Encontro Explosivo

[rating: 3]

James Mangold é o exemplo acabado do que um cineasta contemporâneo não deve ser para cair nas graças de cinéfilos descolados. Nos dias de hoje, para ter mais chances de ser levado a sério, um diretor precisa encontrar um nicho de trabalho mais ou menos original e filmar tantas variações quanto possível de tramas relacionadas a esse nicho. Bem ao contrário dessa estratégia, Mangold preza pela versatilidade: já fez faroeste (“Os Indomáveis”), thiller de mistério (“Identidade”), drama feminista (“Garota Interrompida”) e cinebiografia musical (“Johnny e June”). Já este “Encontro Explosivo” (Knight and Day, EUA, 2010) é uma comédia de ação que brinca com clichês de filmes de espionagem.

Esse filão, que de certo modo deriva das aventuras de 007 com uma pitada extra de graça, transformou-se numa espécie de subgênero importante dos thrillers de ação depois do sucesso de “True Lies” (1994). O longa-metragem de James Cameron permanece como o mais agradável e interessante e exemplar do gênero, enquanto “Encontro Explosivo” apenas coloca o eterno garotão Tom Cruise num terreno que lhe é familiar, fazendo o papel simultâneo de conquistador infalível e espião cheio de atributos físicos. O filme não passa de uma sucessão quase ininterrupta de seqüências de ação, intercaladas por trocas de olhares maliciosos entre Cruise e sua parceira Cameron Diaz. Em suma, uma bobagem – mas uma bobagem que pode perfeitamente ser agradável, se você a assistir nas condições corretas.

A trama, se é que podemos chamá-la assim, parece um arremedo de “Missão Impossível 2” (2000), que o próprio Cruise estrelou sob as ordens de John Woo; troque a dor de cotovelo do outro filme por uma química sexual mas-não-muito que rola (e nunca se concretiza) entre os dois mocinhos, e o filme é basicamente o mesmo. Temos um espião (Cruise) que envolve uma garota inocente (Diaz) numa trama internacional de suspense, com mocinhos e bandidos de vários quilates correndo atrás de um artefato que pode mudar o mundo, saltitando entre países tão diferentes quanto Espanha, Jamaica e Estados Unidos.

De fato, a trama não tem importância alguma. O que importa são as seqüências de ação bem coreografadas (embora a qualidade dos efeitos especiais computadorizados, em particular os cenários digitais, esteja abaixo do padrão de excelência que se espera de um filme de US$ 120 milhões) e os diálogos cheios de duplo sentido que Cruise e Diaz travam, cada um usando um arsenal completo de sorrisos colgate e olhares sugestivos, que Mangold filma como uma sucessão ininterrupta de grandes close-ups de rostos que quase nunca piscam. O ritmo alucinante garante que a platéia não perceba os inúmeros furos de lógica contidos no roteiro, enquanto bons atores (Peter Sarsgaard, Viola Davis) desfilam pela tela em pequenos papéis.

Se você encarar o filme como um thriller de espionagem, corre o risco de ficar decepcionado. Nos tempos do hiper-realismo de Jason Bourne, “Encontro Explosivo” parece coreografado demais para poder funcionar – o personagem de Toim Cruise parece nunca acelerar os batimentos cardíacos, enquanto Cameron Diaz aprende em poucas horas habilidades que policiais levam anos para desenvolver. O truque é deixar o realismo bem longe e encarar o filme como uma comédia de costumes descompromissada. Aí, até os erros de continuidade se tornam piadas e contribuem para deixar uma impressão de filme Sessão da Tarde.

– Encontro Explosivo (Knight and Day, EUA, 2010)
Direção: James Mangold
Elenco: Tom Cruise, Cameron Diaz, Peter Sarsgaard, Viola Davis
Duração: 109 minutos

6 comentários em “Encontro Explosivo

  1. Eu confesso que nem prestei atenção nos erros de continuidade. Me diverti muito assistindo ao filme, que é uma daquelas obras totalmente esquecíveis, mas que cumpre seu papel de nos entreter. O James Mangold é mesmo um diretor pra lá de versátil e fazia tempo que eu não gostava tanto do Tom Cruise em um filme. Achei-o encantador e carismático na medida certa.

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  2. Rodrigo adoraria ver sua critica do filme “O bem amado” li varias, são tão heterogeneas e confusas, não há ponto algum de concenso entre elas.
    um abraço

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  3. Não vi o filme, Andrei. Mas, pessoalmente, acho que ter um filme em que as críticas sejam divergentes é muito saudável. Se tem algo que me deixa irritado e sem paciência é essa tendência de ler críticas cada vez mais parecidas em todo lugar.

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  4. Vi o filme,me diverti bastante acho que a proposta do filme e essa, também não vi erros de continuidade e como sempre os dois atores estão maravilhosos!

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