Mother – A Busca pela Verdade

[rating: 4]

Não existe nada mais forte, nessa vida, do que amor de mãe. OK, este é um ditado bem gasto e que, nos tempos cínicos em que vivemos, nem sempre corresponde à realidade (de vez em quando os jornais publicam notícias de mulheres abandonando ou matando os próprios bebês). Mas a sentença continua forte e verdadeira, na maioria dos casos. O talentoso cineasta Joon-ho Bong partiu deste ditado para criar a autêntica montanha-russa cinematográfica que é “Mother – A Busca pela Verdade” (Madeo, Coréia do Sul, 2009), mais uma subversão de gêneros fílmicos oriunda do país asiático.

Já faz algum tempo que o cinema da Coréia do Sul vem se destacando no panorama cinéfilo internacional. Esse movimento, reconhecido em fóruns importantes como o Festival de Cannes (onde o sensacional “Oldboy”, de 2003, faturou o Grande Prêmio do Júri), chama a atenção sobretudo porque é liderado por autores jovens, que bebem diretamente da fonte do cinema de gênero norte-americano, só que mesclando ou subvertendo as regras rígidas de narrativa e estilo que geralmente se percebe nesse tipo de filme popular. Não são filmes intelectualizados, mas populares, sem que se perca a inteligência.

“Mother” consiste no quarto título a sair da mente divertida e doentia de Joon-ho Bong. Três desses filmes tiveram boa receptividade internacional, incluindo o bizarro filme de monstro “O Hospedeiro” (2006), talvez o coquetel de gêneros mais ousado do cineasta. Em “Mother”, na verdade, ele retorna ao território do longa-metragem anterior, “Memórias de um Assassino” (2004), em que uma dupla muito estranha de policiais caçava um assassino em série. Assim como essa obra, “Mother” tem a estrutura e a aparência de um “whodunit” (ou seja, um thriller de suspense em que o protagonista tenta, junto com a platéia, desvendar a identidade do autor de um crime). Mas, como manda a tradição cinematográfica contemporânea da Coréia do Sul, o filme subverte todas as regras do gênero, uma a uma.

A estrutura narrativa não poderia ser mais simples: uma mãe (Hye-ja Kim, maravilhosa num papel que, significativamente, não tem nome) faz das tripas coração para desvendar o caso do assassinato de uma adolescente para tirar o filho (Bin Won), principal suspeito do crime, da cadeia. Como se pode perceber pela longa duração, Joon-ho Bong narra a história sem pressa, gastando todo o primeiro ato na caracterização dos personagens e na construção delicada de uma atmosfera de estranheza. As composições visuais são primorosamente desenhadas, e o diretor abusa das tomadas subjetivas, escolhendo freqüentemente ângulos que sugerem um observador escondido presente nos locais.

Boa parte da qualidade do filme deve ser creditada à decupagem e ao pontos de vista escolhido, associada à perfeita dosagem de informações. Desta maneira, quando o crime acontece, parece claro para todo mundo – inclusive para nós, na platéia – que o autor foi mesmo o rapaz, que é deficiente mental. Mas a mãe dele, como toda boa mãe, não pensa assim. Acupunturista humilde, ela dedicou toda a vida a cuidar bem do filho, e não vai desistir dele assim tão fácil, por mais que ele entre em contradições e dê cada vez mais munição à polícia para acusá-lo.

Decidida a provar a inocência do rapaz, a mãe embarca numa investigação pessoal. Quase sempre de forma atabalhoada, ela não tem nada a seguir além de pequenos indícios e um forte instinto maternal. A investigação, claro, ocorre de forma absolutamente diversa do que seria mostrado num thriller norte-americano. Aqui há muito humor negro e, no que parece ser uma inspiração vinda do trabalho diretor italiano Dario Argento, há também uma forte crença na subjetividade das imagens: elas podem parecer claras e evidentes, mas nem sempre dizem aquilo que parecem dizer.

De resto, é preciso dizer que Joon-ho Bong extrai ótimos desempenhos de seu elenco – mãe e filho estão impecáveis nos respectivos papéis – e inclui pelo menos duas reviravoltas sensacionais e absolutamente imprevisíveis na narrativa, o que torna a experiência de assistir ao longa-metragem uma montanha-russa absolutamente empolgante. Embora dispense os efeitos especiais gerados em computador e boa parte da ação física alucinante de “O Hospedeiro”, “Mother” não fica nada a dever aos demais longas do cineasta, que afirma seu nome entre os mais inventivos do cenário internacional.

– Mãe (Madeo, Coréia do Sul, 2009)
Direção: Joon-ho Bong
Elenco: Hye-ja Kim, Bin Won, Ku Jin, Jae-Moon Yoon
Duração: 128 minutos

9 comentários em “Mother – A Busca pela Verdade

  1. É realmente muito bom este filme. Vi em Salvador há uns dois meses atrás. Geralmente estes filmes passam despercebidos, não entram no circuito comercial. Até pouco tempo atrás não chegavam aqui. Felizmente agora temos um circuito Salas de Arte, Recentemente vi Tokio, se não me engano um dos episódios é deste mesmo diretor. Gostaria de ver sua crítica a este filme.

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  2. Os filmes de Joon-ho Bong são excelentes, tenho os filmes memórias de um assassino e o hospedeiro(assisti também na fundação), ainda não vi Mother, quero muito ver os outros filmes dele cada novo filme vai sendo melhor! fiquei sabendo q o próximo filme de se chama Le Transperceneige baseado numa hq francesa, que conta uma história distopica.

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  3. Ainda não assisti Mãe. Mas o Bong é um dos filhos influenciados pela mise en scène primorosa nos filmes do Shyamalan. Como o próprio Bong admitiu, numa entrevista sobre como O Hospedeiro foi influenciado por Sinais.

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