À Prova de Morte

[rating:4.5]

Incensado como maior renovador do cinema na última década do século XX, Quentin Tarantino já provou diversas vezes que tem talento inesgotável para transformar lixo em ouro. O cineasta norte-americano fez carreira transformando a si mesmo em usina de reciclagem cinematográfica. Seu modo de trabalho consiste em reunir estilhaços variados de cultura pop, de valor artístico duvidoso, e criar arte a partir deles. Esta estratégia fica mais uma vez evidente em “À Prova de Morte” (Death Proof, EUA, 2007). Somente alguém como Tarantino teria o talento necessário para promover um filme de aventura, híbrido de slasher (maluco-sai-matando-gente-de-formas-exóticas) com longa de perseguição de carros, à categoria de clássico instantâneo do cinema contemporâneo.

Concebido como homenagem à experiência de freqüentar cinema de bairros nos Estados Unidos da década de 1970, “À Prova de Morte” foi lançado por lá como parte integrante de um projeto divertido e ousado. Intitulado “Grindhouse” e recheado com quatro trailers falsos, o filme de Tarantino fazia um combo com outro longa-metragem, do amigo Robert Rodriguez (“Planeta Terror”). A película de Tarantino encerrava a sessão dupla de 3h12. O fracasso nas bilheterias, com apenas US$ 24 milhões conquistados, fez a Miramax repensar a estratégia de lançamento das duas obras, separando-as em definitivo. “À Prova de Morte” chega sozinho ao mercado internacional, expandido com uma dezena de cenas inéditas que tornam a experiência de assisti-lo ainda mais deliciosa.

Em diversas entrevistas concedidas para promover o trabalho, Tarantino fez questão de repetir: “À Prova de Morte” não é uma brincadeira inconseqüente, mas um filme ao qual se dedicou 100% e cujo resultado final o deixou orgulhoso. Tais declarações eram uma estratégia de defesa contra detratores que, mesmo sem assistir à película, expressavam asco à idéia de que um diretor famoso se rebaixava a ponto de criar um mero filme de “horror dentro de um carro”. Bobagem: uma espiada retrospectiva na carreira de Tarantino deixa evidente que o namoro com subgêneros B, quase sempre considerados pelos críticos como escória cinematográfica, não é novidade para o diretor.

Filme a filme, e desde que estreou no ramo, Tarantino sempre se dedicou trabalhar com material recolhido do depósito de lixo do cinema mais próximo, reciclando-o segundo suas próprias leis e transformando esses detritos em algo original e consistente. Foi assim que o diretor reabilitou seguidamente o filme de gângster (“Cães de Aluguel”), a ficção policial barata (“Pulp Ficcion”), o blaxploitation (“Jackie Brown”), os faroestes espaguete e as aventuras de artes marciais (“Kill Bill”). Dentro da filmografia de Tarantino, é provável que “À Prova de Morte” tenha parentesco próximo com “Jackie Brown”, tanto pelo gênero escolhido quanto pela direção de arte, que tem cor, formas e cheiros oriundos dos anos 1970. Como de praxe, o maestro brinca com a platéia, inserindo referências abundantes aos seus trabalhos anteriores.

“À Prova de Morte” não seria um legítimo Tarantino caso se limitasse a reproduzir os clichês dos subgêneros escolhidos – a estratégia foi escolhida por Robert Rodriguez, e é precisamente por isso que “Planeta Terror”, apesar de divertido, não alcança o mesmo nível de excelência. O diretor que revolucionou o cinema com “Pulp Ficcion” é mais esperto do que o parceiro, e utiliza as convenções narrativas dos filmes B apenas como ponto de partida, subvertendo-as saudavelmente no decorrer da projeção. Atente ainda para a faceta “professor Tarantino”, que indica uma série de obras icônicas dos subgêneros para a porção da platéia interessada em conhecê-los melhor, fazendo os personagens (quase auto-conscientes desta condição ficcional) citarem e comentarem um monte deles: “Corrida Contra o Destino”, “Bullitt”, “60 Segundos” (“o original, não aquela bomba com Angelina Jolie”, diz um deles).

