Namorados Para Sempre

[rating: 4]

“… E foram felizes para sempre”. Desde criança, todos ouvimos essa frase dezenas, talvez centenas de vezes em narrativas ficcionais. Essa experiência, evidentemente, tem conseqüências no cinema. Nove em cada dez filmes assumem essas aspas, explícita ou implicitamente, ao terminar com o casal protagonista superando eventuais dificuldades para ficar junto. O que acontece depois disso, na vida real, não costuma repetir a ficção. O raro e amargo “Namorados Para Sempre” (Blue Valentine, EUA, 2011), primeiro longa-metragem ficcional de Derek Cianfrance, é um duro choque de realidade nessa ilusão romântica, e espelha com bastante fidelidade tanto a alegria embriagada de um início de namoro como as lágrimas desesperadas de um final, apresentando as duas coisas como faces de uma mesma moeda.

De certo modo, “Namorados Para Sempre” é o projeto da vida de Cianfrance, que escreveu a primeira versão do roteiro baseando no seu próprio casamento fracassado. Desde então, foram mais de 60 versões diferentes da história, enquanto o diretor trabalhava em documentários e buscava financiamento para a empreitada. Demorou, mas deu tudo certo, e Cianfrance foi capaz até mesmo de reunir dois bons atores jovens no papel do casal que vive dois momentos distintos de uma trajetória muito humana e real, compartilhando momentos de amor e dor na mesma proporção.

Esta é a história de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams). Ele pinta paredes (“um dos poucos empregos em que posso abrir uma cerveja de manhã sem problemas”), ela é enfermeira. O roteiro do filme entrelaça duas cronologias distintas, cobrindo o nascimento e a morte da relação afetiva. As temporalidades diferentes são facilmente reconhecíveis ao espectador, já que Cianfrance teve o cuidado de empregar paletas de cores diferentes (tons quentes para o começo do namoro, filmado em Super 16mm; e tons frios para o final, registrado em digital de alta definição, com câmeras RED). Os movimentos de câmera, mais suaves na primeira cronologia e bruscos na outra, reforçam essa distinção.

A montagem que vai e volta no tempo é a grande sacada do filme, e não apenas porque delineia com mais clareza as mudanças de comportamento das duas partes do casal (essas mudanças seriam mais sutis em uma cronologia linear), mas sobretudo porque permite que o espectador perceba como determinadas qualidades de cada parceiro, vistas como uma virtude no início do namoro, se transformam aos poucos em defeitos insuportáveis que estremecem o casamento rumo ao final. Por exemplo, a impulsividade de Dean, que no começo lhe deixa charmoso aos olhos de Cindy e determina o sucesso das investidas dele ante a hesitação dela, torna cada vez mais difícil o sucesso das tentativas de manter o casamento em meio ao caos, anos mais tarde.

Tudo isso é filmado com discrição pela câmera inquieta de Cianfrance. Ao invés de forçar os grandes close-ups de rostos que dominam a maior parte dos filmes abundantes em diálogos neste século XXI, o diretor novato opta por planos mais longos, com a câmera afastada, e isso enfatiza o trabalho dos dois atores, ambos claramente confortáveis num material bastante incomum para um filme norte-americano. Gosling e Williams interpretam através de estilos distintos, perfeitamente compatíveis com cada personagem. Dean é um sujeito visceral, físico, meio ansioso, e isso combina com a energia corporal de Ryan Gosling. Já Michelle Williams é uma atriz mais delicada, reativa, de olhar atento, e se dá melhor com personagens mais passivas, embora firmes. Juntos, os dois brilham e elevam “Namorados Para Sempre” a um patamar mais alto.

Não se trata de uma obra-prima. Não custa nada lembrar que o cinema europeu, sobretudo o francês (os filmes verborrágicos e deliciosos de Eric Rohmer vêm à mente, já que o ex-crítico dos Cahiers du Cinéma adorava discutir uma relação), lida com separações traumáticas e crises conjugais há muitas décadas, em registros que vão do trágico ao cômico. Mas a crueza com que o casal de “Namorados Para Sempre” transita com desenvoltura do paraíso ao inferno, e a maneira franca como o diretor conduz os atores por esse caminho doloroso garante forte potencial de empatia com o público adulto. Não se surpreenda se o filme grudar na mente como um chiclete que não quer desgrudar do dente.

