Conan – O Bárbaro

[rating: 1.5]

A primeira seqüência de “Conan – O Bárbaro” (Conan the Barbarian, EUA, 2011), sem contar o prólogo, dá uma boa idéia dos 113 minutos que vêm pela frente. Um narrador anônimo – que em momento algum dá as caras – nos informa a respeito de um guerreiro lendário que “nasceu dentro de uma batalha”. A seqüência nos mostra quão literal é a sentenção. Entre braços decepados e jatos de sangue, observamos o bárbaro Corin (Ron Pearlman) abrindo a barrigão da esposa para permitir que ela, após ceifar a vida de dois ou três adversários mesmo prestes a dar à luz, possa ver o bebê antes de fechar os olhos para sempre. Antes mesmo de ter o cordão umbilical cortado, o pequeno Conan encontra o peito da mãe. E sorve sangue, ao invés de leite.

O modo com o diretor Marcus Nispel encena o nascimento inverossímil poderia funcionar como um catálogo de técnicas narrativas sobre como impedir que o espectador estabeleça alguma empatia com um filme assim. As interpretações são teatrais, exageradas, empostadas em tom artificial de declamatório (e continuam assim pelo resto do filme). A câmera filma o casal e o bebê colada aos rostos dos atores, deixando a imagem chapada e sem profundidade na maior parte do tempo – um erro imperdoável para um filme em 3D. A batalha, feroz até que a mulher comece o trabalho de parto, abre uma espécie de clarão para que ela possa ter o filho com certa tranqüilidade, um absurdo reforçado pelo caos absoluto estabelecido nas primeiras imagens da cena. Até mesmo os sons da batalha, que poderiam envolver o espectador e sinalizar que a luta continuava, são amortecidos e ouvidos apenas ao longe.

Antes mesmo dessa abertura desastrosa, “Conan” já dava sinais de que não passaria de um equívoco cinematográfico. O prólogo, que estabelece a ação dramática num local e num tempo lendários, proporciona uma exposição rasteira, criva o espectador com uma série desnecessária de nomes de cidades, continentes, tribos e pessoas, tudo por cima de uma seqüência pavorosa de imagens de mapas, num arremedo muito mal disfarçado de “O Senhor dos Anéis”. Esse arremedo inclui a existência de um artefato mágico capaz de dar poder total sobre o mundo lendário àquele que reunir as diversas partes desse objeto, o que firma o longa-metragem como mais uma tentativa de lucrar sobre o sucesso da série de Peter Jackson.

Mais à frente, quando Conan (Jason Momoa) finalmente cresceu e se tornou um guerreiro adulto metrossexual, do tipo de usa sobrancelhas delineadas e está sempre cheiroso e de banho tomado, o filme abre uma segunda linha narrativa tradicional – uma história de vingança, em que o protagonista embarca numa jornada suicida para vingar uma morte na família. O responsável pelo crime, evidentemente, é o líder de um bando de ladrões (Stephen Lang) que também calha de estar tentando recuperar a antiga jóia perdida, o que lhe poderá dar não apenas controle sobre o mundo, mas também a oportunidade de ressuscitar a esposa. Em resumo: “Conan” é uma mistura mal-ajambrada de “O Senhor dos Anéis” com “Gladiador”, somando-se pitadas de “A Múmia” e alguma nudez feminina.

Tudo isso seria passável se Nispel ao menos filmasse com segurança e alguma inventividade visual. Não é isso que se vê. O diretor usa pouco um dos maiores trunfos dos filmes realizados em três dimensões (o efeito de profundidade) e erra a mão na montagem, filmando batalhas e lutas de espada à base de cortes rápidos e mudanças radicais no eixo da câmera. Seu elenco também é muito fraco, em particular o inexpressivo Momoa, que não consegue dar vida ao guerreiro supostamente atormentado que é Conan. O personagem icônico dos quadrinhos, imortalizado por Arnold Schwarzenegger no belo filme de John Millius, mais parece um fanfarrão primo de Jack Sparrow do que o lutador sombrio e furioso das encarnações anteriores. Tantos equívocos justificam o fracasso de público (somente US$ 20 milhões em quatro semanas nos EUA, após gastar U$ 90 milhões) e de crítica (22% de aprovação, ou reprovação, no Rotten Tomatoes).

– Conan – O Bárbaro (Conan the Barbarian, EUA, 2011)
Direção: Marcus Nispel
Elenco: Jason Momoa, Stephen Lang, Rachel Nichols, Ron Pearlman
Duração: 113 minutos

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8 comentários em “Conan – O Bárbaro

  1. Que bomba! Engraçado: O visual do ” CONAN” de Millius não é fiel aos quadrinhos, mas é ótimo; Este é fiel mas não presta. É no que dá pensar só em lucratividade.

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  2. Verei hoje, pq como fã de Conan desde meus 10 anos não conseguirei não ver. Mas infelizmente vou ver se pelo menos me divirto. Conan (como o grande personagem que é) merecia um Peter Jackson. Já imaginaram que filme seria? E não entendo pq não adptar qualquer história dos 11 primeiros números de A Espada Selvagem de Conan, qualquer uma delas daria um filmaço.

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  3. Bom, concordamos que o filme é um grande equívoco. Roteiro apoiado na premissa mais clichê de todas, subtramas sem o mínimo desenvolvimento e o apelo para aquelas frases de efeito que nada acrescentam.

    Agora, sério que você achou Conan um heroi metrossexual, cheiroso e sempre de banho tomado??? Isso nem me passou pela cabeça no decorrer do filme.

    O que me incomodou mesmo, na obra, além do roteiro, foram os efeitos visuais de quinta categoria, os quais são potencializados em sua natureza ruim pela tecnologia 3D. Eu podia passar sem essa… rsrsrs

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  4. Vi ontem. E, admito, de uma forma geral gostei do filme. Sim, o roteiro é de uma simplicidade incrível que eu com 12 anos escreveria. Mas achei o filme bem fiel aos contos e HQs, muito mais que os filmes antigos. Não fizeram um filme pra um público 13 anos, fizeram um Conan violento, sanguinário, as cidades, ele nos navios, nas tavernas, as mulheres, as feiticeiras, tudo bem fiel. Adorei a referência ao conto “A Torre do Elefante” clássico de Conan, quando Conan conversa na taverna. E não teve a história ridícula dos filmes antigos do Conan ter sido escravo, pelo contrário, como ele aprenderia a ser um “malandro”, ladrão, lutador, etc. tendo sido escrevo a vida toda? O roteiro é fraco e o diretor idem mas ainda assim gostei do filme pela fidelidade. Espero que tenho um segundo com um roteiro minimamene melhor trabalhado (poderia ser uma adaptação de um conto).

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