Bravura Indômita

[rating: 5]

A trajetória é bastante comum. Quando jovens, pessoas muito talentosas sentem compulsão para mostrar logo, a todos, o tamanho desse talento. Então, se tornam exibicionistas. Guitarristas solam cada vez mais rápido, jogadores de futebol driblam até colegas de time. Para diretores de cinema, essa abordagem consiste em incluir nos filmes a maior quantidade possível de truques de montagem, edição de som e por aí adiante. Chega um momento, porém, que a ficha cai. De repente, eles se dão conta de que não precisam mostrar todo o repertório de uma vez só – e é nesse momento que o melhor que possuem dentro de si aflora com naturalidade. Com “Bravura Indômita” (True Grit, EUA, 2010), os irmãos Joel e Ethan Coen confirmam que estão navegando nesse ponto de equilíbrio tão raro. O filme celebra a beleza da prosa simples e é um primor de economia narrativa e sobriedade. Ou seja, puro talento.

De certo modo, essa constatação surge como uma surpresa. Não que o talento dos os irmãos Coen estivesse em questão. É que, apesar da obra extensa e fartamente qualificada, incluindo um punhado de filmes literalmente perfeitos (“Onde os Fracos Não Têm Vez”, “Fargo”, “O Grande Lebowski”), o projeto em si mais parecia uma teimosia exótica da dupla que, agraciada há pouco com o Oscar, podia se dar ao luxo de refilmar um western relativamente recente (1969) apenas pelo prazer de trabalhar com um gênero fílmico do qual ambos são e sempre foram fãs confessos. Ao assistir ao resultado final da aventura, porém, é preciso dar o braço a torcer: os irmãos não apenas sabiam exatamente aonde queria chegar, mas conseguiram melhorar o que já era ótimo e produzir um clássico tardio do gênero. “Bravura Indômita” é, talvez, o melhor exemplar do gênero desde que Clint Eastwood lançou “Os Imperdoáveis” (1992). Talvez até mesmo o supere.

Para começar, a intenção dos diretores nunca foi refilmar a obra de Henry Hathaway, mas sim resgatar aspectos do romance original de Charles Portis (1968) que tinham sido sublimados na primeira versão, sobretudo a aridez da prosa seca do escritor. Esse objetivo foi cumprido a risca, com o rigor e a disciplina narrativa característica dos dois Coen: os diálogos concisos, econômicos, repletos de frases curtas e tingidos de um humor feroz, e que consistem num dos principais elementos da construção narrativa, foram transplantados diretamente do livro, assim como a narração em off esparsa, impregnada do caráter estóico cultivado pelos personagens de todos os grandes westerns da primeira metade do século XX (operação que, de quebra, dá ao filme o ponto de vista da personagem da garota, algo que também é fundamental para o sucesso da empreitada).

Com diálogos assim, bons atores sempre se deleitam – e os irmãos Coen conseguiram reunir uma trupe respeitável, liderada pelo inspirado Jeff Bridges e que conta, ainda, com o sempre eficiente Matt Damon (aqui se esforçando para abandonar o estilo minimalista e encorpar um patrulheiro almofadinha), como os bons John Brolin e Barry Pepper (este último num papel de vilão caricato, se divertindo a valer) e com a grata surpresa Hailee Steinfield, estreante de 13 anos que assume a responsabilidade de narradora com a desenvoltura e a personalidade forte de um veterano. A química entre todos eles é impecável, e gera cenas que transitam entre o humor (sempre com um toque de absurdo kafkiano) e a tensão bruta, que corta o ar como uma faca.

O roteiro enxuto expurga da trama todas as cenas que poderiam estar ali apenas para ajudar na caracterização dos personagens. Observe, por exemplo, o delicioso embate verbal entre a adolescente Mattie Ross (Steinfield), que sai de casa aos 14 anos decidida a vingar o assassinato do pai, e o comerciante que vendeu a ele os cavalos que se tornariam motivo do crime. É um momento definidor da personalidade tenaz, da inteligência arguta e do estoicismo da menina (traço que todos os demais personagens, inclusive os vilões, compartilham entre si, como nos grandes westerns clássicos). Mas também possui a função de ligá-la ao rabugento caçador de recompensas Rooster Cogburn (Bridges), veterano alcoólatra e barrigudo que ela contrata – após mais uma série de discussões divertidíssimas – para perseguir Tom Chaney (Brolin), o ex-empregado que matou seu pai. Matt Damon, na pele do policial LaBoeuf, entra na trama um pouco mais tarde.

