127 Horas

[rating: 3]

Em depoimento que pode ser conferido no clássico “O Demônio das Onze Horas”, de Jean-Luc Godard, o iconoclasta Samuel Fuller tentou resumir o cinema em uma palavra: emoção. Este ingrediente é algo que não falta no episódio real que inspirou o filme “127 Horas” (127 Hours, EUA/Inglaterra, 2010). Medo, angústia, horror, dúvida, remorso, esperança, júbilo, tudo isso aparece em doses concentradas no filme do inglês Danny Boyle, que parece ter buscado no longa-metragem a complexa solução para um desafio: como evitar que o público fique entediado com a história de um homem que permanece isolado e sem poder se mover durante pouco mais de quatro dias?

A resposta a essa pergunta pode muito bem ter sido o fator que levou Danny Boyle a enfrentar a tarefa de adaptar para a tela grande o episódio, narrado com riqueza de detalhes num horripilante livro escrito pelo protagonista do episódio, Aron Ralston (James Franco). Aventureiro cheio de energia, Aron teve o braço direito preso sob uma rocha de meia tonelada, quando explorava um cânion localizado no deserto do Utah (EUA), e precisou amputar o próprio membro com uma faca para não morrer. Uma história incrível, não há dúvida. Mas como fazer um filme em que toda a emoção, como diria Samuel Fuller, permanece represada o tempo inteiro dentro da mente de protagonista, que não interage com mais ninguém durante todo o curso da narrativa e, por isso, não tem como verbalizar o turbilhão de emoções e sensações trazido pela condição?

Apesar de jovem, Danny Boyle é um cineasta realizado e de carreira relativamente longa. Ele já foi um dos queridinhos da geração de diretores especializados em cultura pop que emergiu na primeira metade dos anos 1990, explodindo após dirigir o paparicadíssimo “Trainspotting” (1996), tragicomédia juvenil sobre consumo de drogas e vagabundagem na Escócia. Flertou com superproduções de aventura (“A Praia”), horror (“Extermínio”), ficção científica (“Sunshine”), sátira política (“Caiu do Céu”) e ganhou o Oscar (filme e direção) com uma paródia de Bollywood (“Quem Quer Ser um Milionário?”). Talvez Boyle tenha visto em “127 Horas” a oportunidade de se reinventar. E decidiu encarar o desafio.

É importante observar que ele já tinha pelo menos uma experiência anterior com filmes claustrofóbicos, em que os personagens permanecem confinados em um único cômodo, naquele é talvez seu melhor e mais coeso trabalho, “Cova Rasa” (1994), justamente o título de estréia. A diferença é que, embora fosse possível encontrar ali a semente do Danny Boyle inquieto e histriônico que viria a aflorar totalmente após “Transpotting”, sua abordagem era muito mais lacônica, simples e clássica – e isso ajudava a afunilar enormemente a tensão, à medida que o conto sobre cobiça mergulhava em humor negro e violência.

As estratégias narrativas que Boyle emprega para fazer aflorar as emoções que vive Aron Ralston em “127 Horas” diluem a força da narrativa original, porque rompem o postulado básico da claustrofobia, através de uma variedade de técnicas que, artificialmente, retiram o protagonista de sua prisão natural e, dessa maneira, eliminam a monotonia do cenário, o isolamento do personagem e a experiência do tempo que parece congelado. Esses três elementos, embora exijam uma disciplina que o espectador de filmes comerciais costuma não ter, são cruciais para que se possa compreender e experimentar a variedade do cardápio de emoções que envolve a história original.

