Alucinações do Passado

[rating:4.5]

Jacob Singer (Tim Robbins) vive um raro momento de paz no Vietnã. É 1971. Os soldados do seu pelotão fazem piadas, brincam entre si, até que um leve movimento atrás da linha de árvores dá início a um pesado bombardeio. Explosões e tiros espalham sangue para todos os lados. A carnificina é quase completa. Jacob consegue se esgueirar até as árvores, mas é atingido na barriga pela baioneta de um soldado inimigo. De repente ele acorda, sentado em um banco do metrô de Nova York. Ufa! Foi apenas um pesadelo vindo direto do passado. A violenta seqüência de guerra abre “Alucinações do Passado” (Jacob’s Ladder, EUA, 1990), um sombrio e inquietante thriller que ilustra à perfeição o modo como funciona uma mente esquizofrênica.

Este não é um filme de guerra, apesar da abertura. O tema do trabalho do diretor Adrian Lyne é o tênue limite entre sonho e realidade. O pesadelo recorrente de Jacob com o ferimento de guerra que lhe atingiu, alguns anos antes, é apenas o primeiro de uma série de eventos sinistros e inexplicáveis que dão a impressão, a Jacob, de que ele pode estar ficando louco. A cena seguinte do filme deixa isso evidente. Ainda atordoado após o sonho ruim, ele percorre ao vagões desertos. É madrugada. Jacob desce na parada seguinte e descobre que a única saída aberta encontra-se do lado oposto da linha férrea. Ele tenta atravessá-la e quase é atropelado por um trem. Aterrorizado, percebe que silhuetas com rostos desfigurados, como se fossem demônios, o observam de dentro dos vagões. Como explicar a visão bizarra? Ele realmente viu aquelas sombras macabras, ou apenas imaginou?

Essa última é uma questão fundamental em “Alucinações do Passado”. Toda a atmosfera do filme, que é dirigido com perícia por um surpreendente Adrian Lyne, funciona no sentido de deixar a platéia no escuro: as inexplicáveis visões de Jacob – aparições fantasmagóricas, sonhos premonitórios, acontecimentos impossíveis – são reais ou imaginárias? Ele não sabe; o espectador também não. Lyne investe em um visual pesado, escuro e de poucas cores, para transformar o seu filme em uma espécie de pesadelo gótico inspirado por pinturas macabras de Francis Bacon. O longa-metragem investiga com perícia os limites entre o que é real e o que é ilusão.

Às vezes, é difícil acreditar que “Alucinações do Passado” foi dirigido pelo mesmo homem responsável por bobagens como “Flashdance” e “9 ½ Semanas de Amor”. Aliás, os nomes atrás das câmeras não são muito animadores, já que o roteirista Bruce Joel Rubin é o mesmo do meloso “Ghost”. Não há dúvida de que ambos fazem, aqui, o melhor trabalho de suas carreiras. A concepção visual é rica, a trama é coerente e muito bem bolada, e o filme funciona como um todo, desde a abertura literalmente explosiva até o final impactante e melancólico.

Jacob é um personagem fascinante. Traumatizado com a guerra, ele retornou aos EUA outro homem. Dono de um doutorado em Filosofia e pai de duas lindas crianças de um casamento feliz, ele jogou tudo para o alto. Abandonou a família para casar com uma carteira, e o apartamento chique em Manhattan, onde vivia, para morar em um moquifo no Brooklyn, bairro de classe média baixa habitado por criaturas da noite. Quando o vemos pela primeira vez, no metrô, Jacob está lendo o romance “O Estrangeiro”, de Albert Camus. A leitura é uma informação importante para compreendermos o homem que ele é, suas motivações e seus traumas. Jacob é um personagem sólido. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer de sua sanidade.

Interpretado por um Tim Robbins quieto, calado e com um sorriso contagiante, Jacob é um mistério que vai sendo revelado aos poucos. O filme, porém, é muito mais do que ele, e para compreender o que está se passando com a mente do sujeito é preciso saber “ler” as pistas enviadas pela exímia direção de Adrian Lyne. Os nomes bíblicos dos personagens (Jezebel, Gabriel, Sara, Paulo) informam ao espectador que há mais no quadro pintado pelo filme do que conseguimos ver. Mas o que seria esse mais? Como explicar as premonições, os fantasmas, as visões bizarras do protagonista? É tudo esquizofrenia ou há algum elemento sobrenatural por trás de tudo? Em determinado momento, Jacob começa a suspeitar que possa ter sido vítima de alguma experiência secreta com drogas durante a guerra. Papo de ex-combatente pirado ou realidade?

