Além da Vida

[rating: 3]

Clint Eastwood e Woody Allen têm pelo menos uma coisa em comum. À medida que envelhecem, o ritmo de vida de ambos vai na contramão dos mortais comuns. Ao invés de respirar mais e trabalhar menos, eles parecem filmar cada vez mais rápido. No entanto, se Allen troca os atores e repete o mesmo filme desde o final dos anos 1980, Eastwood encarna perfeitamente aquele ditado antigo sobre o vinho. Talvez o segredo seja investir em histórias muito diferentes entre si. “Além da Vida” (Hereafter, EUA, 2010) não é a primeira incursão de Eastwood no terreno do sobrenatural, mas contém a primeira investida dele no filão dos roteiros “espíritas”, que investigam o tema da vida após a morte. Pena que, apesar do tratamento sutil do tema e da reconhecida qualidade da direção (falo do ato de transportar a história do reino das palavras para o das imagens e sons), o resultado final careça de… alma.

O enredo intercala três histórias paralelas que convergem no terceiro ato. Na primeira, um vidente (Matt Damon) passa a trabalhar como operário e deixa de usar seu dom (verdadeiro) porque não consegue lidar com o impacto emocional que os contatos sobrenaturais causam nas pessoas, deixando-o solitário e sem amigos. A segunda focaliza uma famosa jornalista francesa (Cécile De France) que “morre” por alguns minutos e é ressuscitada durante o tsunami no Oceano Pacífico em 2004 – uma experiência que muda completamente a maneira de ela encarar a vida. A terceira é protagonizada por um adolescente (George McLaren) que perde o irmão gêmeo – basicamente, única ligação dele com o mundo, já que a mãe de ambos é viciada em narcóticos – num acidente fortuito. Temos, então, três personagens vivendo em três cidades completamente diferentes (San Francisco, Paris e Londres). Eles não se conhecem, mas compartilham um mesmo ponto em comum: o conhecimento, ou a curiosidade, sobre o que existe após a morte.

Clint Eastwood aplica sua já tradicional abordagem clássica a essas três histórias. Ele rejeita o estilo mais veloz de montagem paralela, utilizado pelos cineastas mais jovens do que ele (basta pensar no Fernando Meirelles de “O Jardineiro Fiel”), preferindo que cada fatia do enredo tenha bastante tempo para respirar e se desenvolver. Então, o filme salta para outro protagonista. É tudo muito encaixado, sem gorduras ou peças soltas, apesar do pulo um pouco abrupto na transição do segundo para o terceiro ato. Em termos de edição, de fato, não há realmente nada de errado com essa técnica. A questão é que, quando associada ao registro mais delicado do roteiro de Peter Morgan, ela resulta em um filme morno, sem raça, sem garra, com muitas informações e pouco afeto, muitas perguntas e nenhuma resposta.

De qualquer forma, embora o desenvolvimento do enredo em si possa decepcionar algumas pessoas, é importante ressaltar que Eastwood nunca cai na cilada de abraçar uma teoria sobre o tema polêmico. O olhar que ele dirige ao assunto é genuinamente curioso e aberto a todas as possibilidades. E, mesmo evitando a ambigüidade excessiva, o diretor veterano inclui a pitada de humor necessária para plantar uma semente de dúvida na cabeça dos espectadores mais atentos – veja com atenção, já no terceiro ato, a cena do encontro entre os personagens de Damon e McLaren no quarto do hotel, e note como o primeiro parece trapacear levemente sobre as expectativas do segundo. Ou seria ilusão?

Como de hábito nos filmes de Eastwood, o elenco enorme dá conta do trabalho com eficiência. Matt Damon, em particular, parece muito à vontade, talvez porque seu estilo minimalista e discreto case perfeitamente com o jeito de Clint dirigir. A francesa Cécile De France acompanha a boa performance e obtém um registro casual e espontâneo, algo compartilhado por quase todos os demais atores. A única exceção verdadeira é Bryce Dallas Howard, que encarna uma paquera do personagem de Damon e atua num tom melodramático bem acima do parceiro – ela parece levemente histérica em alguns momentos, o que talvez seja até mesmo adequado à personagem, mas não contribui em nada para o filme como um todo. Por outro lado, a bela trilha sonora ao piano (escrita pelo próprio Eastwood, como de hábito) embala a história com o tom agridoce de discrição tão perseguido pelo diretor.

– Além da Vida (Hereafter, EUA, 2010)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Bryce Dallas Howard, George McLaren
Duração: 129 minutos

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16 comentários em “Além da Vida

  1. Olá Rodrigo. Gostaria de parabenizá-lo por esta que me parece ser a primeira crítica do ano, se eu não estiver enganado. Nesses dois próximos meses teremos inúmeros lançamentos relacionados às premiações, os filmes do Oscar para ser mais exato. Podemos esperar uma atualização mais constante no site ou fatores externos o impedirão de acompanhar de forma mais próxima esse período do ano?
    Um abraço.

