Último Mestre do Ar, O

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M. Night Shyamalan surfava na popularidade de “O Sexto Sentido” (1999) quando recebeu convite da Warner para adaptar o primeiro longa-metragem da franquia Harry Potter. Ele recusou, alegando que preferia escrever seus próprios roteiros, e argumentando que em adaptações desse tipo seria obrigado a seguir a trama original muito de perto, sem oportunidade de incluir temas pessoais. Infelizmente, o tempo se encarregou de punir essa atitude com uma série de fracassos de bilheteria, um após o outro, que lhe retiraram aos poucos o poder adquirido com o filme de 1999. Uma década depois, Shyamalan finalmente cedeu e realizou a primeira adaptação da carreira: a aventura épica infanto-juvenil “O Último Mestre do Ar” (The Last Airbender, EUA, 2010). Trata-se de um filme decepcionante, que guarda muito pouco da veia autorial daquele que talvez seja o cineasta hollywoodiano mais interessante de sua geração.

O envolvimento de Shyamalan com “O Último Mestre do Ar” é resultado direto do fracasso de “A Dama na Água” (2006), fábula adulta que marcou o rompimento de Shyamalan com a Disney, empresa que o apoiou em toda a carreira. No caso específico, executivos da empresa se recusaram a liberar orçamento para o filme, alegando que o roteiro era excêntrico e dispendioso demais. Shyamalan não apenas correu para a concorrente Warner, mas escreveu um livro detonando a suposta falta de sensibilidade artística da Disney. Fez o filme que queria, e se arrependeu – não apenas a bilheteria foi um fracasso monumental como, talvez pela primeira vez nos Estados Unidos, a crítica lhe caiu de pau de forma praticamente unânime. O estrago estava feito. Ele teria, mais uma vez, que começar de baixo para dar a volta por cima.

Aparentemente, o contrato assinado com a Paramount para adaptar a série animada “Avatar” (espécie de mangá étnico que mistura kung fu, magia adolescente e um cenário épico na linha de “O Senhor dos Anéis”) poderia lhe permitir essa reviravolta. Além de trabalhar com um material extremamente popular no mundo inteiro, o contrato permitia que Shyamalan escrevesse o roteiro sem interferências de executivos. De fato, essa teimosia na relação com os estúdios parece trabalhar contra o cineasta. Embora Shyamalan seja um dos cineastas mais talentosos do planeta no trabalho com a câmera – poucos diretores no mundo têm uma habilidade natural tão fluida e impressionante para lidar com tomadas longas, controlando enquadramento e composição visual em profundidade – seu trabalho tem se tornado cada vez mais auto-indulgente.

De fato, a câmera é o único aspecto positivo em “O Último Mestre do Ar”. Embora haja nesse filme muito menos planos longos do que em qualquer outro trabalho de Shyamalan (e dessa vez ele optou por usar o manjado truque de alterar a velocidade de projeção dessas tomadas, ora acelerando ora utilizando o recurso da câmera lenta, em associação com mudanças abruptas de foco e enquadramento), a coreografia dos atores dentro desses planos continua sofisticada e de bom gosto. Pena que esse bom gosto não se estendeu em outros departamentos do filme: a trilha sonora de James Newton Howard apóia-se em batuques étnicos previsíveis, os figurinos parecem sobras usadas por figurantes no já citado “O Senhor dos Anéis”, e os efeitos especiais abusam de licenças poéticas que mais parecem erros de continuidade, incluindo personagens que levam jatos d’água no rosto e não molham um único fio de cabelo.

O pior de tudo, porém, é o roteiro. Comprimindo informação demais em pouco tempo de projeção, Shyamalan inclui longuíssimas cenas de diálogos explicativos, insere narração em off sempre que possível, e mesmo assim os espectadores que não conhecem a trama e os personagens da série de TV se sentem perdidos como cego em tiroteio. Há nomes demais para decorar – personagens, tribos, nações, locais, deuses – e as relações entre pessoas e lugares nunca fica muito clara. Não dá para criticar Shyamalan por causa da trama (num mundo pós-apocalíptico dividido em quatro nações ligadas aos elementais da natureza, garoto de 10 anos é único ser humano a dominar os quatro elementos – água, ar, terra e fogo – e passa a ser perseguido pelos guerreiros dessa última nação, que tenta dominar as demais), que é mais uma variação da jornada do herói arquetípica presente em fábulas desde que o homem aprendeu a andar em duas pernas, mas a maneira como ele organiza a imensa quantidade de detalhes da trama original em uma narrativa confusa e trôpega é lamentável.