“Alucinações do Passado” é o tipo de filme cujo final acende uma luz diferente sobre tudo o que veio antes. De repente, o espectador vê que a resposta – surpreendente, brilhante! – estava diante dos olhos o tempo inteiro. Um dos personagens em particular, o médico quiroprático que atende Jacobs de tempos em tempos (Louis, interpretado por Danny Aiello, corrige com massagens o problema crônico nas costelas deixado pelo ferimento de guerra), é uma das chaves possíveis para desvendar o enigma, mas não a única.

Acredite: depois de uma sessão de “Alucinações do Passado”, você vai querer rever o filme para tentar refletir sobre tudo o que viu. A experiência fará o filme crescer ainda mais para os amantes de tramas complexas e diferentes. Se você assistiu a “O Operário”, gostou de “Clube da Luta” e de “Seven” (aliás, David Fincher parece ter bebido fundo da fonte de Adrian Lyne, inclusive na concepção visual dos seus filmes), “Alucinações do Passado” é um filme para guardar na estante.

O DVD foi lançado pela Magnus Opus, em uma edição simples e sem extras. O corte original (widescreen) e a trilha de áudio Dolby Digital 2.0 garantem uma exibição em boa qualidade.

– Alucinações do Passado (Jacob’s Ladder, EUA, 1990)
Direção: Adrian Lyne
Elenco: Tim Robbins, Elisabeth Peña, Matt Craven, Danny Aiello
Duração: 115 minutos

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7 comentários em “Alucinações do Passado

  1. Rodrigo, gostei bastante de sua crítica a respeito de “Alucinações do Passado”, um dos melhores trabalhos de Adrian Lyne e uma das atuações mais marcantes na carreira de Tim Robbins. Fiquei sabendo mais sobre esse filme através de um livro que possuo, “1001 Filmes para ver antes de Morrer” e fui atrás, baixei, vi e adorei!!! Cenas memoráveis e alguns questionamentos ficaram e isso torna o filme ainda melhor.

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  2. Muito interessante e bem feita a crítica. A achei pois estava pensando nesse gênero de filme que fica entre a realidade e a loucura, o limite tênue entre ambas as linha como principal motivação para manter o espectador cativo da trama e me peguei tentando lembrar o título da película aqui abodada. Só lembrava do ator, mesmo.

    Realmente, nota-se que a estética serviu de inspiração para excelentes filmes. Contudo, o tipo do filme, infelizmente, encontra-se saturando. Digo tipo como a temática abordada e a revelação do cacife “você não adivinharia nunca o desfecho”. Bom, o filme fez escola e nem que por curiosidade deve ser assistido por quem curte um fime realmente bem feito, que, pelo inexorável curso do tempo, acabou por ter seu conteúdo saturado.

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  3. Muito interessante e bem feita a crítica. A achei pois estava pensando nesse gênero de filme que fica entre a realidade e a loucura, o limite tênue entre ambas as linha como principal motivação para manter o espectador cativo da trama e me peguei tentando lembrar o título da película aqui abodada. Só lembrava do ator, mesmo.

    Realmente, nota-se que a estética serviu de inspiração para excelentes filmes. Contudo, o tipo do filme, infelizmente, encontra-se saturando. Digo tipo como a temática abordada e a revelação do cacife “você não adivinharia nunca o desfecho”. Bom, o filme fez escola e nem que por curiosidade deve ser assistido por quem curte um fime realmente bem feito, que, pelo inexorável curso do tempo, acabou por ter seu conteúdo saturado. O próprio Clube da Luta abordou tema semelhante, mas com uma linha narrativa diversa: não é o chamariz do filme a realidade/imaginação e a levada bem humorada

    Abraço a todos e parabéns novamente pela crítica!

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  4. Concordo plenamente… “Jacob’s Ladder” beira o brilhantismo. Baita filme. Só discordo quando você despreza “Flashdance”. É preciso separar filmes que são ruins por serem bobagens estúpidas, e filmes bons por serem bobagens inofensivas e divertidas. Que é o caso de “Flashdance”.

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  5. Gostei muito de sua crítica! A princípio, achei o título brasileiro bem colocado mas, depois de ver o filme, entendo porque o nome do filme seria jacob’s ladder (a escada de Jacob)..
    Essa “escada” era uma coisa individual de cada soldado do pelotão de Jacob.
    O que quero dizer é que essa “viagem” era exclusivamente de Jacob.

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