Demônio

[rating: 3]

Aquele parece apenas mais um dia comum na Filadélfia (EUA), mas vai se revelar extraordinário para um pequeno grupo de pessoas envolvidas em um incidente aparentemente banal: um dos elevadores de um prédio comercial quebra de repente, sem aviso e sem motivo, deixando cinco pessoas comuns presas dentro dele. Acontece que uma dessas pessoas pode ser o Diabo em pessoa. Mas quem? Este é o mote de “Demônio” (Devil, EUA, 2010), thriller sobrenatural do diretor John Eric Dowdle.

Esse fiapo de trama poderia ter gerado um episódio de séries como “Além da Imaginação” ou “Contos da Cripta”, especializadas em transitar nos limites de gêneros como o horror e o fantástico. Fãs do tema poderão vislumbrar a influência de um telefilme obscuro chamado “O Triângulo do Diabo” (1975), que também tinha roteiro estruturado sobre a idéia do chefe dos demônios vagando pelo planeta na pele de um mortal comum. De qualquer modo, o enredo promete um filme tenso, claustrofóbico e cheio de bons sustos. Infelizmente, “Demônio” dilui essa promessa em inúmeras subtramas paralelas, que retiram muito da força contida na premissa inicial.

Primeiro exemplar de uma trilogia de contos de horror sobrenatural passados em grandes metrópoles, filmados com baixo orçamento e contando com argumento assinado por M. Night Shyamalan, “Demônio” deve muitas de suas falhas ao roteiro medroso de Brian Nelson (“30 Dias de Noite”). Talvez sem saber como sustentar 90 minutos de interessa da platéia, ele preferiu não restringir a ação dramática ao cenário do elevador, o que talvez ajudasse a garantir a tensão necessária para que o pequeno conto de horror funcionasse em sua plenitude. Muito pelo contrário: Nelson povoou o roteiro com personagens secundários que protagonizam diversas tramas paralelas, desviando o foco narrativo daquilo que realmente interessa.

Dessa forma, temos um investigador (Chris Messina) assombrado por um passado traumático, que assiste a tudo da cabine de vigilância do edifício; dois seguranças que conhecem o prédio e tentam explicar os eventos inexplicáveis que ocorrem dentro do elevador – um deles, religioso, tentará explicar tudo pela via do ocultismo; uma equipe de bombeiros trabalhando para abrir o cômodo lacrado; um engenheiro que tenta fazer a mesma coisa sozinho; uma mulher tatuada e misteriosa que procura entrar no prédio a todo custo; além de flashbacks sobre o passado trágico do policial envolvido no caso e até mesmo de uma desnecessária narração em off.

Pode-se argumentar que tantas tramas paralelas ajudam a manter a agilidade narrativa, mas o efeito contrário é bem mais perceptível. Sem conter a ação dramática aos eventos ocorridos dentro do elevador, o diretor John Eric Dowdle impõe ao filme um ritmo errático e irregular, abusando ainda de clichês do gênero que soam datados e artificiais, como os efeitos de eco que se transformam em ruídos “demoníacos” e antecedem praticamente cada um dos momentos assustadores, ajudando a platéia a antecipá-los a longa distância. Além disso, a decupagem selecionada pelo diretor trapaceia a premissa central, ao fazer com que as imagens da câmera de segurança instalada no elevador jamais capte sinais físicos do que ocorre lá dentro (e se o Diabo consegue agir sem estar encarnado no corpo de alguém, para quê o teria feito desde o início?).

Por outro lado, claro que há acertos. A fotografia de Tak Fujimoto,que prioriza planos fechados e privilegia tomadas com eixo horizontal ligeiramente deslocado, fornece uma ambientação apropriadamente distorcida, como se sinalizasse o aspecto claustrofóbico e irreal daquela situação. Há pouca música de fundo, algo que ajuda a manter os pés da audiência firmemente fincados no mundo real. Dowdle utiliza com muita propriedade o desenho de som nos momentos em que as luzes do elevador se apagam. E, finalmente, há pelo menos um susto no filme capaz de deixar muita gente de cabelo em pé. Pena que o roteiro (de novo…) insista em procurar motivações psicológicas para todas as ações levadas a cabo pelos personagens, inclusive os menos importantes, e ainda apele para um final covarde e moralista.

– Demônio (Devil, EUA, 2010)
Direção: John Eric Dowdle
Elenco: Chris Messina, Bojana Novakovic, Bokeem Woodbine, Logan Marshall-Green
Duração: 80 minutos

17 comentários em “Demônio

  1. eu adorei o filme. não esperava que o diabo fosse quem é. e após sua revelação, gostei do desfecho. diferente, por ex., de “arraste-me para o inferno”. em que a impressão que me dá é que ali de nada adiantaria.

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  2. Uma questão importante, Edu, é que o filme às vezes trapaceia sua própria premissa quando coisas estranhas (o ferimento nas costas) acontecem sem que as imagens da câmera de segurança mostrem o autor. Na prática, isso quer dizer que o Diabo não precisaria estar encarnado em ninguém para fazer o que fez. Quanto ao final… não critico o rumo dos acontecimentos, mas sim a maneira frouxa escolhida por diretor e roteirista para fazê-lo.

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  3. mas não teria como eles mostrarem os ataques e as mortes sem revelar quem é o diabo. quer dizer, não que o próprio tivesse que fazer (fisicamente) isso, sei lá… rs. o finalzão me lembrou “seven”, pensei até que fosse acontecer o mesmo.

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  4. Rapaz… decepcionante!
    O filme seria muito bom se se concentrasse 90% ou mais do filme DENTRO do elevador.
    Acho que a produção acertou em colocar artistas desconhecidos, dando um ar de mais realidade a filme.
    SPOILER
    E não curti O “diabO” moralista. “Tá arrependido? Foda-se, vou levá-lo para o inferno assim mesmo!”, eu queria ter escutado isso.

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  5. Gostei, mas achei o final previsível. O enredo merecia sim um desfecho inusitado.

    Spoiler:
    Não que tivesse adivinhado, mas a idéia já havia sido usada no primeiro Jogos Mortais. E concordo com o comentário do Adriano sobre o diabo moralista.

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