Há momentos antológicos de montão: os diversos embates verbais entre Bridges, Damon e Steinfield; o sensacional tiroteio noturno no primeiro encontro com a gangue de ladrões, filmado com categoria exemplar pela câmera sempre mágica de Roger Deakins, um dos grandes mestres da luz do cinema contemporâneo; e a incrível seqüência do confronto final, assustadoramente realista. Joel e Ethan Coen filmam essa história de vingança relativamente convencional (o único elemento extraordinário é a presença da adolescente) com a mesma simplicidade dos diálogos: respeitando os cenários amplos e os espaços abertos, valorizando a composição cuidadosa dos personagens através dos figurinos e da caracterização dos atores (aprendemos muita coisa sobre Rooster simplesmente olhando como se veste, como anda, como fala e mesmo como respira), dando tempo para que possamos ouvir e apreciar as singularidades do sotaque e do vocabulário peculiares da Oklahoma do final do século XIX, onde a história se passa.

De muitas maneiras, “Bravura Indômita” funciona como um filme-irmão de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Compartilha com o vencedor do Oscar 2008 os cenários do meio-oeste americano; possui uma montagem clássica, invisível, que valoriza a integração entre o homem e a terra, um dos temas centrais do western; tem origem na literatura e procura respeitar o texto original, além de transformar os diálogos pontuados por substantivos no eixo central da narrativa; foi um sucesso de público (de fato, “Bravura Indômita” faturou US$ 160 milhões nos Estados Unidos e se transformou não apenas no filme mais bem sucedido dos irmãos Coen, mas também no western de maior bilheteria em todos os tempos).  Não seria nenhum exagero dizer que ele se junta ao longa de 2007 como uma das melhores realizações de dois dos autores mais importantes do cinema americano atual.

– Bravura Indômita (True Grit, EUA, 2010)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfield, Matt Damon, Josh Brolin
Duração: 110 minutos

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18 comentários em “Bravura Indômita

  1. Olá Rodrigo.
    Em relação à “economia narrativa” citada em seu texto, me parece que essa característica está sem dúvida muito presente também em “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, artifício esse que geralmente induz o espectador a rever a obra dos Coen, já que eventuais mensagens que os cineastas desejam transmitir demonstram-se profundamente submersas em seus roteiros.
    Para você existe um limite a ser respeitado nessa forma de escrever no intuito de evitar que isso se torne algo banal, usado apenas para ludibriar uma platéia? Como se poderia detectar tal intenção?

    Parabéns pela crítica. Um abraço!

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  2. Acho que não existe uma regra pra essas coisas, Jefferson. Quando eu falo isso, na verdade, estou me posicionando ao lado de um certo tipo de cinema que me parece mais honesto, mais realista, mas que não é necessariamente melhor do que o cinema de artifícios, ou de atrações (pra usar o termo do Tom Gunning). Pra ser bem sincero, penso que a crítica – e me incluo aí – deveria fazer menos julgamentos de valor, sob pena de ficar caindo o tempo todo numa subjetividade irresolvível. Não gosto de decretar que o filme X é bom ou ruim, porque esse tipo de coisa me soa arrogante e metida (embora seja realmente impossível não fazer um pouco disso). Não sei se deu pra entender… mas voltando à sua pergunta, acredito que é impossível ter uma bula, ou receita, pra identificar um filme “bom” ou “ruim”. É preciso ver muitos filmes e confiar no instinto. Abraço.

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  3. Rodrigo, concordo que dá para enxergar paralelos entre este filme e “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Concordo que esta é uma narrativa sóbria que valoriza o trabalho dos atores (destaco especialmente a atuação da Hailee Steinfeld, que foi promovida no Oscar na categoria errada, uma vez que ela é atriz principal no filme). Mas, acho que o roteiro tem alguns furinhos que não comprometem, mas que me deixaram com algumas perguntas (uma delas, já falei com você qual era) sem respostas. Mas, achei o ato final de uma beleza ímpar e muito emocionante.

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  4. Caro Rodrigo Carreiro, sobre narrativas econômicas de filmes, queria lhe propor um pequeno “desafio”: se alguém fizesse um longa com apenas fotografias, sonoplastia e trilha sonora (bem típico daqueles feitos no Movie Maker por qualquer pessoa), mas que pudesse contar uma “história” bem convicente, usando esses limitados recursos técnicos, (porém usados de maneira muito criativa na narrativa), como você classificaria essa obra? Chamaria de filme? De obra de cinema? Essa obra seria um meio termo entre fotografia (imagem parada) e cinema (imagens em movimento – fotogramas em sequências)?

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  5. Esse filme existe, Guilherme. Foi feito em 1962 pelo Chris Marker, se chama “La Jetée”. E é sensacional (deve haver outras experiências, sem dúvida, estou recordando a primeira que me passou pela cabeça). Como eu chamaria? Sinceramente, acho que não tem muita importância o nome que se dá à experiência, mas pelo menos no caso do Marker, chamaria de filme mesmo.