Curiosamente, a estrutura narrativa é a mais linear de todos os filmes do diretor, dispensando a já tradicional cronologia fragmentada que caracteriza todos os trabalhos anteriores dele. A história é estruturada em dois blocos semelhantes, separados por um intervalo cronológico de 14 meses. Por duas vezes, a câmera de Tarantino acompanha um dia de bate-papo na vida de quatro garotas, mostrando em seguida o encontro delas com um serial killer que mata usando um carro. Aliás, as duas incríveis seqüências nos automóveis, feitas quase sem auxílio de CGI (é por isso que uma das atrizes protagonistas, Zoe Bell, é dublê de verdade – você vai entender quando vir a longa e eletrizante cena que ela desafia as leis da gravidade), põem “À Prova de Morte” na seleta lista de filmes com grau máximo de realismo em cenas do gênero. É material à altura de “Bullitt”, “Operação França”, “Mad Max” e “Viver e Morrer em Los Angeles”.

É muito bom perceber, também, como Tarantino vem se tornando uma dos melhores cronistas da alma feminina entre os cineastas contemporâneos. Se nos primeiros filmes dele os diálogos entre personagens eram nitidamente masculinos, aos poucos isso foi mudando. Este é o terceiro filme seguido, se considerarmos os dois volumes de “Kill Bill” como um só longa, em que os protagonistas são mulheres. As garotas aqui conversam, agem e sentem como fêmeas, embora o ponto de vista do filme em si seja bem macho, como provam os enquadramentos que valorizam partes do corpo feminino tipicamente fetiches para o diretor (pés e bundas). Durante as maravilhosamente vívidas seqüências de bate-papo, Tarantino registra com muita fluência e espontaneidade o tipo de conversa descontraída que só rola entre mulheres. São momentos deliciosos, maravilhosos bate-papos cheios de completa leseira e descontração, que capta o senso agudo de amizade só possível de ver entre garotas. Papo de homem, diga-se de passagem, é algo que Tarantino já havia resgatado antes com a mesma perfeição (“Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction”).

Estreando como diretor de fotografia, o cineasta ainda nos brinda com uma linda tomada de dez minutos ininterruptos, sem cortes, com a câmera acompanhando uma das conversas entre as meninas, em torno de uma mesa de bar. É o tipo de cena que a gente assiste com um sorriso largo na boca – se aquela conversa demorasse mais uma hora, a platéia assistiria a tudo, sem achar enfadonho. O papo é jovem, vívido, colorido, real, travado entre gente de carne e osso, gente que exala uma enorme vontade de viver e aproveitar a vida. É material perfeito para cinéfilos comprovarem, mais uma vez, que não existe cineasta tão bom neste planeta para escrever e filmar diálogos. A trilha sonora (Jack Nietzche, Pino Donnagio, Ennio Morricone) amplifica ainda mais a experiência vibrante da platéia, cobrindo tudo com um verniz pop que é cara de Tarantino. Melhorar a experiência só seria possível se desse para ver o filme num drive-in, em carro conversível.

Embora você provavelmente já tenha lido por aí que o protagonista de “À Prova de Morte” é um assassino serial chamado Mike Dublê (Kurt Russell, intencionalmente canastrão e por isso mesmo excelente), a verdade é que o maníaco, dono de um carro com ferragens reforçadas usado para matar meninas bonitas, tem pouco tempo de tela. A alma deste filme é feminina, e o único personagem macho com falas – além do próprio Tarantino, numa ponta curta e bem-humorada como barman – só aparece para estragar o prazer genuíno de ver as garotas tendo aquele tipo de diversão extravagante que só as mulheres conseguem ter. Nada que um final inesperado, ousado e muito cool não possa resolver, numa cena que homenageia com sadismo nostalgicamente perfeito o cinema de ação B dos anos 1970 (trechos de “Boogie Nights”, especificamente as cenas do seriado de detetive com o astro pornô Dirk Diggler brandindo um revólver de espoleta, vêm a mente). Nesta toada, “À Prova de Morte” chega ao fim e você já está louco para revê-lo. Há melhor sinal do que isso?

O DVD da Europa Filmes mantém o enquadramento correto (wide anamórfico), tem trilha de áudio impecável (Dolby Digital 5.1) e conta com dois pequenos featurettes (20 minutos e 12 minutos) sobre os dublês e os carros usados no filme.

– À Prova de Morte (Death Proof, EUA, 2007)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Tracie Thoms
Duração: 90 minutos

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28 comentários em “À Prova de Morte

  1. Antes de qualquer coisa, o seu texto está incrível e à altura do filme, Rodrigo. Compartilho de todos os pontos e vírgulas que você depositou aí – apesar da palavra “lixo” ter me incomodado um pouco, já que amo os exploitation.