Assim, Danny Boyle injeta o máximo de energia cinética (montagem rápida, música pop, encenação baseada no movimento dos corpos) ao primeiro ato da trama, em que Aron aparece cheio de energia. Quando a rocha finalmente o prende à força num cânion apertado em que a luz do sol só entra durante 15 minutos por dia, um terço do filme já se foi. Aí, Boyle recorre a todos os truques possíveis para manter a agilidade da trama: delírios, sonhos, montagem paralela, mini-clipes musicais, flashbacks reais e imaginados, diários que o aventureiro grava com sua câmera amadora (único aspecto da dramatização que tem paralelo na realidade). Na prática, o espectador passa muito pouco tempo preso junto com Aron – e não experimenta e realidade brutal de sua experiência, que aparece diluída num caleidoscópio de cores mais parecido com uma viagem de ácido do que com a angústia da proximidade da morte.

Em que pese a ótima interpretação de James Franco (o ator, aliás, vem se destacando pela seleção interessante de projetos que passam longe da rotina de blockbusters dos grandes astros de Hollywood) no papel principal, bem como a fotografia competente de Anthony Dod Mantle (a beleza e o horror que convivem juntos na paisagem desértica do deserto do Utah aparecem muito claramente, tanto nos planos gerais quanto nas tomadas apertadas feitas em locação), “127 Horas” dilui uma história de estoicismo e perseverança numa espécie de catálogo de técnicas de como um diretor pode interferir na trama para acelerá-la artificialmente, e assim torná-la mais palatável para um público mais amplo. E, sim, a esperadíssima cena em que Aron amputa o próprio braço é filmada na mais pura tradição grand guignol.

– 127 Horas (127 Hours, EUA/Inglaterra, 2010)
Direção: Danny Boyle
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn
Duração: 94 minutos

12 comentários em “127 Horas

  1. Grand guignol era o nome de um teatro em Paris, criado em 1897 e muito popular no começo do século XX, cujos espetáculos encenavam reconstituições minuciosas e naturalistas de cenas dantescas (assassinatos, mutilações, estupros, etc), com requintes de detalhes.

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  2. apesar de aparentemente tu nao ter gostado do estilo de flashback do diretor, eu simplesmente amei a cena da garrafa de Gatorade. rola ali uma lembrança de onde ela estava, um arrependimento de ela nao estar na bolsa naquele minuto, a distancia em que o objeto de desejo está do sonhador….eu simplesmente amei aquela cena!
    aliás, amei o flashback porque nao queria ver outro VIVOS ou MAR ABERTO ou ENCHENTE QUEM SALVARÁ NOSSOS FILHOS.

    bjo bjo e amo teu site!

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  3. Lamento que a cada critica nova que leio aqui percebo que vc trilha o mesmo caminho dos afamados omeletistas e pior estão quase nivelados por baixo a esta altura… é um fenômeno recorrente que vem acometendo os sites “especializados” em cinema que ao conquistaram o apreço de certa fatia do público cinéfilo começam a deixar aflorar de maneira grotesca suas indiosincrasias perversas, intolerântes e claro sua idolatria dirigida a certas figuras; alem da irônia leviana e do tipico rebuscamento da linguagem como artificio para mascarar um argumento incosistente, enfim, constato aqui e em quase todos os sites de algum respeito uma tentativa patética de dirigir o diretor ou melhor exigir do artista que siga um cânone de expectativas, lamentavelmente os “criticos” trocaram a honestidade intelectual pela egolatria.

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  4. Virgilius, não deixa de ser irônico ler no seu comentário – repleto de expressões como “idiosincrasias perversas” – uma referência a um suposto “rebuscamento da linguagem”. Fora disso, acho legal sua observação sobre dirigir o diretor (creio sinceramente que toda crítica faz isso em alguma medida). Mas ainda me aferro a minha opinião. Abraços.

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  5. critica é algo mto pessoal, virgilius. e sim, como é escrita por uma pessoa, essa pessoa tem suas preferências, mas de um modo geral nao vejo o texto como uma ‘egolatria’ pois carreiro é bem explanador de causas em embasar seus pontos negativos expostos.
    e comparar esse texto com os que vemos no omelete.com é o mesmo que dizer que o sbt tá virando history chanel, hein???
    calma ai!

