Toy Story 3

[rating: 4.5]

Na indústria cinematográfica, há uma regra que quase sempre se mostra correta: seqüências de filmes famosos nunca atingem o mesmo nível da produção original. Essa, aliás, é uma das razões pelas quais a Pixar se recusou, durante quase duas décadas, a realizar continuações de seus longas-metragens vitoriosos. A única exceção havia sido “Toy Story 2” (1999), que retomava os brinquedos vivos de “Toy Story” (1995). A série vira trilogia completa e fechada com “Toy Story 3” (EUA, 2010). Ainda que não esteja no mesmo nível de elegância, sutileza e criatividade de seus dois predecessores, o filme encerra a trajetória cinematográfica dos brinquedos de maneira digna e complexa, em uma aventura que mistura comédia e drama com coerência e desemboca em um final melancolicamente devastador.

O segredo da qualidade superior de “Toy Story 3” está na abordagem. Enquanto a maioria das seqüências de filmes famosos coloca personagens conhecidos vivendo variações das aventuras originais, a terceira parte da franquia da Pixar se baseia na lógica para desenvolver uma situação dramática já rascunhada nas duas partes anteriores, e que aqui atinge um ponto culminante. Essa situação pode ser resumida em uma pergunta: o que acontece com os brinquedos depois que seu dono cresce e pára de brincar com eles? O caubói Woody, o astronauta Buzz Lightyear e os demais brinquedos do menino Andy já haviam sido confrontados com esse dilema no filme de 1999. Na trama da terceira e última parte da trilogia, esse dilema deixa de ser retórico e passa a ser concreto.

O filme localiza Andy, o dono dos bonecos, aos 17 anos, às vésperas de deixar a casa dos pais e seguir para a faculdade. Os brinquedos, há anos trancados dentro de um baú apertado, se questionam sobre seu destino, temendo encontrar seu fim no lixo. Depois que Andy toma sua decisão, no entanto, uma série de contratempos imprevisíveis faz todos irem parar em uma creche de aparência encantadora. Bom, pelo menos no começo. É o início de uma jornada que os levará, mais uma vez, a peregrinar pela cidade, correndo contra o tempo para conseguir voltar à casa a tempo de cumprir as intenções originais de Andy.

Um dos maiores acertos de “Toy Story 3” está na força do segundo ato, quase sempre o ponto fraco de continuações. Nesse trecho mais longo dos filmes, depois que conhecemos a motivação dos heróis, estes normalmente se limitam a enfrentar obstáculos em busca de um objetivo que, já sabemos de antemão, será alcançado no final. “Toy Story 3” tem tudo isso – a longa seqüência de fuga da creche, através de um plano complicadíssimo que cita insistentemente o clássico “Fugindo do Inferno” (1963), é uma montanha-russa de emoções e muitíssimo bem dirigida – e vai além, pois acrescenta dois novos personagens que funcionam como diapasões do tema central (o destino de brinquedos velhos): o urso cor-de-rosa Lotso e um palhaço melancólico.

Esses dois personagens funcionam como caixas de ressonância, de modos diferentes, do mesmo drama que move nossos heróis – são bonecos esquecidos por seus antigos donos – e nos lembram constantemente que todo o esforço feito pelos brinquedos ao longo do segundo ato pode não dar em nada se, no final do filme, a decisão sobre o destino deles for desagradável. É uma diferença sutil, mas que mantém a tensão num nível alto o tempo inteiro, e prepara o terreno para um clímax adulto e, em termos emocionais, absolutamente devastador. É um final que assinala, para além da excelência técnica naturalmente presente (note como a iluminação e as composições pictóricas mudam a aparência da creche, do reconfortante ao ameaçador, em certos momentos; note a textura realista do pêlo do urso Lotso e dos tecidos das roupas do Ken), a coragem da Pixar em ousar num grau acima do que fazem todos os concorrentes.

“Toy Story 3” só não é perfeito porque o roteiro escrito por Michael Arndt (“Pequena Miss Sunshine”) contém pequenos deslizes, tanto no tom quanto na precisão narrativa. No primeiro caso, há uma boa quantidade de gags humorísticas num estilo cínico e irreverente, mais próximo dos trabalhos da Dreamworks; a seqüência musical da troca de roupas de Ken e o Buzz espanhol são momentos legais, só que mais parecem cenas de “Shrek”, e destoam bastante do tom geral dos trabalhos da Pixar, cujo humor é mais sutil e menos escrachado.

Além disso, há lacunas narrativas, como se pode ver na resolução da cena que ocorre dentro do forno do lixão (incoerente, e que denota certa falta da imaginação do roteiro) e, sobretudo, na transição apressada e deselegante que ocorre entre o segundo e o terceiro ato, quando os brinquedos saltam (quase literalmente) do depósito de lixo para um lugar bem mais ameno. Não fosse esses pequenos deslizes (que, diga-se de passagem, não comprometem o resultado final) e teríamos mais uma obra-prima irretocável com o logotipo da Pixar.

