Rio

[rating: 3]

No rastro do lançamento nos cinemas de “Rio” (EUA, 2011), dois tópicos dominaram a discussão da crítica brasileira a respeito do longa-metragem de Carlos Saldanha. Em primeiro lugar, o tamanho avassalador do lançamento, verdadeira blitzkrieg que ocupou mais de 1.000 salas de projeção de uma só vez, batendo todos os recordes do circuito exibidor nacional. Em seguida, mas com destaque idêntico, a autêntica enxurrada de estereótipos a respeito da imagem do Brasil no exterior (mulatas de bunda grande, povo pouco afeito ao trabalho, Carnaval extravagante, crianças pobres que não inspiram confiança etc.) que o filme abraça com naturalidade. Quase todos os críticos que falam português somaram dois mais dois para chegar, quase em uníssono, à mesmíssima conclusão: “Rio” não passa de produto de marketing que perpetua clichês multiculturais a respeito do país, contribuindo pouco ou nada para nossa imagem turística.

É meio difícil discordar de tais opiniões. No entanto, parece-me que nenhuma delas credencia o filme automaticamente a ser atirado na lata de lixo cultural de maneira incondicional (ênfase na palavra “automaticamente”, por favor – mais sobre isso em um momento). Vamos nos deter por um instante em cada argumento. “Rio” é uma espécie de produto de marketing travestido de longa-metragem? Qual a grande novidade disso? Alguém poderia apontar um único blockbuster realizado nos últimos 10 ou 20 anos que não o seja? De fato, trata-se de uma situação lamentável, que em números estritamente brasileiros é levada ao extremo. Por si só, contudo, tal fato não deveria condenar um filme ao ostracismo, nem determina incondicionalmente sua pobreza estética. Um longa-metragem pode botar olho gordo no marketing e ter tutano. “Toy Story 3” (2010) está aí e não nos deixa mentir.

A segunda alegação – a perpetuação de clichês que não acrescentam nem modificam nada à maneira como o Brasil é visto em Hollywood – também é verdadeira. Mas o que esperar de um filme desse tamanho? Um tratado antropológico sobre praias e crianças pobres? Uma tese de doutorado sobre as agruras e delícias de ser brasileiro num país cheio de contradições? Seria justo cobrar do diretor Carlos Saldanha, brasileiro que é, uma radiografia precisa do Brasil do século XXI, em um filme destinado a ser consumido por crianças com menos de 10 anos de idade? Vale a pena cobrar precisão histórica e complexidade de um “produto de marketing”? E se é assim, por que ninguém falou do estereótipo com que Saldanha filmou os campos cobertos de neve, os caipiras meio burros e a vida modorrenta do Minessota (EUA)? Não é verdade que longas infantis, de modo geral, se alimentam de (e alimentam os) estereótipos – algo certamente incômodo, mas que não é privilégio deste filme em particular?

As duas questões parecem incomodar os detratores do filme muito mais por razões de ordem moral do que estritamente cinematográfica: se o sujeito é brasileiro, tem certas obrigações com uma representação ficcional do país dele que não possui com outros países. Isso renderia um estudo muito mais profundo do que cabe nesse espaço, de forma que me parece mais sensato – especialmente no calor da discussão – deixar esses tópicos de lado e se concentrar em um objetivo mais modesto: analisar como Saldanha organiza os códigos do cinema de animação infantil, dentro do padrão altíssimo imposto ao gênero por uma certa empresa que leva o nome de Pixar. E aí reside o X da questão. Acontece que tanto do ponto de vista técnico (qualidade da animação) quanto do argumento (especialmente estrutura narrativa e personagens), “Rio” é um longa-metragem derivativo e pouco inspirado.

Não é preciso ser grande conhecedor da história da animação para reconhecer no argumento do filme temas e personagens tão velhos quanto o próprio cinema. “Rio” trata de autoconhecimento, de aceitação das diferenças, de solidão, de resistência às mudanças, de busca pela própria natureza. Temas universais que foram, no caso específico do filme de Saldanha, trabalhados num argumento que tem semelhanças demais com outras animações recentes – sobretudo “Madagascar” (2005), cujo roteiro foi copiado de modo inconteste, e “O Rei Leão” (1994). Nos três casos, podemos resumir o filme com a mesmíssima frase: animal selvagem criado longe de seu habitat natural é forçado pelas circunstâncias a voltar para casa e resiste às mudanças o quanto pode, mesmo que seu instinto diga algo diferente. Em outras palavras, “Rio” não passa de uma variação burocrática (no caso, disfarçada pelo cenário exótico da cidade que lhe empresta o nome) do um enredo que já foi trabalhado antes com mais criatividade, e por filmes mais bem realizados.

