Juventude

[rating:4]

De um ponto de vista exclusivamente formalista, fazer um filme cuja ação dramática consiste em uma noite de bebedeira e conversas na vida de três senhores entrando na faixa etária dos 70 anos parece um convite para um dos programas cinematográficos mais chatos que se pode imaginar. No território da sétima arte, contudo, as certezas vivem sendo continuamente derrubadas e pisoteadas sem cerimônia. “Juventude” (Brasil, 2008), do veterano diretor Domingos de Oliveira, comprova a máxima mais uma vez. Este é um filme sobre memórias e afetos. Um filme encharcado de experiência humana verdadeira, que celebra a vida. Em resumo, um filme cheio de tesão.

Não é preciso ser grande conhecedor de cinema para perceber a influência de Woody Allen no tipo de filme predileto do diretor brasileiro: cenas que consistem de longos diálogos, drama e humor mesclados indistintamente, em que personagens masculinos gabam-se de conquistas impressionantes e desfilam um rosário de inseguranças sexuais. Oliveira é o primeiro a concordar com a semelhança. Assume-se como admirador incondicional do norte-americano e afirma que a inspiração para “Juventude” veio dele mesmo. Nem por isso o longa-metragem, todo filmado em digital e por isso feito com orçamento mínimo, perde um milímetro de sua força. Pela simplicidade, pela despretensão e pela força dramática, afirma-se como um dos lançamentos mais interessantes de 2008 no Brasil.

A sinopse é mínima. Toda a ação dramática acontece no espaço entre a tarde de um sábado e o nascer do sol de domingo. Nesse intervalo, três grandes amigos de infância que já passaram dos 70 anos de idade se reúnem, na casa de um deles, para se embriagar com álcool e com as memórias de uma vida inteira. David (Paulo José), o anfitrião, é um homem rico e recebe os colegas, conhecidos desde que interpretaram juntos uma peça na adolescência, na mansão onde vive, em Petrópolis (RJ). Antônio (Domingos de Oliveira), um cineasta, mora com uma garota de 20 anos, mas ainda lamenta a perda do grande amor da vida dele para um norte-americano. E Ulisses (Aderbal Freire Filho), o garanhão da turma, vive um momento singular, marcado pela relação conturbada com uma filha viciada em drogas.

Em “Juventude”, existe experiência na frente e atrás da tela. A direção de fotografia, por exemplo, foi entregue ao veteraníssimo Dib Lufti, talvez o mais lendário fotógrafo de cinema do Brasil. Os atores, por sua vez, atuam como se estivessem na cozinha de casa (vai ver estavam mesmo), com a maior naturalidade possível, cada um respeitando o espaço do outro e inventando tabelinhas de diálogos deliciosas, responsáveis por momentos vibrantes de afeto: amizade, amor, ciúmes, dor, sofrimento. A relação de risos e lágrimas que eles vivem carrega o DNA das grandes amizades, e é algo reconhecível por todos nós. As horas que o trio divide na mansão funcionam como uma cápsula do tempo, em que cada um ganha a oportunidade de fazer um balanço de sua vida – todos os erros, todos os acertos – enquanto todos percebem que o passado ainda insiste em se insinuar no presente, às vezes de maneiras insuspeitas.

“Juventude” é cinema imperfeito, do ponto de vista técnico. A mise-en-scéne despojada pode dar a impressão de desleixo com a captação das imagens. A luz é problemática, já que a textura opaca/brilhante das cores captadas pela câmera digital deixa evidente a profundidade de foco quase inexistente (algo agravado quando o filme é visto em projeção digital). Mas a verdade é que nada disso importa. A qualidade dos diálogos, a força dos personagen s e torrente de emoções que flui da tela, em fluxo contínuo, constroem uma experiência fílmica rara. O cinema precisa de mais filmes assim.

– Juventude (Brasil, 2008)
Direção: Domingos de Oliveira
Elenco: Paulo José, Aderbal Freire Filho, Domingos de Oliveira
Duração: 72 minutos

10 comentários em “Juventude

  1. Queria ter tua visão Rodrigo, sempre tão bacana!

    Escurece o fundo do site ‘please’ ! Melhor para ler, incentiva mais!Essa cor dar dor de cabeça; Saudades das cores do site antigo!
    ;D

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  2. Rodrigo jah disse isso antes e sem kerer ser alvado mas já sendo, a parte técnica dos filmes brasileiros decepcionam… somente poucos se salvam e rarissimos se destacam como cidade de deus…

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  3. Engraçado, eu achava o site antigo super pesado, muita gente reclamava.

    JP, acho que o cinema nacional já teve muitos problemas técnicos. Hoje a realidade não é essa. Poderia elencar uns 20 filmes recentes cuja qualidade de som e imagem se equipara ao melhor do cinema norte-americano. Mas nesse caso, claro, estamos falando de um filme feito quase sem grana, por um diretor semi-desconhecido, velhinho, para o qual ninguém se digna a dar grana. O fato de ele conseguir fazer um filme tão emocionante me deixa realmente feliz..

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  4. eu axava as cores do site antigo super pesadas, gente! o azul escuro com as letras bracas arrasava na vista! axei mais claro assim…

    axei o filme super bacana, criativo e, acima de tudo, inteligente! meio depressivo ver que no fim da vida vamos sempre ter mtos arrependimentos, uns grandes e outros pequenos, mas curti mto a proposta!

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  5. As cores do site estao perfeitas, muito melhor de ler com fundo branco. E as diferenças nos tons dos menus e dos fundos dos comentarios estao otimos tb.

    Eu não gosto de filmes brasileiros por mera implicancia, mas esse filme me deixou interessada. E tb adoro filmes com velhinhos.

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  6. Gostei muito do filme, acredito que este filme será mais apreciado por pessoas com idade superior a 40 anos. Só não acho que Domingos de Oliveira seja semi-desconhecido como diretor.
    Abraços.

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