O DVD nacional é um lançamento da Buena Vista e capricha na qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Toy Story 3 (EUA, 2010)
Direção: Lee Unkrich
Animação (vozes originais de Tom Hanks, Tim Allen, Ned Beatty, Michael Keaton)
Duração: 103 minutos

26 comentários em “Toy Story 3

  1. Eu amei este filme e olha que entrei em contato com esta franquia cinematográfica somente neste ano. Acho que o grande segredo da série “Toy Story” é que ela nos fala de um tema com o qual todos podemos nos identificar. Todos fomos Andy em algum momento de nossa vida. Adoro a forma como a série fala sobre lealdade, companheirismo. E achei linda a forma como eles retrataram a despedida e a rejeição aqui! O final é mesmo devastador. Chorei que nem um bebê. 🙂

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  2. É lindo mesmo! O final faz você lembrar de toda a saga dos personagens e da sua própria história… Ainda mais para alguem que, como eu, começou a ver os filmes criancinha e agora tá na faculdade, como Andy…
    PS.: nem precisava comentar sobre a técnica, mas essa diferença de iluminação na creche me deixou babando 🙂 E alguns jogos de luz e sombra nas partes mais “sombrias” são o que há!

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  3. Fiquei revoltado, eu fui assistir hoje no shopping recife e
    não passou o tradicional curta de abertura dos filmes da pixar.
    Mas não deu tempo de ficar muito irritado, pois em 5 minutos já
    estava imerso no filme.
    Passou o curta sua sessão?Se passou, e aí foi legal?

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  4. Sim, o curta, Dia e Noite, parece ter sido feito pra 3D mesmo, e é bem legal. Ei vi o primeiro filme da franquia em 1995 com 11 anos de idade, e esta terceira parte foi o filme que me deixou mais próximo de verter uma lágrima nos últimos 3 anos pelo menos. Ignorei estes pequenos problemas (e realmente o são) e mergulhei de cabeça na aventura. Fenomenal.

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  5. Eu tbm vi em uma sessão do plaza que passou o curta. Não vi em 3D, pode até ser que ele fique beem melhor, mas, pra mim, em 2D ele funciona muuuito bem, como tudo que a pixar faz(carros err… ok, quase tudo).

    Achei toy story muito bom, achei difícil não gostar pra quem viu o 1 e o 2. e o final é realmente muuito legal.

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  6. Ei Fábio, você ficou próximo de verter uma lágrima? Eu chorei… muito… mesmo! Nas palavras de Rodrigo: “clímax adulto e, em termos emocionais, absolutamente devastador”… 😉

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  7. Muito boa crítica, Rodrigo ! Após lê-la e também os comentários, fiquei aliviada em saber que não tinha sido a única a chorar no final (rsrsrsrs). O filme é ótimo ! Mas sua percepção de crítico é afiadíssima, pois confesso ter adorado os momentos da dança com troca de roupas do Ken e do Buzz espanhol. Acho que foram aqueles em que mais ri. E, ainda que representem um viés meio diferenciado de humor peculiar às produções da Pixar, achei-os atuais e eficazes. Tanto quanto aquela observação final, já com a apresentação dos créditos, quando os brinquedos comentam sobre a letra do Ken. Grande abraço!

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  8. Faz tempo que assisti aos dois primeiros filmes, mas achei o terceiro mais tenso emocionalmente por causa do objetivo deles de não serem descartados. Por não lembrar quase nada do segundo filme e quase tudo do primeiro, até o momento o toy story 3 é o meu preferido.

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  9. E sobre o curta, há poucos dias fui assistir no Box em 2D e passou o curta, sim. Devem ter incluído por causa das reclamações. Foi muito criativo o curta.

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  10. Andréa eu não acho que a percepção do Rodrigo é afiadíssima por causa dessa cena, nessa cena em particular eu acredito que seja mas uma questão de interpretação de cada um.
    Eu vejo um pouco diferente dele essa cena, pra mim a Pixar conseguiu utilizar um dos clichês do cinema e utilizou de uma forma que funcionasse.
    E falar que tal cena ta mas pra Dreamworks ou Pixar, é querer limitar tanto uma quanto a outra. A cena é válida desde que funcione no contexto do filme gratuita. No mais, só ressaltar a cena em que as personagens ficam de mãos dadas, sensacional, o ápice da tensão.

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  11. “…A cena é válida desde que funcione no contexto do filme e NÂO SEJA gratuita. No mais, só ressaltar a cena em que as personagens ficam de mãos dadas, sensacional, o ápice da tensão.”

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  12. Vinícius, em princípio qualquer cena é valida no contexto de qualquer filme. No entanto, historicamente os estúdios sempre construíram tradições que se refletiam em seus filmes. A Warner sempre fez filmes sobre trabalhadores/periferia, a Universal era especialista em filmes B fantásticos, a Paramount ficou conhecida pelas comédias sofisticadas sobre burgueses em crise, a MGM por construir mundos de sonho, etc. A Pixar nunca teve por tradição a irreverência, coisa que a Dreamworks fez questão de cultivar. Abs.

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  13. To chegando aqui meio atrasado, mas é que só vi o filme agora! Concordo com a crítica, especialmente no que diz respeito aos deslizes de roteiro. E vê que legal, Rodrigo, o filme também cita outra obra, além de “Fugindo do Inferno”: “Cool Hand Luke” (1967), com Paul Newman no papel principal. Achei a cena homenageada no youtube pra você sacar: http://www.youtube.com/watch?v=LvwqK2gn3S0

    (Aquela cena em que o Buzz reiniciado fala que quem desobedecer as regras passa a noite na caixa).

    Abraço!

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