O pior de tudo é que, pelo que dizem os especialistas no desenho animado que originou o filme, Shyamalan alterou bastante os fatos vistos na TV, em parte para dar mais uma caracterização mais densa aos personagens (vários deles têm contas a ajustar com o passado, como a maioria dos heróis de Shyamalan). No entanto, essas alterações desagradaram a garotada fã do seriado. Ou seja, até mesmo o público-alvo do filme (meninos de 10 a 14 anos que passam o dia assistindo a mangás na TV e jogando videogame) tem rejeitado a produção de US$ 150 milhões, dando-lhe bilheterias decepcionantes e fazendo a Paramount hesitar em dar prosseguimento à idéia original de realizar uma trilogia. Em última instância, “O Último Mestre do Ar” falha em praticamente todos os aspectos – do criativo ao narrativo, do financeiro ao visual – e representa mais um passo em falso na carreira de um cineasta cujo imenso talento tem sido eclipsado pelo igualmente enorme ego. Uma pena.

– O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, EUA, 2010)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Noah Ringer, Nicola Peltz, Dev Patel, Jackson Rathbone
Duração: 103 minutos

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20 comentários em “Último Mestre do Ar, O

  1. Reitero aqui o que comentei no CinePipocaCult sobre a carreira de Shyamalan. Na minha opinião, ele:
    1) É um diretor muito competente; porém,
    2) É também um roteirista incrivelmente incapaz.

    Boa parte dos problemas dele não são de direção, mas de argumento e enredo, respectivamente: alguns filmes têm premissas completamente estúpidas (Fim dos tempos; Dama na água), outros desandam desastrosamente do meio pro fim (Sinais, A Vila).

    Falta humildade ao sujeito para saber que precisa de um roteirista para não deixar o bolo dele solar. O sujeito sabe fazer planos-seqüências lindíssimos, não fica só naquele P.F. do plano-contraplano, sabe criar mood e, quando trabalha com bons atores, consegue extrair ótimas performances deles (A Vila é o melhor exemplo – já o avatar Noah Ringer não tem o quem faça atuar).

    Mas nada disso convence se a premissa é fraca, ou se a trama desanda. M. Night Shyamalan não sabe tecer verossimilhança.

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  2. Cristiano, concordo com vc, Shyamalan tem que parar de escrever os roteiros, ao menos que seja escrito em conjunto com um bom roteirista, depois de mais este fracasso duvido que alguém irá deixar ele escrever mais algum filme. Na verdade, se ele conseguir fazer um filme com atores conhecidos e ter uma major distribuindo seus filmes ao redor do mundo já será uma vitória para ele.

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  3. Embora eu concorde com a maioria do que foi dito, não acho Shyamalan um roteirista medíocre. O problema dele talvez seja cercar-se de pessoas que vivem lhe adulando. Um produtor de personalidade, do tipo que desafia o diretor e tem coragem de lhe botar o dedo na cara, poderia fazer milagres em casos assim, de ego descontrolado.

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  4. Ainda vou ver o filme, mas sem expectativa nenhuma…
    Rodrigo, o problema nao foi talvez o Shamalan querer colocar profundidade demais em algo q tem como publico alvo a faixa etaria de 10-14 anos (msm q sempre eja louvavel a tentativa de aprofundar os personagens)… ele nao teria q ter focado mais no aspecto da ação?

    Um cara q fez Sexto Sentido e Corpo Fechado, por exemplo, nao tem como ser mau diretor e roteirista… ainda tenho fé q ele vai dar a volta por cima…

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  5. Não vi ainda o filme, e depois do que, nem vou ver.
    Ir ao cinema conferir o novo Shyamalan virou aquela piada recorrente dos Trapalhões, onde alguém atrás de um muro ficava contando 4, 4, 4…
    Até alguém olhar, levar uma torta na cara e ouvir ele falando: 5, 5, 5…
    “- A vaidade é o meu pecado predileto…”
    Grande abraço;

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  6. Nossa, eu assisti todos os episódios do desenho, gosto muito.
    Assisti todos os filmes do Shyamalan e pensei: um desenho que gosto, nas mãos de um diretor que gosto: eta lasqueira, vai ser arretado!

    No geral não achei o fime ruim. Foi o primeiro que assiti em 3d (ok, atrasada é pouco), e achei que o trailer de um filme com corujas tinha mais 3d q o filme inteiro.
    Achei que faltou profundidade da historia. Como nas cenas da tribo do gelo do norte, quando a princesa diz que eles estavam lá a semanas e mimimi. Poxa, uma coisa é dizer que eles estavam lá a semanas, outra é mostrar isso. Sem isso achei o filme ralo. As batalhas, legais, achei (na falta de palavra melhor) lombrostico o modo como ele diminuía a velocidade nas lutas e achei fraaaaaaaaaaaaaaaco o uso das ‘dobras’ (capacidade de manipular o elemento), por vezes era completamente fake… o cara fazia os movimentos e o elemento interagia de maneira estranha.

