Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

[rating: 3.5]

Será que é realmente justo avaliar um filme após assistir apenas a metade dele? A pergunta salta à mente logo após a breve tomada estilo “cenas do próximo capítulo” que encerra o longa-metragem “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1, EUA/Reino Unido, 2010), sétima parte da franquia cinematográfica baseada nos livros de J.K. Rowling. Afinal de contas, essa é a natureza do enredo do filme, que cobre pouco mais da metade do romance em que ele foi baseado. E não adianta tapar o sol com a peneira. A decisão de dividir a obra em duas partes foi tomada por razões financeiras, por mais que o estúdio responsável – a Warner – diga o contrário.

Em si, essa decisão não é intrinsecamente má. A própria Warner fez circular na mídia, por meses a fio antes da estréia, que a razão concreta para a decisão teria sido a grande quantidade de eventos contidos na trama, e que a divisão ajudaria a preservar a maior parte deles, evitando assim desagradar aos fãs mais radicais. No entanto, por mais que o esforço do diretor David Yates e do roteirista Steve Kloves para dar à estrutura narrativa do longa a aparência de um enredo em três atos, o final insosso e decepcionante escancara o fato de que o público acabou de assistir a apenas dois atos de uma peça dramatúrgica que contém três.

Antes que qualquer coisa seja dita sobre o filme em si, é de fundamental importância observar que “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” só faz sentido para as pessoas que acompanham a série e, de preferência, leram os livros (ou ao menos tenham na memória os eventos mostrados nos filmes anteriores). Há tantos personagens, objetos, feitiços, lugares e criaturas (muitos mostrados, outros apenas mencionados de passagem) que até mesmo os fãs menos atentos correm o risco de se perder em meio a tanta informação, que o roteirista Steve Kloves costura habilmente no meio dos diálogos. Essa habilidade, contudo, não impede que aqueles pouco versados no universo do bruxo adolescente – me incluo nesse grupo – sintam-se mais perdidos do que um índio tupinambá no meio da Avenida Paulista.

Para contrabalançar esse problema, o fio condutor da narrativa é um fiapo de trama. Harry Potter (Daniel Radcliffe), auxiliado pelos amigos Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), precisa procurar os sete horcruxes – objetos que, reunidos, formam a alma de seu maior inimigo – para destruir o maligno Voldemort (Ralph Fiennes), enquanto foge da perseguição orquestrada pelos seguidores deste. Um monte de atores ingleses de gabarito (Helena Bonham Carter, John Hurt, Bill Nighy, Imelda Staunton) lutam dos dois lados da guerra, filmada de maneira impecável pelo diretor David Yates. Além de manter a fotografia escura e dessaturada durante todo o filme, reforçando a atmosfera soturna e depressiva com locações enormes, góticas, ameaçadoras e constantemente vazias, ele também enxerta no filme todo um subtexto político a respeito de regimes autoritários.

A Londres habitada por Potter é, agora, uma espécie de versão sobrenatural da Berlim de Hitler, com bruxos no lugar dos nazistas. A aparentemente desimportante seqüência em que dois simpatizantes dos bruxos atacam uma lanchonete onde Harry Potter come junto com os amigos espelha maliciosamente os ataques do IRA, o que ajuda o filme a crescer bastante para os olhos adultos. Já os adolescentes são premiados com algumas imagens dignas de bons filmes de horror – a abertura, com uma serpente gigantesca devorando um ser humano, e a brilhante animação que conta a história do encontro de três irmãos com a Morte, são ótimos exemplos – e com uma subtrama bastante vívida que lida com ciúmes, amizade e amor possessivo. Isso é o que de melhor “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” tem a oferecer.

Por outro lado, o clima de segundo ato sobressai durante todo o filme, em que Potter e seus amigos saltitam de um lado a outro do território inglês, sempre habitando terras desoladas, na tentativa de se esconder dos bruxos que os perseguem e ao mesmo tempo encontrar as horcruxes, praticamente elimina da trama todos os resquícios de ação física em seu terço final, que supostamente deveria ser o momento mais emocionante do filme. Se o gancho da cena final deixa o espectador salivando para assistir ao próximo filme, ao mesmo tempo em que homenageia os grandes seriados de aventura dos anos 1930, apenas varre para baixo do tapete o problema de estrutura que o roteiro não conseguiu resolver: “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” simplesmente não tem um final. Ou seja, o negócio é esperar pela Parte 2.

– Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1, EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Bill Nighy
Duração: 146 minutos

16 comentários em “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

  1. Confesso que já estava me rendendo a Harry Potter, tamanhos os elogios tecidos por vários críticos brasileiros. Fico feliz ao ler uma matéria racional que, longe do afã histérico dos pottermaníacos e de certos jornalistas, compõe argumentos coerentes e convincentes. Se alguma coisa sempre marcou negativamente a saga do bruxo, a despeito da excelente produção, foi o0 fiapo de trama que norteia cada narrativa. O astro do filme (Radcliffe) é fraco e a condução sempre é enfadonha. O sexto capítulo consegui ser mais chato do que o Cleópatra de Liz Taylor. E outra: a decisão da Warner em dividir a sétima aprte em duas nada mais é do que mera estratégia mercantil. Picaretagem das grandes. Mas, o consolo é que estamos chegando ao fim.

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  2. Pra mim a animação foi a melhor parte do filme, a mais criativa, de resto o que vemos é o quanto este sistema em três atos está encrustrado em nossa mente, simplesmente o filme não funciona.
    Quiseram imitar Peter Jackson, o que não é a primeira vez, mas na minha opnião até agora somente ele conseguiu fatiar filmes competentemente, apesar de os livro já terem essa partilha.

    Veremos se ele consegue invertar seis atos para o Hobbit, assim como foi tentado sem êxito agora.

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  3. Claro que você tem razão: esses defeitos existem mesmo. Considerando que a história foi mesmo partida, acho que até o final caiu bem.

    Mas é que quando eu vejo Harry Potter, nada disso conta. O que vale é ver as meninas (filha e sobrinhas) pinotando de susto, chorando de emoção, tensas com o suspense, com uma curiosidade incontrolável pra saber quem vai morrer, vibrando com o primeiro beijo… São os personagens que elas cresceram acompanhando, com quem se identificam e em quem se projetam. Emoção concentrada de cinema, da forma mais pura e ingênua. Espero que sintam isso sempre.

    Sempre disse que gosto de Harry Potter, mas nunca consegui ver os filmes sem minhas pequenas. Por outro lado, li cinco dos sete livros e conquistei um certo respeito – “a mãe/tia que saca de Harry Potter” (38 pontos no teste da Época, posso ser diretora de Hogwarts).

    O fato de elas gostarem de Harry Potter me deixa feliz. Pode não ser perfeito, mas é interessante, decente, bem cuidado. Também tem boas referências. A partir dos bruxinhos dá pra chamar a atenção delas pra outros temas – latim, mitologia, amizade, honestidade, literatura, escola, professor, família, inglês, viagens, geografia, nazismo, ditadura… E até defeitos da adaptação.

    Pra mim tá de bom tamanho. 🙂

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  4. Rodrigo, entre ‘final é insosso e decepcionante’ e ‘deixa o espectador salivando’, ambas declarações suas, no texto acima, fico com a segunda. Acho que Yates acertou a mão. O trio de protagonistas também. Dentre a saga, foi o longa mais maduro e menos feito para fãs. Sobre este ponto, fãs, gostaria de pedir que você comentasse um ponto: porque alguns críticos desqualificam uma obra que tem fãs? Como Raphael Travassos (Cinieasta73) aí acima? Ser apreciado pelas massas denigre? O povo nunca pode acertar?

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  5. Roberta, o conjunto de argumentos é muito consistente. Concordo com tudo. Só acho que eles realmente não invalidam a crítica. 🙂

    Raquel, a sua pergunta é feito a críticos desde o século XVI. E a resposta é bastante simples: é claro que “ser apreciado pelas massas” não denigre nada. Tampouco é garantia de qualidade, certo? Há filmes fantásticos feitos para serem populares, assim como há também filmes terríveis. Não se trata de desqualificar uma obra que tem fãs (até porque toda obra os têm). O trabalho do crítico é colocar a obra em crise. Esse argumento sobre ser “o longa mais maduro” está circulando desde o segundo filme, e afinal de contas, é uma obrigação de cada filme que seja mesmo mais maduro do que o anterior. Estamos falando de uma saga sobre o amadurecimento de um jovem!

    Abraços.

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  6. Mas eu disse isso na primeira linha: concordo com o que você diz. Só quis dizer que não tira meu gosto pelo (s) filme (s) porque minhas razões são outras. Eu tenho medo de estudar cinema e deixar de gostar de filme somente porque-gosto-e-acabou-se.

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  7. Após assistir ao primeiro filme deste encerramento da saga, acho que a decisão da Warner em dividir um livro em dois filmes se revelou ser ruim! Também não li os livros da série literária e achei esta obra um retrocesso, se comparada à “O Enigma do Príncipe”, que é um filme bem melhor. Achei este roteiro muito mal escrito. A história não decola e me parece que enrola, enrola, para chegar ao mesmo lugar. Destaco somente a técnica do longa, especialmente a fotografia e a trilha sonora.

