X-Men: Primeira Classe

[rating: 4.5]

Nos idos de 2004, logo após lançar o primeiro e elogiado filme como diretor (o excelente “Nem Tudo é o que Parece”), Matthew Vaughn começou a ser seduzido por grandes estúdios de Hollywood para dirigir um filme de super-heróis. Ele esteve ligado ao terceiro longa-metragem dos X-Men e a vários outros projetos de igual envergadura, inclusive “Thor” (2011), mas essa ligação sempre terminava da mesma maneira: o cineasta largava o projeto pela metade, sob a alegação costumeira de diferenças artísticas. De longe, parecia embromação. Em “X-Men: Primeira Classe” (X-Men First Class, EUA, 2011), contudo, Vaughn finalmente justifica a paparicação, assinando uma das mais interessantes e divertidas adaptações de quadrinhos realizadas em Hollywood.

A surpresa aumenta ainda mais quando sabemos que a responsabilidade do diretor britânico não era pequena. Afinal, os dois primeiros filmes dos X-Men estiveram entre os mais bem-sucedidos (tanto em termos de crítica quanto de bilheteria) dos arrasa-quarteirões típicos da indústria cinematográfica americana, tendo inspirado dois outros filmes fracos e sem inspiração. Ao receber a responsabilidade de voltar no tempo e apresentar as origens dos personagens principais da equipe de mutantes (basicamente a mesma coisa feita antes, no filme-solo de Wolverine), Matthew Vaughn tinha a missão de revitalizar a franquia para uma nova geração, reapresentando personagens clássicos.

Ele fez isso de modo brilhante, a partir de um roteiro inteligente e bem escrito, que parte de fatos históricos reais (a Segunda Guerra Mundial, em 1943-45, e a crise dos mísseis em Cuba, em 1962) e elabora uma história protagonizada por meia dúvida de mutantes ficcionais, em intrincadas jornadas paralelas que preenchem, com detalhes saborosos e deliciosamente exagerados, algumas lacunas de caracterização dos mutantes famosos dos quadrinhos, além de outras lacunas, dessa vez históricas, sobre os bastidores da Guerra Fria. Em uma operação cinematográfica que denota inteligência e talento, o filme sobrepõe um quebra-cabeça ficcional a um retrato histórico preciso do período retratado, sem esquecer de construir em paralelo uma aventura empolgante habitada por personagens bem delineados.

Não há dúvida de que o prato principal de “X-Men: Primeira Classe” é o roteiro. O texto do filme trabalha com profundidade rara (para um filme gigante baseado em quadrinhos, pelo menos) três personagens centrais do grupo dos mutantes. Charles Xavier (James McAvoy) ganha o perfil sedutor de um líder que alterna doses iguais de prudência e capacidade de argumentação. Magneto (Michael Fassbender, destaque do ótimo elenco, em uma performance magnética, com o perdão do trocadilho) tem o passado traumático explorado e conectado habilmente ao homem impulsivo e irritadiço que se transformará numa espécie de ambíguo vilão. Raven (Jennifer Lawrence), a futura Mística, funciona como uma espécie de pupila que pende entre os dois homens mais velhos, torturada pela questão do preconceito.

Os três atores estão muito bem, e são auxiliados pelo estilo de Matthew Vaughn, que explora os abundantes close-ups gigantes de rostos com habilidade acima do normal, construindo em algumas cenas uma espécie de paisagem de rostos – algo entre Sergio Leone e Ingmar Bergman, por mais estranho que isso possa parecer. Kevin Bacon, assumindo um timbre exagerado e histriônico que casa perfeitamente com um vilão de quadrinhos (sua performance na primeira cena de seu personagem dá o tom do filme na medida certa), completa a linha de frente do filme. Há ainda toda uma galeria de personagens secundários – que certamente serão explorados em outros filmes – delineados em traços grossos e promissores, incluindo o Fera (Nicholas Hoult), Azazael (Jason Flemyng) e vários outros mutantes conhecidos de quem lê os gibis.

Pois bem: o roteiro consegue comprimir, em pouco mais de duas horas, a gênese de toda essa população de personagens, preparando um cardápio completo de mutantes para filmes vindouros, sem transformar o filme numa espécie de trailer gigante para produções futuras – algo que Marvel parece ter feito em “Thor”. Sim, porque a trama de “X-Men: Primeira Classe” se sustenta nas próprias pernas, utilizando inclusive cenas verdadeiras de arquivos (entrevistas de John Kennedy, por exemplo) e propondo explicações exóticas e críveis, pelo menos dentro do universo dos mutantes, para fatos mal-explicados da crise dos mísseis cubanos. O filme não é perfeito porque o terceiro ato não consegue manter a qualidade e traz um final fraco, com efeitos especiais de nível apenas mediano e um destino chocho para um dos vilões mais bacanas de filmes de super-heróis. Até lá, no entanto, “X-Men: Primeira Classe” já nos ganhou.