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  2. Obrigado, Jefferson. Realmente, foi a primeira crítica de 2011. Minha intenção é publicar pelo menos uma crítica semanal, a partir desta semana. Não necessariamente dos filmes da temporada do Oscar. Claro, alguns deles certamente serão resenhados aqui (“127 Horas”, “Cisne Negro”, “Bravura Indômita”), mas não me vejo retomando o ritmo de antes de 2008 (cinco textos por semana) e nem priorizando lançamentos. Minha prioridade, no momento, são as aulas. E o cardápio de filmes vistos (e conseqüentemente resenhados) segue bastante essa agenda. Mesmo assim, espero escrever sobre os maiores lançamentos da temporada. Abraços.

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  3. Poxa, Rodrigo! Adorei a aparição da Bryce Dallas Howard. Me lembrou os tempos dela de boa atriz em “A Vila”. No mais, discordo: o filme tem muita alma! E ela está no personagem de Matt Damon. A cena com o Marcus no quarto de hotel acabou comigo! 🙂

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  4. Kamila, você já viu “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho)? Veja o depoimento de Marília Pêra. Pensei nele o tempo todo quando Bryce Dallas Howard entrava na história. O que ele faz se chama “overacting”, e dos brabos! Junto de Matt Damon, então, a coisa fica ainda mais flagrante! Acho o filme sem paixão, sim, apesar de inteligente e bem filmado. A cena que vc citou é uma das mais interessantes.

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  5. Oi Rodrigo,
    assistindo o filme senti algo estranho, como nao sou entendido nas tecnicas de filmagem, talvez tenha sido isso de alma. O filme poderia ter sido com uma duracáo um pouco menor, e acho que Clint quase se perdeu por ter alongado demais da conta. Tambem achei a trilha sonora muito bonita e fiz questáo de ler os letreiros ao final do filme para saber quem tinha composto a musica principal, pois achei a melodia com toque brasileiro, e descobri que tinha sido o proprio diretor. A atuacao dos gemeos foi sensacional.
    Abs,
    Sergio.

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  6. Rodrigo, não vi o filme, mas me questionei quando li essa crítica: a falta de alma, de paixão que você acusa no filme pode estar ligado ao fato de que o filme trascende à resposta e lança mais dúvidas? Isto é, não há paixão porque não há uma escolha nítida?

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  7. Acho que não, Renan. Talvez a intenção de dar ao filme um olhar mais objetivo e isento tenha contribuído pro resultado mais frio. Mas, francamente, o filme não me pareceu o produto de uma mente interessada em explorar um território fascinante. Pareceu burocrático, o trabalho de um diretor que não se interessava muito pelo que estava filmando.

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  8. Quando estreiar aqui na cidade, verificarei.
    Aprecio muito suas críticas, Rodrigo. Sou aluno da Unesp Franca no curso de História e gosto bastante de westerns. Suas críticas me ajudaram e ajudam a a apreciar as obras com cuidado.
    Saudações!

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  9. Um filme cheio de momentos vazios e entupido de clichês (ok, Gran Torino também tem muito clichê, mas Eastwood soube usar o lugar-comum). Em alguns momentos, eu me perguntava: “Clint Eastwood estava cansado quando dirigiu esse filme?”
    Mas não foi isso que me chamou atenção. Rodrigo, qual foi o último personagem que fosse um cristão respeitável em um filme? Clint chega até a mostrar um charlatão aqui ou outro ali, mas o clima de sincera espiritualidade permeia o filme. Até Woody Allen, um cético genial, brinca com o tema da mediunidade em “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Mas o filme passa o tempo todo cumprindo as previsões mediúnicas. Mesmo na brincadeira, ele confirma as “profecias”.
    Fora o novo filme do Zac Efron, que encontra o irmão falecido. Tudo na maior seriedade.
    Não é curioso que todo personagem cristão (evangélico ou católico) seja um estereótipo de um fundamentalista? E que os espiritualistas ganhem personagens complexos e do bem?
    Hollywood, se é que teve um dia alguma, trocou de religião? rsrs

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  10. É uma observação interessante, embora eu ache que vale a pena aprofundar esse raciocínio. Não creio que as coisas sejam tão preto e brancas assim, Joêzer. Mas precisaria estudar isso mais a fundo. Não tenho dúvida de que o espiritualismo (não vamos chamar de espiritismo) vem, já há algum tempo, sendo abordado com mais seriedade, e não apenas em Hollywood.

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  11. Eu gostei do filme. Não é o melhor dele, mas mesmo assim está acima da média. Gostei bastante das cenas de efeitos visuais e da atuação da francesa. Matt Damom está sempre bem, pra mim. O menino foi um ponto fraco.

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