– Namorados Para Sempre (Blue Valentine, EUA, 2011)
Direção: Derek Cianfrance
Elenco: Ryan Gosling, Michelle Williams, John Doman, Mike Vogel
Duração: 112 minutos

18 comentários em “Namorados Para Sempre

  1. Quer dizer que você tirou uma estrela do filme por que a temática não é original e não foi tratada num estilo mais europeu? Considero essas expectativas injustas, pois dentro do contexto do cinema americano, esse filme é mais que excepcional, e merece reconhecimento. Os atores estão excelentes, interpretando personagens bem esféricos e a narrativa é extremamente intimista, como não via há tempos.

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  2. Não, Marco, eu tirei uma estrela porque o filme tem problemas (menores, mas problemas) dos quais não tratei dentro da crítica. Por exemplo, a construção dos personagens, embora correta, segue direitinho a cartilha Sundance de filmes alternativos (aliás, o trabalho de câmera e até a trilha sonora também o fazem). Mas, afinal de contas, são quatro estrelas. O filme é ótimo.

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  3. Pior filme que ja vi no cinema, fui pensando ser um otimo filme, daqueles que fazem agente chorar, refletir… quando li a sinopse fui com meu marido pensando que a historia do filme seria linda, enfim… o filme eh um saco, odiei, e o nome tambem engana: Namorados para sempre, nao é para sempre… é um amor ridiculo e tao fraco que nem ssupera uma crise…. ridiculo, quando acabou nem acreditei que tinha acabado, ainda tava esperando a mudanca na relacao deles, como dizia a sinopse… Nao vejam esse filme, nao vale a pena!

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  4. Uma sugestão para o blog, Rodrigo: Uma parte no final da crítica do tipo “Se você gostou desse filme, vai gostar de:…”
    Porque tem filmes relacionados ao lado mas não são sugestões pessoais suas a partir do gostar ou nao do filme.
    Enfim…
    É isso. =)
    abs

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  5. Rodrigo,

    Também gostei muito do filme, e minha visão foi bem parecida com a sua. Mas acho que, quanto à utilização dos planos, os fechadíssimos, close-ups que chegavam a cortar parte da cabeça dos atores é que me impresionaram mais, me passando a sensação de claustrofobia da relação. Tambem escrevi sobre o filme aqui: http://bit.ly/jun7wt
    Abraços!

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  6. Oi, Rodrigo, na minha opinião o q levou à separação dos dois foi, principalmente, a questão de q eles tomaram caminhos diferentes na vida. A gente vê desde o início a moça com ambição de ser médica e ele desvalorizando o pp segundo grau, q diz não possuir. Ele consegue fazer Enfermagem e fica altamente frustrada pq sente q ele tem potencial intelectual e artístico q não utiliza, contentando-se em se ocupar em sub-empregos. Apenas aquela paixão inicial q os uniu, a proteção q ele lhe deu ao assumir a gravidez de outro homem não poderiam segurar mesmo um casamento por mais tempo.
    Beijos

    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

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  7. Filme que leva a uma análise dos caminhos que a vida nos leva e suas consequentes frustrações…

    Minha esposa detestou mais eu adorei! Eu nunca encarei os relacionamentos como contos-de-fada, sempre disse logo no início deles (já estou no segundo casamento) que não haverão flores nos nossos caminhos e a nossa vitória ou derrota dependem, grandemente, da nossa vontade de enfrentar esses conflitos e principalmente do grau de clareza de cada um sobre si mesmo e sua (seu) parceira(o).

    Nenhum relacionamento é fácil, ou uma das partes abstrai e anula a individualidade (haja Prozac e Rivotril) ou se busca um equilíbrio entre o que é “Eu” e o que é “Nós”, com barreiras bem definidas.

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