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  6. Não levava muita fé nesse filme, me surpreendeu suas cinco estrelas (que nem Cisne Negro levou). Fiquei curioso em ver. Não sou muito fã dos Coen embora goste de alguns trabalhos. Vou ver se vejo mas só depois de ver O Discurso do Rei rsrsrsr.

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  7. Assim como os Coen estão à vontade nesse filme, você também parece estar no mesmo estágio em relação a essa crítica que se refere ao gênero Western, seria por conta do Doutorado? Rss. Excelente crítica (pra variar). Além do mais, Rodrigo, qual o motivo de Hailee Steinfield ter sido indicado para a categoria de Melhor atriz coadjuvante, alguma regra estranha da academia?

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  8. Primeiramente gostaria de parabenizar as suas críticas Rodrigo. A sua sinceridade, sobriedade e qualidade são marcas registradas de sua competência. Parabéns. Neste momento estou com um espaço curto de tempo para comentar mais sobre o ESPETACULAR filme em questão, porém PROMETO que voltarei e deixarei minhas considerações. Apenas ratifico a qualidade de “Bravura Indômita”, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores Westerns de todos os tempos (ao lado de obras primas como “Os Intocáveis”, “Três Homens em conflito”, “Era uma vez no Oeste”, etc).

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  9. Não vi o filme ainda, mas conheço a categoria dos irmãos Coen. Na minha opinião (que, aliás, não vale nada, hehehe), eles são os responsáveis pelo que se faz de melhor no cinema atual. Você chegou a conferir a crítica que saiu na CartaCapital desta semana? O crítico (não lembro quem era) comenta que o filme de Hathaway, no contexto da guerra do Vietnã, pretendia elevar a moral dos EUA. O “herói” do filme encarnava o jeito estadunidense de resolver os problemas. Podia não ser o modo mais bonito, mas ele “fazia o que tinha que ser feito”. O ator era John Wayne, republicano de carteirinha, que chegou a ser elogiado pelo presidente por sua atuação. O estadista disse “ter se identificado” com o personagem… Ainda segundo o crítico, Wayne usava um tapa-olho no olho esquerdo que, naquele contexto, todos sabiam o que significava: que os EUA fechavam o olho para a esquerda, seus protestos contra a guerra, etc. Havia um recado político no filme. Então, o crítico chama a atenção para o contexto atual, da nova guerra dos EUA, do presidente democrata e de suas promessas, e para o fato de Jeff Bridges usar o tapa-olho, dessa vez, no olho direito. É como se os Coen quisesse dar um recado diferente do que Hathaway deu em seu tempo, como se quisessem dizer que é hora de olhar o problema por outro ângulo, abrir o olho para a esquerda, dessa vez. Não sei se o crítico está certo, mas vale a pena conferir seu texto.

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  10. Eu me apaixonei pelo filme. Pela forma como os irmãos Cohen mostraram o meio-oeste, pela forma como Jeff Bridges encarou seu personagem, pela forma como a pequena Hattie encara aquele mundo seco e áspero ao seu redor. Fico feliz por ter lido um texto em que, por mais que tenha sido redigido por um crítico, tenha sido fruto do coração de um cinéfilo. Senti-me presenteado pelos Cohen por ter sido tratado com respeito por eles. Isso é raro. Geralmente somos insultados por baboseiras pretencisosas ou, simplesmente, absurdas. Já gostava dos caras. Agora? Sou fã. Eu sei que foi um pouco tarde, “Gosto de Sangue” é de la pelos anos 80, mas sempre há tempo de descobrir jóias como essas.

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  11. Os irmãos Coen conseguiram de novo. Fizeram mais um filme belíssimo onde o maior mérito, na minha opinião, foi a simplicidade vinda da maturidade aliada com o talento dos Coen. Com uma história simples, atuações marcantes e roteiro afiado eles fizeram um filme simples e perfeito, sem excessos,e nunca convencional.

    Acredito que Joel e Ethan Coen estão em seus auges criativos.

    Em suma, um filmaço.

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  12. Acho que é o filme mais convencional dos irmãos Coen, mas isso não depõe contra eles de maneira nenhuma, um filmaço que eu torço muito para que leve a estatueta de melhor filme, logo mais.
    Excelente crítica, Rodrigo

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  13. Talvez possa superar Os Imperdoáveis para muitos que até então nunca conseguiram entender a mensagem e o tom depressivo do mesmo.Bravura Indômita é sem sombra de dúvida um clássico tardio do gênero Western com direção sempre competente dos Coen,fotografia magistral do sempre genial Roger Deakins e acima de tudo ótimos diálogos de um elenco de atores muito bem selecionado.Obra Prima inquestionável dos irmãos que se junta a outras(Fargo e,principalmente Onde Os Fracos não tem vez),mas que na minha opinião não supera Os Imperdoáveis,digamos que se iguala ao mesmo.

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