Thor

[rating: 2.5]

“Thor” (EUA, 2011) não foi planejado pela Marvel como um filme. O projeto está mais para um elo, dentro de uma cadeia de eventos, que prepara o público – especialmente a fatia dele que acompanha o universo da editora nos quadrinhos – para um acontecimento cinematográfico cataclísmico, cujo terreno vem sendo aplainado desde 2008 e que tem data marcada para 2012: a versão para cinema de Os Vingadores, o grupo de super-heróis da editora. Isso não é especulação; é um fato. E um fato que interfere em praticamente todas as decisões criativas tomadas para este filme, a começar pela escalação do diretor e do elenco.

A maior surpresa do filme, aliás, consiste no nome que está sentado na cadeira de diretor. Kenneth Branagh certamente está longe de ser uma escolha óbvia, mas tampouco corresponde a uma ousadia. Tem um passado respeitável como cineasta e ator shakespeareano por excelência, e transita com bastante desenvoltura em projetos comerciais que flertam com cultura pop (“Frankenstein”, “As Aventuras de James West”, “Harry Potter e a Câmara Secreta”). Um pouco de raciocínio lógico é suficiente paras perceber porque ele foi colocado no cargo pela Marvel – trata-se de uma tentativa de dar subtexto trágico ao filme, explorando os traumas de uma turbulenta relação pai-e-filho, algo muito comum na obra de Shakespeare, que Branagh conhece tão bem.

Esta é, também, uma razão palpável para a escalação de Anthony Hopkins no papel de Odin, pai de Thor (Chris Hemsworth) , deus nórdico punido por sua impulsividade e enviado para a Terra por causa disso, após uma intrincada armação montada por seu camaleônico irmão Loki (Tom Hiddleston). Também inglês, Hopkins é igualmente versado nas peças do maior dramaturgo da humanidade. O resto do elenco equilibra novatos com nomes consagrados que dão estofo dramático e atraem platéias não-familiarizadas com os quadrinhos (Natalie Portman, Stellan Skasgaard), rostos conhecidos (Samuel L. Jackson, Jeremy Renner) em pontas que serão transformadas em personagens de maior destaque, nos elos vindouros da tal cadeia de eventos mencionada no primeiro parágrafo deste texto.

Como se pode ver, é tudo meticulosamente calculado em proporções milimétricas. “Thor” foi pensado como uma obra que equilibra humor com pathos, montada em camadas sobrepostas, que proporcionam uma aventura convencional (com pitadas de romance e drama familiar) para um público mais amplo e lança piscadelas para um público mais segmentado (os fãs de quadrinhos). De certo modo, até que funciona. Mas não muito: como aventura é meio chocha (em parte porque os Gigantes de Gelo, adversários dos nórdicos e vilões da trama, jamais parecem realmente ameaçadores, não importa quão grave é a voz do seu líder); como romance não engrena nunca; como tragédia familiar incorpora apenas alguns relances do que poderia vir a ser. De quebra, o tom mais solene (há humor, mas não muito) dá um verniz kitsch ao trabalho.

Obedecendo rigidamente ao plano dos executivos do estúdio, toda a safra da Marvel pós-Sam Raimi vem padecendo do mesmíssimo mal: o excesso de cálculo, a energia criativa colocada excessivamente em algum momento nebuloso do futuro (esquecendo, assim, do presente). Isso vem gerando um monte de filmes anódinos, sem gosto como chiclete de tutti fruti, produtos dirigidos e lançados como se não passassem de trailers de luxo para um evento futuro. Por mais que tudo isso gere expectativa dentro do círculo de fãs dos quadrinhos, quem está fora desse grupo – somos maioria, acredito – e freqüenta cinemas à procura de entretenimento com calor humano ainda está à espera de algo tão divertido quanto os dois primeiros “Homem Aranha”.

– Thor (EUA, 2011)
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins
Duração: 114 minutos

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13 comentários em “Thor

  1. Esse filme dos Vingadores não tem precedentes. Nunca tantos super-heróis foram reunidos. Acho que não terá meio termo. Será memorável, … ou frustrante.

