Deixe-me Entrar

[rating: 3.5]

O pequeno filme sueco “Deixa Ela Entrar” (2008) despontou com rara unanimidade na segunda metade da década de 2000. Misto de filme de horror com parábola melancólica sobre a chegada da adolescência, o longa-metragem de Tomas Alfredson aglomera grande quantidade de virtudes, raras de serem vistas num só filme: excelente roteiro – com subtexto nada óbvio e cheio de sutilezas –, atuações estupendas, fotografia deslumbrante, efeitos especiais discretos. Alinha-se sem sombra de dúvida entre os melhores lançamentos da década, e poderia ter sido facilmente um dos grandes sucessos do período, não fosse um pequeno e significativo detalhe: diálogos em sueco. Esse fato determinou a realização de um remake obviamente desnecessário, que ganhou o nome de “Deixe-me Entrar” (Let me In, EUA, 2010).

Nesse ponto, cabe um parêntese para explicar que refilmagens de produções não faladas em inglês e que fizeram sucesso internacional de crítica e público se tornaram uma rotina no cinema norte-americano, sobretudo a partir dos anos 1980. A razão principal se deve a um fator cultural: cidadãos nascidos no país que mais consome cinema não têm o hábito de ver filmes com legendas. Sete em cada dez norte-americanos evitam freqüentar salas de projeção que exibam filmes falados em outra língua. Assim, para capitalizar em cima de títulos com sucesso comprovado, os produtores dos EUA costumam comprar os direitos de tais filmes e refazê-los na língua inglesa. Foi isso que aconteceu aqui.

O diretor chamado para o trabalho, Matt Reeves (“Cloverfield”), pelo menos teve bom senso. Sabia que estava diante de uma pequena jóia cinematográfica, e tratou de respeitar o material original. Embora tenha estudado o romance que deu origem ao título sueco e assinado o roteiro da refilmagem, Reeves compreendeu e aceitou que o trabalho de adaptação original da literatura para o cinema (realizado pelo próprio autor do livro, John Ajvinde Lindqvist) estava muito bom. Tratou, então, não ceder às tentações de enfiar algo “autoral” no enredo, o que poderia estragar o original. Ele limitou-se a repisar as pegadas deixadas por Tomas Alfredson, mudando muito pouco da ambientação, da direção de arte e dos diálogos. As principais alterações consistem em uma pequena mexida na cronologia linear da trama original; na substituição de uma locação (uma cena que ocorria num banheiro agora tem vez dentro de um carro); e na retirada de fragmentos do subtexto que tinham cunho sexual, além de em alterações na decupagem original, com a escolha de posições de câmera mais próximas dos rostos dos atores, um tique estilístico comum em Hollywood.

Ainda que mínimas, essas mudanças são significativas o bastante para diluir a força de “Deixa Ela Entrar”. O embaralhamento cronológico é desnecessário (talvez a única intervenção “autoral” do novo diretor), enquanto a nova cena dentro do carro funciona bem dentro da lógica do cinema americano, que privilegia a ação física à emocional. As alterações na decupagem, embora possam passar despercebidas aos menos atentos, funcionam contra a história, que perde um pouco do seu caráter desolador e melancólico. Podemos percebê-las claramente no clímax do filme, situado dentro de uma piscina – uma cena sangrenta, bela e impressionante no original, e apenas ordinária na refilmagem. E a retirada do subtexto sexual implica na perda de parte da força do personagem da menina, magnificamente ambígua na obra sueca.

Isso posto, o trabalho de Matt Reeves na direção de atores é digno de nota. Os dois atores adolescentes, já com alguma experiência e muito elogiados pela crítica americana por trabalhos anteriores (ele foi companheiro de Viggo Mortensen no excelente “A Estrada”; ela esteve ao lado de Nicolas Cage em “Kick-Ass”), oferecem desempenhos fortes, enquanto o veterano Richard Jenkins brilha no papel taciturno do guardião da estranha garota que se muda em pleno inverno glacial para bagunçar o coreto de Owen (Smit-McPhee), o magrinho vítima de abuso na escola. De fato, talvez Matt Reeves tenha feito aquilo que todo diretor de refilmagens desnecessárias deveria realizar: não atrapalhar, ou tentar preservar algo da magia da obra original, deixando o público desfrutar o máximo possível daquilo que já era bom.