    Há, mas tudo isso é coisa de quem viu muito mesmo o desenho.
    No geral, lesei em não prestar atenção a detalhes como o deles não se molharem…

    Preciso assistir novamente! 🙂

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  7. Acho que o maior problema encontrado por Shyamalan foi comprimir a história de toda uma temporada do desenho(que comporta em torno de uns 15 episódios se não me engano)num filme de 1 hora e 43 minutos.É muita coisa pra pouco tempo.No desenho,hé detalhes que aparecem em poucos minutos de duração que se mostram importante na história mais a frente.Num filme não é possível fazer isso.E quanto a questão de ele tentar dar um aprofundamento maior a história e aos personagens,acho uma proposta diferente e,caso tivesse se tornado um bom filme,uma boa visão sobre o desenho.

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  8. Eu achei uma boa sessão da tarde, e o que esperar? é uma adaptaçao de um desenho, nunca ficaria como era pra ser, afinal é por isso que é desenho, por que na realidade não daria certo, veja ”dragonball evolution” , é questão de ser bem dirigido e produzido, o que não é o caso em nenhum deles, mais tenho certeza que as criança vão gostar muito!
    Agora resta esperar ”DEMONIO” com ele como produtor, não vou criar espectativas para esse filme, embora tenha gostado dos trailers =P

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  9. Mona, o 3D desse filme realmente não existe (só vi numa cena do navio) é a maior enganação pro ingresso ficar mais caro. 3D teve Avatar e outros. Mas como já comentei acima não achei o filme ruim mas vejam em 2D mesmo pq o 3D dele é enganação.

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  10. Concordo plenamente quando você diz que o roteiro comprime demais em um curto tempo de duração. O desenvolvimento narrativo do último ato, especialmente, é totalmente corrido. Não sei se foi porque assisti ao filme já esperando que ele fosse ruim, acabei achando a obra não sendo tão ruim assim! rsrsrsrs

    O que eu lamento ainda é ver Shyamalan sucumbindo ao seu ego e continuando indo pelo caminho errado. Ele tinha tanto talento…

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  11. M.Night Shyamalan é talentosíssimo e já provou isso. Talento não se esquece nem se perde. Câmera sensacional, cenas de suspense memoráveis e premissas originais e interessantíssimas. Mas, talvez por não ser americano, sempre foi marcado de perto pelos críticos que buscavam seus deslizes, por menor que fossem. ‘A Dama na Água’ é um trabalho baseado numa história de conto de fadas que ele escreveu para o filho, e do qual foi convencido por amigos a tornar filme. Isso foi levado em conta? Não. Suas reviravoltas são inigualáveis e dizer que ele se perde na parte final de ‘A Vila’ é uma tremenda covardia. É justamente no final que ele surpreende quando o expectador não vê perspectiva de desfecho. Quanto a ‘Sinais’, o que pode afetar quem critica é o fato de crer ou não em visitantes do espaço. O filme pode ser ótimo, mas vai cair no ridículo para os céticos. Ele continua bem, independente da crítica. Aliás, críticos são cineastas frustrados. Não é mesmo?

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  12. Que bobagem, Leandro, quanto rancor. Provavelmente você nem leu os outros textos que escrevi sobre os filmes dele, que em sua maioria são bem bons (embora estejam vindo em numa descendente desde “Corpo Fechado”). Uma sugestão: tente esquecer por um momento os adjetivos e procure se concentrar em argumentações concretas para defender seu ponto de vista. Não vale apenas dizer que “suas reviravoltas são inigualáveis”, você deveria explicar o porquê! 😉

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  13. Poxa Bruno. Até esqueci que você é um crítico. Essa minha ira é totalmente direcionada aos críticos americanos, xenófobos em sua grande maioria. Não há nenhuma ira ou rancor ao seu trabalho. Eu não concordo que tenha se ‘perdido’ nos filmes ‘A Vila’ e ‘Sinais’. E aí é apenas uma discordância, e por isso mesmo eu usei a frase ‘tremenda covardia’. Sem ofensas. Em ‘Fim dos Tempos’ você sente a drenalina tomar conta de seu corpo e, assim como escrevi, fica pensando: como é que isso pode ter um desfecho? E o fato de o causador ser uma toxina expelida pelas plantas e árvores se encaixa totalmente com aquilo que propõe a mensagem real do filme. Quando em ‘A Vila’ nos deparamos com um cega tendo que ‘salvar’ o mocinho e ainda enfrentar o ‘inimigo’ numa floresta desconhecida, mesma pergunta: putz, e agora? E o desfecho é sensacional, como também é as reações dos que sabem o que aconteceu, mas não podem revelar a verdade (Isso responde um pouco seu questionamento?). E cada filme com suas pitadas de suspense e criatividade fora do normal. Em tese, caro Bruno, o meu comentário foi muito mais uma revolta contra críticos americanos e a comentários acima dizendo que ele perdeu o talento do que uma crítica da sua crítica. Por isso mesmo comecei dizendo que talento não se perde em resposta a outros comentários. Espero ter esclarecido. Abraço

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