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  8. Discordo do fato de acharem que a Warner SÓ queria dinheiro. Uniu-se o útil ao agradável. O sétimo livro é o livro com menos tempos mortos e com menos cenas de alívio, é informação atrás da outra e coisas acontecendo que, no cinema, seria desperdício e falta de cuidado se não fosse dividido em dois filmes. Não consigo imaginar um roteirista que conseguisse condensar aquilo tudo, de forma que ficasse minimamente fiel e compreensivo, em apensar um filme; a não ser que quisessem lançar algo com cerca de 5 horas e meia.

    Harry Potter é um espetáculo em vários atos desde o primeiro filme. Não tem como desligar um do outro de forma alguma. É como ver uma série de TV com um intervalo médio de um ano, e a Parte 1 desse filme, nada mais é do que um desses episódios.

    As Relíquias da Morte Parte 1, levou os filmes de Harry Potter a um novo patamar, é um filme seguro, e digno de ser chamado de Cinema.

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  9. Concordo com Diego. Por mais que pensaram na grana, o livro merecia mesmo duas partes. Pra mim aquela sensação de um filme fatiado episódico que me incomodava em boa parte dos filmes anteriores acabou. Achei bem mais consistente a edição, e isso foi beneficiado por terem mais tempo.

    O modo como filmaram algumas cenas de ação deixou o filme bem realista. O clima de urgência, a sensação de fim dos tempos, a clima pós apocaliptico é muito passado pelo filme. A fotografia e as locações contribuiram bastante.

    até agora para mim, o melhor filme da série.

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  10. Pelo menos a decisão de fazer o filme em duas partes permitiu uma adaptação mais próxima do original, se comparar com a Ordem da Fênix, que é enorme. Mas a sensação de filme inacabado encomoda bastante.

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  11. Ao meu ver, dividir o filme foi a decisão mais sensata.
    Ver Harry Potter sendo ridiculamente fatiado pra caber em 2 horas de filme era terrivelmente frustrante.
    E, claro, aconselho a leitura de Harry Potter à todos. Não é sempre que se encontra uma história infanto-juvenil como essa, que filhos, pais, tios e avós conseguem ler, assistir, aprender e se emocionar. Eu cresci com Harry Potter e tenho muito orgulho disso, é uma das poucas coisas que me dão alegria de ter nascido na década de 90.
    Já dizia o mestre Stephen King:

    “Harry Potter is about confronting fears, finding inner strength and doing what is right in the face of adversity.”

    Todos nós precisamos de um pouco disso, são atributos para a vida.

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  12. Impossível não se render à maturidade do filme. Se fossem cenas rápidas seria possivel dispensar o sétimo filme da Saga. Há no entando, para quem acompanha, essa necessidade ( claro que também comercial) de dar aos personagens o aspecto maduro fora do ambiente infantil e ensolarado dos primeiros filmes. Como sou fã incondicional, porque considero a autora um dos últimos gênios criativos, o filme além de me deixar salivando pelo próximo, antecipadamente sinto em todos que acompanham, uma certa melancolia. Afinal foram 10 anos acompanhando inclusive o crescimento real dos atores. Harry Potter não é só um marco literário, mas um marco cinematográfico. Pode parecer exagero, mas poucos conseguiram isso, como o Poderoso Chefão e Senhor dos Anéis. Condesso que sentirei falta.

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  13. Quando li o primeiro livro da série, tinha apenas 8 anos e me fascinei quase que instantaniamente pela estória e acompanhei a saga até o fim, me considero um verdadeiro fã, e uma coisa que sempre me incomodou é a adaptação do livro para o filme, sei que é impossível retratar todo o conteúdo em um único filme, principalmente um conteúdo extenso como é o caso dos livros da saga, mas ao olhar para outros títulos como O Senhor dos Anéis, vejo que mesmo sem retratar tudo, é possível faze-lo de uma forma fiel, e que agrade os fãs e os que ainda não conhecem. Certamente não é o que acontece nos filmes de Harry Potter, onde todo o universo dos livros se resume em um simples relance do que realmente é. Quase todos os pequenos detalhes, que não deixam de ser importantes, são descartados. Outro aspecto dos filmes é a falta de informação nescessária para que os que não conhecem entendam o que se passa, como o Carreiro falou, quem não tem um conhecimento prévio da saga, facilmente se verá perdido na estória. Existe um lado positivo nos filmes, os cenários, figurinos, efeitos especiais são impecáveis, mas do que adianta tanta beleza com tão pouco conteúdo ?

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