– Deixe-me Entrar (Let me In, EUA, 2010)
Direção: Matt Reeves
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono
Duração: 116 minutos

14 comentários em “Deixe-me Entrar

  1. Concordo em partes, mas a ambiguidade da pequena vampira no original em parte se deve à própria atriz e sua beleza “exótica”… Havia no original uma sexualidade implicita, uma culpa que era aumentada por ser o menino praticamente uma criança – no americano ele se torna um adolescente em busca do amor e sexo, e é essa busca que tira a inocência bela do personagem na versão européia. As atuações americanas, sinceramente, me irritam. A garotinha é um projeto de pequena estrela e o menino parece possuir somente uma expressão.

    O original seria perfeito se não fosse a cena dos gatos (num terrível CGI)…

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  2. To sentindo faltas das criticas de filmes alternativos ao circuito blockbuster. vim procurar algo sobre copia fiel e não encontrei… gostaria de ver sua opinião sobre ele 😦

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  3. Os dois filmes são excelentes…. Por ter lido a critica do primeiro e saber da existência do remake fiz questão de assisti-los, com intervalo de um dia, na sequência correta(som original e legendas em espanhol).

    Muito do que foi dito aqui faz justiça ao original sueco, mas penso que a refilmagem tbm tem seu valor.

    É inegável que o filme sueco possui algumas vantagens, pela fotografia, pelo desempenho impecável da sua dupla de atores (a garota é fantástica), e uma “eventual” maior fidelidade à obra literária (embora não tenha lido o livro). Existe uma maior sutileza de sentimentos, enquanto que no remake a relação afetiva das crianças(ou pré adolescentes) é ostensivamente explorada.

    Na versão americana, achei interessante a mudança na cronologia e entendo que o desempenho do ator Richard Jenkins é superior ao seu “colega” sueco. Acho que o roteiro tbm ajudou pois suas cenas na versão hollywoodiana são muito mais factíveis. A substituição de personagens (a inclusão do investigador e do casal de vizinhos no lugar dos freqüentadores do bar) é uma mudança interessante na história que, na minha opinião, foi melhor explorada no remake.

    Também as cenas de violência protagonizadas pela menina foram mais assustadoras na versão americana, talvez em função de recursos técnicos superiores (concordo com o comentário acima, sobre a cena dos gatos no original… muito ruim!)

    Como saldo final, só posso recomendar que assistam aos dois filmes , de preferência na devida ordem.

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  4. O original “Deixa ela entrar” é mesmo um excelente filme! Assisti esta refilmagem nos cinemas há alguns meses aqui em Brasília. Apesar de inferior ao original, é um bom filme, mas muitos dos melhores elementos da obra original foram completamente ignorados nesta refilmagem. A personalidade dos garotos não é a mesma, no sueco eles praticamente formavam um único personagem e o filme dava margem à diversas interpretações, o remake perdeu todo o subtexto da trama original. Algumas pessoas falam mal da cena do gato mas se esquecem que os (d)efeitos de computação do remake são terríveis, muito fraco mesmo! É só dar uma olhada na cena em que a Abby ataca uma de suas vítimas, os efeitos mais atrapalham do que ajudam. E sim, a cena dos gatos no “Deixa ela entrar” é uma boa cena! Por fim, fiquem com o original, um filme muito mais complexo, a refilmagem é mais uma produção desnecessária.

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  5. Não assisti ao filme original, então comento somente o ponto de vista do remake. Você sabe que não gosto de filmes desse gênero, mas eu fiquei muito agoniada e perturbada assistindo “Deixe-Me Entrar”. Os dois atores mirins são excelentes e atuaram de uma forma muito competente aqui. E acredito que o diretor soube usar bem elementos como a trilha sonora para criar um clima de tensão que contribui para o “sucesso” deste filme. Achei, para resumir, “Deixe-Me Entrar” um ótimo thriller psicológico, que me deixou com muita vontade de conferir a obra original.

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  6. Olá Rodrigo. Gostei da sua crítica e, mais uma vez você demonstra que tem bom conhecimento sobre as técnicas de cinema. Texto coeso, objetivo no qual são colocadas suas impressoes sobre o filme, sem estragar suas surpresas, no que se refere ao seu contéudo. Também concordo que o original é melhor e o considerado uma obra-prima no gênero, principalmente no modo inovador ousado e, até mesmo pertubador como tratou o clássico tema do vampirismo. Mas também em vista da importância que “Deixe ela entrar” adquiriu ao longo do tempo, seu remake não faz feito e suas qualidades (que você soube enfatizar) é melhor que a média dos filmes atuais de terror e sobre vampiros. Até hoje, não consigo ver nada atraente na franquia Crepúsculo, que ao meu ver não passa de um caça níquel que demoliu tudo aquilo que havia de interessante nas criaturas da noite reduzindi-as a seres apáticos, assexuados com uma constante aparência de anemia. Mesmo uma comédia desprentesiosa e propositalmente ruim como “Matadores de Vampiras Lébiscas” soube dar um tratamento mais coerente aos vampiros do que a série de Meyer, que em quatro capítulos demoliu um mito que Stoker e outros escritores ao longo de um século demoraram anos para criar.. Por isso, “Deixe-me entrar” é um filme de terror que merece respeito, uma vez que não ofende e substima a inteligência do espectador. É isso. Abraço.

