Schwarzenegger sempre acaba destruindo qualquer seriedade que o filme possua. Porém, ainda assim é um filme que vale a pena ser conferido, mas que não chega aos pés de um “Blade Runner”.

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