O protagonista é Blu, uma arara azul em extinção contrabandeada para fora do país por caçadores ilegais, que vive no conforto de um lar preguiçoso em Minessota, com uma dona igualmente introvertida. Levado ao Rio de Janeiro para acasalar com a única exemplar fêmea da espécie, a ave é roubada novamente e se mete em confusões com malandros cariocas, sagüis trombadinhas – uma idéia infeliz de Saldanha, apesar do potencial cômico evidente – e uma cacatua mal encarada, esta um dos personagens mais interessantes da produção.

A qualidade da animação do estúdio Blue Sky é competente, algo visível especialmente nas seqüências estilo “montanha-russa desgovernada” (a fuga das araras azuis pela favela carioca, o vôo de asa delta) e nas duas seqüências musicais na abertura e no encerramento, com coreografias que desenhas figuras geométricas ao melhor estilo Bubsy Berkeley. E, em que pese o clímax inteligente que liga de modo fluente os vários conflitos narrativos do protagonista abertos ao longo da narrativa (medo de voar, amor, futuro da dona e outros), “Rio” nunca chega a efetivamente a alçar vôo próprio (com trocadilho…) e ganhar uma luz que permita ao filme de Saldanha se destacar das outras tantas variações opacas do enredo escolhido. Ah, sobre as músicas de Sergio Mendes? Melhor ficar calado mesmo.

– Rio (EUA, 2011)
Direção: Carlos Saldanha
Animação
Duração: 96 minutos

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14 comentários em “Rio

  1. Só corrigindo, Carreiro, o vilão é uma cacatua. E eu também esperava mais das músicas, foi outro esteriótipo a trilha sonora: samba o tempo todo, fiquei esperando algo mais, tanto nas letras quanto no ritmo…

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  2. *estereótipo (escrevi errado no comentário).Rsrsrs, eu tb não sabia o que era um cacatua, só sabia que não era um gavião. Sim, eu vi a versão dublada, fiquei curioso em saber se as músicas originais são em português…

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  3. Em diversos momentos o filme realmente parece uma colagem. Mas não uma antropofágica – parece mesmo uma uma colcha de retalhos mal costurados. E a maior impressão que fica é que novamente a representação foi feita por um estrangeiro. Ninguém diria q Saldanha é brasileiro (e carioca). Mas, algo pessimista: é mais um filme com os estereótipos culturais, mas pela primeira vez eles fazem sentido. Ou seja, se melhor aproveitados, poderiamos interpretá-los como arquétipos. Diferente de outros filmes que se passam no Brasil em que índios andam pelas praias e à noite dançamos tango. Falei um pouco do que acho aqui http://www.nilrevista.com/2011/04/11/intertextualidade-em-cartaz-e-o-rio-em-rio/

    Abraço

    ps: há tantas músicas além de “olha que coisa mais linda…”

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  4. O filme tem problemas, mas acho que vale o ingresso. A animação e o 3D são competentes, apesar da história sem graça. Como você falou Rodrigo, há algumas boas cenas de ação, e a Blue Sky, junto com a Dreamworks, é o estúdio de animação que melhor sabe explorar os efeitos em terceira dimensão (vide Era do Gelo 3 a o próprio Rio). Fica aquela sensação de que o filme poderia ser bem melhor, mas cheguei a me divertir.

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  5. Com Rio, Carlos Saldanha já bateu o próprio recorde de animação mais vista no Brasil (A era do gelo 3). Esse filme está dividindo opiniões da crítica. Mas o público está adorando. Visualmente ele é fantástico. O texto está ótimo, Carreiro!

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  6. Critica exata Rodrigo. Só não sou mais rigoroso com Carlos Saldanha por saber que não se pode fazer tudo o que queremos em uma produção de alto custo. Além disso Saldanha não conta com roteiristas com o nível dos da Pixar (considero que, para uma animação, o argumento, o roteiro, a montagem, direção e produção são mais importantes do que o nível técnico), sem falar que a competente animação é de nível claramente inferior ao dos outros grandes estúdios (Disney / Pixar / Dreamworks) e até de equipes independentes de animadores, como as de TÁ DANDO ONDA, A LENDA DOS GUARDIÕES e etc.

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  7. Não sei se o filme serve tanto assim como uma peça de divulgação da cidade. Eu pensava que a cidade seria tipo o personagem principal da animação, mas estava enganada. O Rio de Janeiro mais serve como um pano de fundo para toda a jornada de auto descoberta do Blu. Eu achei o filme muito carismático, animado e, em certos momentos, parecia que estava vendo aqueles filmes antigos em que o Rio de Janeiro era retratado com a visão de um norte-americano, com aqueles estereótipos básicos… Mas, vai ver é isso mesmo, já que o Saldanha está há muito tempo longe do Brasil.

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