Shrek Para Sempre

[rating: 3.5]

Depois de um terceiro exemplar bobo e sem graça, a franquia “Shrek” parecia criativamente pronta para o cemitério (falo do ponto de vista exclusivamente criativo, já que os cofres do estúdio Dreamworks continuaram enchendo com o personagem). No entanto, como as surpresas nunca param de acontecer na indústria cinematográfica, “Shrek Para Sempre” (Shrek Forever After, EUA, 2010) surgiu para mostrar que mesmo o mais surrado dos clichês pode, nas mãos certas, ser revitalizado. A quarta parte da saga do ogro verde é, depois da primeira, a melhor de todas.

De fato, a grande sacada do diretor Mike Mitchell (sim, o mesmo cara que assinou o abominável “Gigolô por Acidente”) foi simplesmente realizar uma recriação da clássica comédia “A Felicidade Não se Compra” (1946), de Frank Capra, com Shrek no lugar do personagem de James Stewart. Além de ser consistente com o conceito criativo da série, que sempre viveu de citações e alusões a filmes antigos, a idéia permitiu a inserção de novos personagens, como o vilão Rumpelstiltskin (o melhor de toda a série), e/ou a reconstrução completa de alguns coadjuvantes que já começavam a se tornar chatos, incluindo o Gato de Botas.

Dessa vez, então, encontramos Shrek enfronhado numa sufocante rotina de ogro domesticado que virou atração de parque temático e pai de três crianças. Insatisfeito com a vida de casado, ele acaba caindo na conversa de um mágico – o já citado vilão – e assinando um contrato em que abdica de um dia de sua vida, em troca de outro em que pode voltar a ser o ogro ameaçador de antes. Assim, o vilão elimina o dia do nascimento de Shrek e cria uma realidade paralela em que ele não existe, e o reino de Far, Far Away é dominado por bruxas; um reino onde os ogros formam uma resistência para combater o tirânico vilão.

Há bastante espaço no filme para a inclusão de citações espertas, algumas delas reconhecíveis apenas por adultos cinéfilos, desde as bruxas verde-acinzentadas que aludem a “O Mágico de Oz” (1939) até o duelo de banjos de “Amargo Pesadelo” (1972). A reinvenção da franquia passa por novos perfis para o Gato, para o Burro e até mesmo para Fiona. A participação do Flautista de Hamelin rende algumas das cenas mais engraçadas do filme, claramente realizado mais para adolescente e adultos do que para crianças pequenas, para quem todo o segundo ato pode parecer, talvez, sombrio demais.

“Shrek Para Sempre” é, também, o primeiro exemplar da franquia a ser realizado diretamente na tecnologia 3D digital, usada aqui com sabedoria. Sem exagerar nos sustos em que objetos são atirados na direção da platéia (e sem abdicar totalmente deles), a equipe de animadores usa a profundidade de campo extensa para criar uma encenação mais interessante do que normalmente se vê em animações infantis. Some-se a isso tudo um trilha sonora que inclui pastiches bem bolados de criações de Bach e o resultado é diversão acima da média.

O DVD da Universal traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Shrek Para Sempre (Shrek Forever After, EUA, 2010)
Direção: Mike Mitchell
Animação
Duração: 93 minutos

7 comentários em “Shrek Para Sempre

  1. Você gostou mais deste filme que eu. Acho interessante o quanto que os filmes da série foram se descaracterizando ao longo do tempo. Eles não fazem mais aquela sátira aos contos de fada, por exemplo. Ganharam tramas próprias. E se sustentam no carisma de seus personagens. Apesar de eu achar que esta história, em particular, tem um viés bem bonito, teria apreciado mais o filme se ele tivesse sido apresentada de uma forma mais inspirada pelo diretor.

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  2. Talvez, Kamila, eu tenha me surpreendido favoravelmente porque não dava um vintém pelo filme. Vi o terceiro até o fim por pura obrigação profissional, e só encarei esse aqui por obrigação paternal mesmo. Mas quando saquei a piada com o filme de Frank Capra, logo no começo, comecei a curtir. Acho que eles continuam brincando com contos de fada, sim (o flautista é a maior prova), mas também com o cinema em geral, algo que o primeiro filme já fazia em suas citações mais veladas aos filmes da Disney (Dumbo, Branca de Neve, etc). Enfim, eu curti, sim.

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  3. Eu também pensei muito em “A Felicidade Não Se Compra” durante o filme, mas nem dá para comparar os dois filmes e sei que não foi esta a sua intenção. É como eu disse: a história é bonita, mas faltou a inspiração por parte do diretor. Poderia ter resultado num filme melhor, para mim!

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  4. Entendo, mas a sua observação é meio abstrata, não? Eu tento seguir a máxima de criticar apenas aquilo que vejo. Digo aos meus alunos sempre: atenham-se ao filme, não tentem dizer ao diretor o que ele deveria ter feito. Não é esse nosso papel. É difícil criticar aquilo que não vemos.

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  5. assisti com algum receio a primeira vez – e realmente não consegue superar as brilhantes sacadas do 2° filme, nem o frescor do primeiro. Mas ao revê-lo passei a admira-lo. Embora já não tão sarcástico, ele volta a investir com força na “química” entre Shrek e Fiona, deixando o gato e o burro em segundo plano.

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