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  6. Acho “Cova Rasa” perfeito. Foi ali, assistindo ao filme numa madrugada insone diante da tv, que aprendi a ver com atenção tudo que Danny Boyle faz no cinema. Vc não fez nenhuma menção ao filme ter sido lançado com grande atraso e nenhum destaque no Brasil. Ah, seu texto etá realmente meio rebuscado, será tipo assim… um cacoete acadêmico? Se liga. Intelectuais universitários vivem num universo paralelo.

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  7. Não faço nenhuma menção ao lançamento com atraso porque escrevi o texto muito antes de ele acontecer. De resto, eu “me ligo”. A questão é que também vivo nesse “universo paralelo”, e não tenho intenção de sair dele. 🙂 Abraço.

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  8. Filme brilhante!

    A tela dividida nos dá uma sensação de existensialismo. E é curioso isso! A capacidade que o diretor teve de mesclar momentos de intensa emoção e reflexão, é como se o espectador estivesse ali, com o braço preso na rocha, pensando em como sair dali e refletindo sobre uma série de fatos que marcam nossa vida.

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  9. Boa resenha, mas eu discordo plenamente. Não gostei desse filme. Pelo comentários que eu tinha visto na época esse filme deveria ser ótimo, inovador, de tirar o fôlego, o melhor filme não comercial do ano passado… Daí fui assistir todo feliz achando que seria algo interessante, mas não; o filme basicamente é: um cara faz uma babaquice, se ferra, lembra de umas coisas inúteis via flashbacks desnecessários (usaram isso pra enrolar pq se fossem resumir o filme ao que interessa, ele iria durar 15 minutos), corta o próprio braço e vai embora.

    O caso desse cara iria funcionar melhor se fosse um documentário da Discovery ou do NG. Pelo menos teria um narrador com uma voz dramática e conforme o tempo fosse passando poderíamos aprender alguma coisa, pois muito provavelmente eles usariam o esquema de: “5 horas depois do acidente o corpo começa a liberar substância X para não sei o que” e depois “24 horas depois do acidente o tecido da pele e os musculos começam a não sei o que mais”. Daí também veriamos umas animaçõezinhas mostrando o que tava acontecendo. Aí sim seria um filme legal.

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  10. Assisti a este filme ontem e muito me impressionou a agilidade do roteiro, que sempre se mantém movimentado e prende a nossa atenção. Outro detalhe que muito atraiu a minha atenção foi o sangue frio do Aron diante da situação que vive. Acho que o fato do filme abusar dos closes no personagem faz com que a gente se coloque na situação que ele vive e entre ainda mais na história. A atuação do James Franco está ótima e eu destaco também a edição, que achei muito competente.

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  11. Estou um pouco atrasada, eu sei… Mas como não gostei de “Quem Quer Ser Um Milionário” acabei evitando ao máximo “127 Horas”.
    A primeira coisa que veio na minha cabeça foi: só podia ser o Danny Boyle. Muito da estética de “Quem Quer Ser Um Milionário” está lá: as cores, movimentação de câmera, a edição, aquele truquezinho que faz o líquido do Gatorade ficar balançando de forma esquisita.
    Virge.
    Uma história tão fantástica quanto a que deveria se basear 127 Horas merecia um filme à altura, mas pra mim ficou com cara de blockbuster ruim (pq tem blockbuster bom, digo desde já)
    Engraçado que parece que é o que as pessoas querem, né? Quando acham que os textos desse site são rebuscados fico me perguntando que tipo de textos essas pessoas costumam ler.
    É mais fácil ter um filme (ou texto) mastigadinho, fácil de entender, com idéias simplórias só pra contentar a multidão.
    Ao invés das pessoas quererem subir um patamar, tentarem entender algo que não entendem, o pedido é outro: mais simples, por favor! Que aqui tá difícil.
    Pior que blockbuster é blockbuster burro.

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