    Eu tenho o DVD original, importado, já o assisti antes, e estou me segurando para não rever, pois o filme ainda não foi lançado na minha cidade. Espero que isso aconteça já na próxima semana. maldito dia que perdi a exibição na Mostra Internacional de SP.

    Um forte abraço!

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  2. Vi ontem, filmaço. E o final heim rsrsrrsrsr? Mas fiquei curioso com o que aconteceu com a quarta menina que ficou com o dono do carro. O que acontecu com a coitadinha? Dependendo do que ocorreu coitadinho será o dono do carro rsrrsrsrsrsrsr. E realmente Tarantino mostra como as mulheres devem agir, com força e coragem sem temer homens.

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  3. eu, sinceramente, não curti mto.

    o Tarantino é foda, e disso não há dúvida, mas achei certas partes muito enfadonhas e faltou o trash e o gore dos filmes que ele tá homenageando (diferente de Planeta Terror, por exemplo).

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  4. Rodrigo é incrível como um diretor que tem os melhores diálogos femininos do cinema seja incompreedido pelo público feminino que na sua maioria detesta filmes d arte marcial, faroeste, perseguição de carro e etc. Pelo menos ele pode contar comigo q continuo adorando seus diálogos tanto femininos quanto masculinos.

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  5. Tô ficando velho e chato pra caralho. Continuo procurando até agora onde está a genialidade desse filme. Simplesmente não tive cunhão nem pra terminar de assistí-lo. Trata-se de um exploitation que não chega a acontecer… tipo aquele amasso que os pais interrompem chegando mais cedo em casa, sabe? Gera uma expectativa que não se concretiza. Foi muito frustrante minha experiência com esse À Prova de Morte, tal qual Kill Bill, aquela bobagem sem sentido algum. E olhe que eu gosto muito, mas muito mesmo dos primeiros trabalhos de Tarantino. Na minha cabeça, não dá para segurar um filme apenas com blá-blá-blá recheado de referências pop. Me cansa! Tarantino insiste em fazer cinema para nerd cinéfilos. Felizmente temos um Bastardos Inglórios para esquecer esse aqui. Por mim, poderia ter permanecido inédito tranquilamente.

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  6. Olha Rodrigo Carreiro gostei muito do seu site, muito diferente de outros críticos que gostam de impor suas próprias opiniões na crítica, ou se negam o elogiar o filme simplesmente por que não gostam do diretor, como é o caso do tarantino que é odiado por muitos . Suas críticas são bem coerentes e detalhistas , é a primeira vez que visito seu site e depois de eu ler muito aqui, com certeza vai virar um ponto de referência pra mim. Quanto ao filme o que dizer, poucos são os filmes que me prendem a atenção do começo até o fim, entre eles estão todos os filmes de Tarantino, muitos reclamam de seus diálogos longos, mais todos que gostam de cinema sabem que todas aquelas longas conversas são grandes referencias ao cinema, ai muitos não entendem o que está sendo dito e acham aquilo incrivelmente chato,o que tambem é o caso de alguns criticos principalmente dos EUA. O filme me entreteu muito , trilha sonora incrível como já é de costume , os diálogos inteligentes, Marcy Harriel me fez rir muito e aquela batida dos carros no meio do filme é de deixar de boca aberta, sem falar naquele perseguição incrivel que por mais longa que seja ainda deixa vontade de ver mais, e um final justo , meio rísivel até visto que é uma história tosca típica dos filme que o tarantino homenageia e sempre provando que as mulheres tem FIBRA. A prova de morte é mais um dos excelentes filmes que mesmo tendo visto aqui no pc e no cinema, vou comprar o dvd , original claro ! Mais visto que os personagens de Tarantino vivem em universo paralelo, eu continuo preferindo seu Kill Bill, um filme tão surreal e fantástico que eu não me canso de assistir , até já perdi as contas…Só é uma pena que nesse A Prova de Morte Tarantino tenho ,digamos, fracassado na sua tentativa de trazer Kurt Russell de volta para os filme de ação( coisa que ele fez com john travolta que depois só fez cagada pra ser sincero), mesmo com sua ótima atuação ,mas o que realmente conta hoje nesse louco mercado cinematográfico é o dinheiro , no qual o filme infelizmente não fez sucesso.