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  7. Ainda não assisti o original. Mas o “remake” com certeza vale a pena assistir.

    “Deixe-me entrar”:
    Não é aqueles filmes que perdem tempo explicando (concretizando o óbvio), deixando os mais inteligentes incomodados, também não são aqueles “quebra-cabeças”, no passar da trama a história vai se desenrolando. A atriz Chloe Moretz mostrou sua impecável atuação, protagonizando Abby (uma vampira), “comparo-a a Natalie Portman, linda e uma ótima triz”; o ator Kodi Smit-McPhee, protagonizando Owen, um jovem solitário sem amigos, sem a presença emocional de sua mãe e física de seu pai, mostrou mais uma vez sua excepcional atuação com personagens do gênero dramático como, por exemplo, sua atuação em “A estrada”. Dylan Minnette (Kenny), mostra um personagem atormentado pelo irmão Brett DelBuono (Irmão de Kenny) e desconta sua raiva em Owen. A maquiagem do filme em si, é sem dúvida excepcional trazendo um mundo sombrio e sem vida. O filme é simples e objetivo, conta com terror na hora certa sem ser apelativo, suspense sem ser explicativo e romance sem ser piegas como, por exemplo, e sem menosprezar claro a saga “Crepúsculo”.

    “Pode virar saga”:
    A trama é tão original e muito bem “bolada”, que poderiam fazer uma saga a partir do mesmo, fazendo com que a cada “temporada” fosse acrescentando mais ação, “pois os personagens irão crescer e não vão querer ficar atrás da moita, iram lutar por seus objetivos” e claro conservando os atores. “Deixe-me entrar”, mostra Abby uma personagem que diz ser transsexual, então por que não entrar mais no assunto? Revelando ao público o homossexualismo do personagem Kenny, que custa a infernizar Owen o chamando de “garotinha” ou “menininha” não me lembro bem… Pois mesmo estando em pleno séc. XXI, os produtores etc. ainda não “assumiram” que existe este tipo de público, quando “mostram” um homossexual, colocam-no como plano de fundo só de mão dada, etc. Você que está lendo pense bem, “Deixe-me entrar” não daria uma bela saga?

    Comente sobre essa minha idéia de: A Saga de Deixe-me Entrar, coloque seu ponto de vista e de sua opinião…

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  8. Olá pessoal, de novo…
    Agora sim assisti ao original e poderei falar algumas diferenças que eu percebi.
    E Rodrigo Carreiro parabéns pela crítica, que está muito clara, não acrescentando palavras “difíceis” fazendo com que o leitor não precise ficar buscando o significado.

    Diferenças sobre o “original” e a “regravação”:
    Orig. foi até digamos que um pouco mais explicativo em algumas cenas, como a personagem “patricinha” (que não foi nada patricinha no orig., concerteza) dizendo: “Ela pode ter transmitido alguma coisa pra mim quando me mordeu”, na cena em que ela está no hospital, sendo que o mesmo seria claro na cena em que ela morre.
    “Deixa ela entrar”, foi mais “abusado” com um ar de (que se foda) colocando cenas mais “agressivas”, mostrando personagens sem muita “maquiagem” digamos, diferente de “Deixe-me entrar” que sutilizou a figura dos personagens deixando-os mais amigáveis e românticos.
    Ex: no orig. as personagens se falam, se tocam… um pouco mais e têm movimentos mais agressivos,apressados e desinibidos, cenas como: Elli correndo; passando a mão no menino na cena em que ela retira a roupa e vai deitar com ele na cama, mostrando o órgão genital de Elli, o menino alertando Elli na cena do banheiro, confirmam isso.
    Regr. deletou algumas cenas do orig. como diz Rodrigo, e utilizou efeitos especiais na cena debaixo da ponte deixando Abby mais (sobrenatural), que pra mim ficou melhor, mostrando outra face da personagem.
    Elli anda calçada diferente de Abby que passa o tempo todo descalça então o orig. nos faz pensar: por que Elli ficou descalça somente na cena em que vai visitar o “pai” ?