– X-Men: Primeira Classe (X-Men First Class, EUA, 2011)
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence
Duração: 132 minutos

16 comentários em “X-Men: Primeira Classe

  1. Eu concordo que o prato principal deste filme é o roteiro. Desde a construção perfeita dos personagens, passando pela criação concreta de motivações críveis e de conflitos que prendem a nossa atenção. Adicionado a isso, temos uma execução perfeita por parte do Matthew Vaughn e as ótimas atuações de James McAvoy, Michael Fassbender (ele está magnético mesmo! rsrsrsrs) e Kevin Bacon, que está maravilhoso como um vilão completamente caricato.

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  2. Achei que a agente da CIA não acompanhou a qualidade do elenco. Mesmo tendo um papel secundário, ela não marca presença, tanto que esqueci o nome dela e só lembrei quando Xavier mencionou.
    Rodrigo, sobre ‘destino chocho’, você pode explicar melhor?

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  3. ” Primeira Classe”? Os títulos e subtítulos dos filmes estão cada vez mais esdrúxulos. Como serão as sequências? “X-Men: Classe Executiva” e “X-Men: Classe Econômica”?

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  4. Queria escrever um monte de coisa mas como estou sem tempo só digo uma: melhor filme de HQs dos últimos perdendo só pra Cavaleiro das Trevas. Adulto, inteligente, sério, bm interpretado….

    Os filmes dos X-Men e do Batman são Graphic-Novels os outros (tipo Thor e Homem de Ferro) são os quadrinhos mensais de 24 páginas.

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  5. Concordo quando Rodrigo diz que o terceiro ato é o mais fraco do filme. Mesmo assim, é o melhor filme dos mutantes. Além de todas as qualidades ressaltadas, temos que reconhecer o belíssimo trabalho de desenho de produção do filme: figurinos e direção de arte excelentes. Só pelo design do interior do submarino do Sebastian Shaw, o filme merecia uma indicação a prêmios nessa categoria, não acha?

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  6. Rodrigo,
    Falando sério: “First Class” pode ser entendido nos EUA como “o princípio”, já que class quer dizer “turma, equipe, grupo”. O problema é que a tradução literal inevitavelmente nos lembra a Primeira Classe dos aviões. Por que não deixaram no original (First Class), tal como fizeram (horrivelmente) com Batman Begins? Neste caso aqui, uma tradução ou uma versão seria mais decente: “Batman, o primórdio”, por exemplo.
    Outro exemplo famoso de tradução infeliz é o filme “Corpo Fechado” (Unbreakable), que faz alusão às religiões afro, algo nada a ver com o filme. Neste caso também, por que não deixaram o título no original, ou então que deixasse o título tal como ficou em Portugal: “O protegido”.
    A propósito, quem é responsável no Brasil pelas traduções oficiais dos títulos dos filmes?

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  7. Pelo que sei, a equipe de marketing de cada estúdio cuida dos títulos. Provavelmente o trocadilho que você aponta deve ter sido planejado assim no original, como é de praxe nos EUA, mas aqui os tradutores não dão muita bola para isso…

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  8. Sem dúvida, este filme conseguiu trazer os mutantes de volta ao seu lugar de direito na telona.
    Trama bem elaborada, atores decentes, contexto historicamente relevante…
    A Marvel acertou de vez aqui.
    Pena que a DC tenha pisado na bola com o Lanterna Verde…
    Valeu.

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  9. Para mim, o filme foi excelente e conseguiu cumprir o objetivo de revitalizar a franquia. Mas houve personagens muito interessantes que foram deixados de lado, tipo Emma Frost e Mística.
    Emma era para ser uma das participações mais marcantes, pois é a segunda telepata da franquia. Fora que é a inimiga nº 1 da Jean Grey. Sua personalidade em X-Men First Class se resumiu a cumprir meras ordens, nas HQs ela era muito mais manipuladora.
    Mística não convence e sua decisão final foi meio nonsense, afinal o conflito entre os dois lados até então não envolviam muito ela. A personagem da Angel representa bem o que seria uma Mística coerente. Fora que ela nem dirige a palavra ao Xavier na primeira trilogia, se ela era tão ligada o que a fez se tornar uma desconhecida?

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  10. o drama de mística é melhor explicado nos quadrinhos, que na verdade netuno é filho dela e há toda uma trama envolvendo os personagens em mais de 30 anos de HQ. quem sabe nos próximos filmes, não?

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