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  7. Iago, agradeço pelos elogios. Fico feliz de ler sobre coerência. No entanto, não concordo com a observação a respeito de outros críticos “tentarem impor suas opiniões” e “se negarem a elogiar o filme simplesmente porque não gostam do diretor”. Entendo que ninguém goste de ler textos que vão de encontro às suas opiniões, mas é preciso entender que o debate é saudável e a unanimidade não existe, e nem deve mesmo existir. Todo crítico tem uma opinião; a boa crítica não é aquela que concorda com a sua, mas sim aquela que expõe essa opinião com clareza e argumentação inteligente.

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  8. Rodrigo,gostei muito da sua critica(não so dela,mas de várias outras que faz) e como fã de Tarantino,adorei o filme.Gostaria de comentar também que um dia desses,vi no Youtube um vídeo muito bom sobre os filmes de Tarantino.O curta é um diálogo entre Selton Melo e Seu Jorge sobre a ligação entre os filmes de Tarantino.É um video muito bom e que merece ser visto.Se chama “Teorias de Quentin Tarantino”.

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  9. Não assisti Planeta Terror e estou pensando em assistir A prova de Morte amanhã, será que vou ficar perdido, é melhor assistir Planeta Terror antes ou não tem problema?

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  10. Já assisti todos os filmes de Tarantino e esse com certeza é o menos espetacular, como eu costumo dizer, já que Tarantino é sempre muito foda, a critica tá muito boa e bati muito com o que senti após ver o filme, só discordo quando você diz dos diálogos, o diálogo das 4 mulheres no bar é realmente muito bom, e também do Dublê Mike explicando o que é um bar, mas os outros diálogos principalmentes os 2 diálogos no carro que abrem as duas partes do filme achei meio caído e cansativo.

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  11. Rodrigo, encontrei seus textos por acaso, navegando pela Internet atrás de informações sobre filmes. Gostei muito do que li por aqui. Também escrevo para um blog de cinema. O endereço está aí. Se depois você se animar e tiver tempo de dar uma olhada… Vou continuar acompanhando seu trabalho daqui. Abraços!

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  12. À Prova de Morte pode não ser um filme espetacular do início ao fim, mas possui cenas que, na minha humilde opinião, ficarão para sempre na minha memória cinematográfica. O trecho que antecede a grande batida entre os carros é extremamente tenso e sensual. A batida em si revela detalhes chocantes e ao mesmo tempo cômicos do que acontece com as garotas. E o que falar da perseguição final? Supreendente reviravolta. Kurt Russel dá um show e as meninas são um colírio para os nossos olhos (para nós, marmanjos, principalmente).

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  13. graças a Deus tive oportunidade de ver o filme no cinema, esta em pre estreia no cine belas artes (bh) de sexta a domingo , pra quem queria ver no cinema ta ai a oportunidade. depois o filme vai entrar em cartaz mesmo ,tendo sessoes de segunda a segunda !

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  14. Engraçado, ao término da sessão de “Á Prova de Morte” eu não estava louco para revê-lo, mas sim correr da sala de cinema sufocante e abocanhar um cigarro. Não via a hora em que esse “reality show” com diáologos intermináveis e fúteis de orgulho-de-fêmea-no-comando terminasse. Um tipo de revolução sexual equivocada, banal. Mas realmente, o que mais me surpreendeu foi a futilidade do roteiro, digno de sonolência; apesar da fotografia e dos enquadramentos lindos. Amei os dois volumes de Kill Bill, mas este “À Prova de Morte” está para mim bem mais como “À Prova de Vida”.

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  15. Preimeiramente tenho que confessar que assisti a pouquíssimos filmes do gênero para ter bons argumentos no momento de comparar o que Tarantino fez com aquilo que o inspirou. Sendo assim, não dá para eu saber se o filme é realmente como deveria ser.

    Por outro lado, achei que como um todo, o filme não chega a ser grande coisa. Muitas cenas são divertidas e a sequência final é excelente (mostro esse final pra todo mundo!!!), mas sinto falta de unidade entre as duas partes do filme. Além disso, os diálogos são excessivamente longos e chega um momento que você começa a se perguntar se aquilo vai chegar realmente a algum lugar.

    De qualquer forma, achei o filme interessante e, como já disse, sempre mostro o final para as pessoas e todos adoram. Mas não sei se teriam paciência para assistir ao filme desde o início. Sou fã do Tarantino, mas este não me agradou tanto.

    Um abraço!

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