    A cena dos gatos: assim como alguns aqui disseram que não gostaram, eu também não gostei, não por causa dos efeitos especiais (que dignos de passagem foram bons), mais sim por não acrescentarem muita coisa ao filme e até fazendo-nos pensar, porque os gatos atacaram ela ? (não tem sentido), será que o vírus vampirístico transformou-a num petisco ambulante para gatos ?
    Cena da piscina: na minha opinião o orig. foi um pouco apelativo, acrescentando muitos braços e cabeças cortadas, jogando-as na piscina, enquanto a regr. utilizou sim cabeças e braços, mais em menor quantidade, para então acrescentar mais sangue a cena. Mas vale dizer que a cena do orig. foi melhor em questão da agressividade.
    Cena do bar, apenas apresentado pelo orig.: foi uma cena que nada acrescentou ao filme.
    Em relação ao elenco: Tanto no orig. quanto na regr. foram feitas boas escolhas, apenas acrescentando que o menino do orig. deixou um pouco a desejar na cena em que é chicoteado, não permitindo que o personagem passa-se com maestria a sensação de dor ao público.
    Orig.: devesse elogiar a cena em que Elli sangra ao entrar na casa sem permissão, mostrando mais detalhadamente o sangue saindo da mesma; e também o belo efeito visual mostrado no personagem “pai de Elli” na cena em que a mesma vai visitá-lo, em minha opinião seria mil vezes melhor que a regr., se não fosse pelo simples erro que, só um lado de sua face estava deformado, quando o mesmo jogou acido no rosto inteiro. (Nossa como eu sou detalhista, RSS…).

    Obs.: Algumas pessoas podem confundir beleza e atuação, dizendo: “a atriz que fez a regr. foi muito mais bem sucedida em sua atuação”, quando na verdade sua beleza excepcional pode tirar um pouco a atenção de sua atuação (sem querer dizer que ela não atue bem e também sem menosprezar a beleza da atriz do orig. que por sinal tem beleza única).

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  9. SPOILERS À FRENTE (não leia se não tiver assistido aos dois filmes)

    Achei muito interessante sua análise. De fato, a retirada dos temas sexuais da trama fizeram muita diferença. Em entrevista, o diretor Matt Reeves disse que não havia coerência se a personagem de Chloe Moretz fosse um menino, devido à sua aparência demasiada feminina. Porém isso indica (pelo menos, na minha opinião) que não houve uma seleção de elenco minuciosa, levando em conta que remakes são quase sempre feitos às pressas.
    Foi um golpe de sorte achar americanos mirins tão talentosos, a atuação de Chloe é incrível, mas sua personagem no original era andrógina. Isso fica claro nas entrevistas com o diretor Tomas Alfredson, que só realizou sua versão após achar os protagonistas ideais. Ele buscava uma menina com aparência andrógina tal qual a do livro, então acho que a retirada da androginia no longa americano deveria ter sido melhor pensada, afinal não é um detalhe mínimo, era algo crucial para que a história funcionasse.

    SPOILERS

    É claro que Matt Reeves fez uma excelente adaptação, porém acredito que faltou mais coragem para acrescentar coisas que o original não havia posto. Ex: o homem que cuida de Eli é um pedófilo. Isso não foi muito explorado em nenhum dos longas, mas no livro contavam sua origem. Outra coisa foi o passado da menina, acredito que este acréscimo (diferente do anterior) poderia ser mais interessante. No livro há vestígios de seu passado através de algumas lembranças, o assunto da pedofilia mais uma vez foi suprimido.

    É interessante que o livro coloca dois pontos de vista a respeito de pedofilia: um é o próprio Elias (nome verdadeiro de Eli) castrado na infância com algumas desconfianças sobre o que mais fizeram com ele. A outra é através do próprio pedófilo que cuida da menina(o), retratado de forma mais piedosa, porém doentia.
    Obs: nenhum desses 2 pontos foi bem explorado em nenhum dos filmes, algo que o remake poderia ter solucionado, nem que seja apenas pelo primeiro ponto (já que o segundo provocaria muita polêmica).

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  10. Geralmente, quem diz que o remake é fraco e a cena dos gatos do original é uma boa cena, é só mais um anti-americano ( apesar que eu também estou me tornando um ).
    Gostei mais do remake.

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  11. O original sempre tem vantagem sobre o remake em qualquer cultura ou obra, o que tem a se destacar é a prepotência de um povo, ou a maioria daquela população, que não dá valor a profissionais de outros paises. Os norte-americanos são “anti-mundo”, então um pouco de anti-americanismo, não faz mal a ninguém.

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