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  2. Daria 3 estrelas. Achei bom mas com um potencial incrível de ser um filmaço que infelizmente ficou só no potencial. Talbvez se fosse um filme de 2 30h e desenvolve-se melhor os personagens tivesse sido melhor. Mas tem pontos positivos. Achei todas as partes em Asgard fantásticas. O filme poderia até se passar todo lá. As lutas, o visual, até as interpretações em Asgard são melhores. Quando o filme vem para a Terra (ou Midgard) é que cai bastante com velhas piadas estilo Starman. Mas o final em Asgard novamente é muito bom. No geral daria no mínimo 3 estrelas. Gostei (mas sempre achando que poderia ser melhro).

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  3. Eu gostei de “Thor” no sentido de que ele é uma excelente diversão. Um filme leve, bem humorado e que funciona muito mais do que “Besouro Verde”, que é uma obra que também não tem uma escolha óbvia de diretor, mas é totalmente sem graça.

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  4. Kamila, na minha opinião o termo “excelente” não se aplica a esse filme em nenhuma circunstância. Não gostei de praticamente nada nele, nem mesmo no uso do humor. Não acho que caia bem no personagem, como era o caso em “Homem de Ferro”, ou “Homem-Aranha”. Mas, enfim…

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  5. O humor e contraste entre o mundo real dele com o nosso mundo, sinceramente, me lembraram um pouco “Encantada”, naquelas cenas da princesa Giselle chegando no nosso mundo e pagando milhões de micos! rsrsrs

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  6. Sou leitor de quadrinhos,gostei do filme do Thor!

    É um filme bom,nada mais!!

    Mas por mais que eu tenha gostado sei que os filmes da Marvel não passam de uma masturbação!!

    Um passatempo enquanto não chega o prato principal(Vingadores)!!

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  7. Também não figuro entre os fãs dos quadrinhos da Marvel e não estou tão empolgada assim com a chegada de “Os Vingadores”, mas enfim… Gosto de “Thor”. Talvez o fato de não conhecer a HQ e de ter ido ao cinema com uma expectativa péssima tenha ajudado, mas a verdade é que saí da sala de cinema satisfeita.

    Acho que o humor funciona muito bem – mesmo concordando com kamila em relação ao paralelo com “Encantada” – a história é redonda, a química entre os atores flui… No entanto concordo com a sua última observação, Rodrigo, ainda aguardo por algo tão empolgante quanto os primeiros “Homem aranha”. Inclusive, tenho medinho dessa renovação da série, mas depois do fiasco do terceiro provavelmente não havia outra escolha mesmo…

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  8. Sou fã de HQ’s DA MARVEL E EM ESPECIFICO NO FILME THOR, ACREDITO QUE ELE MOSTROU BEM A HISTORIA E FOI UMA DAS MELHORES ADAPTAÇÕES DA MARVEL PARA O CINEMA. CLARO QUE O OBJETIVO É PREPARAR TERRENO PARA OS VINGADORES, MAS NÃO FARIA SENTIDO JUNTAR UM GRUPO DE HEROIS SEM QUE O PUBLICO CONEHECESSEM SUA ORIGEM. OUTRA PONTO A SER OBSERVADO É QUE O PERSONAGEM SE BASEIA NUM DEUS NORDICO E SUA HISTORIA MESMO ADAPTADA ÀS HQ’s AINDA É FIEL A MITOLOGIA.

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  9. Rodrigo, estou curiosíssimo pra ler uma crítica sua sobre o filme do Capitão América…
    Se vc deu 2 estrelas e meia pro Thor (q eu concordo em grande parte), fico imaginando qtas A MENOS vc dará pro Capitão… 😛
    Bom trabalho!

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  10. Sou fã de quadrinhos e gostei bastante do filme. E muito gratificante ir ao cinema, para mim, e ao ver uma adaptação dos quadrinhos encontrar cenas inteiras baseadas nestes, muitas vezes, inclusive no enquadramento. Para quem le e compra gibi, é uma demonstração de respeito da Marvel.

    Mas entendo que o público em geral não goste ou não ache isto nada demais.

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