Kick-Ass – Quebrando Tudo

[rating: 4]

A principal abordagem dada por diretores de cinema aos filmes de super-heróis, no século XXI, consiste em colocar esses seres extraordinários no ambiente mais realista possível. Praticamente todos os filmes de sucesso a explorar o filão, incluindo as séries “Homem-Aranha” (Sam Raimi) e “Batman” (Christopher Nolan), utilizaram essa abordagem. A lista é interminável, e inclui a adaptação de “Watchmen”, clássico gibi a inaugurá-la, ainda nos anos 1980 (o filme não é tão clássico assim). Este “Kick-Ass – Quebrando Tudo” (EUA/Reino Unido, 2010) vem se juntar à lista, acrescido de um saudável humor negro que lhe empresta um molho de irreverência capaz de destacá-lo entre tantos produtos parecidos.

A primeira incursão do diretor britânico Matthew Vaughn no universo dos super-heróis buscou inspiração numa revista em quadrinhos (até aí, nenhuma novidade) assinada por Mark Millar e John Romita Jr, dois grandes nomes da arte seqüencial. Foi co-produzida por Brad Pitt, teve orçamento reduzido de US$ 28 milhões e apostou num elenco parcialmente desconhecido, formado principalmente por adolescentes. De nomes conhecidos, apenas Nicolas Cage e Mark Strong (ambos ótimos, o segundo cada vez mais à vontade em papéis de vilão propositalmente caricatural e maniqueísta).

A meninada, apoiada no bom roteiro co-escrito por Vaughn (com Jane Goldman), segura bem as pontas. O enredo lembra uma fusão do primeiro “Homem-Aranha” (2002) com “Watchmen” (2009), e não é de estranhar que os dois filmes sejam profusamente citados ao longo da trama, seja através de alusões narrativas, nos figurinos, na paleta de cores vibrante (muito próxima do universo dos quadrinhos) e até mesmo nos diálogos. Boa parte do humor do filme vem do pastiche, com zilhões de citações facilmente reconhecíveis pelos cinéfilos (“Taxi Driver”, “Por uns Dólares a Mais” e por aí afora).

O estilo de direção de Matthew Vaughn – cenas curtas, muitas fusões e truques visuais nas trasições entre cenas, música pop, alternância de câmera lenta e cortes rápidos nas cenas de ação, humor negro – é claramente inspirado em Guy Ritchie, para quem ele produziu dois longas-metragens. Apesar da falta de originalidade, funciona muito bem nesse tipo de filme, ainda mais quando acrescido de uma irreverência e de um senso de movimento ausente no ex-marido de Madonna. De todo modo, é a aposta corajosa de apostar na ultra-violência com molho pop e humor negro ajuda o espectador a perdoar qualquer pecadilho menor e embarcar sem medo na diversão proposta pelo filme.

A trama gira em torno de Dave (Aaron Johnson), adolescente nerd que, cansado de ver a violência à sua volta ser encarada como normal por uma sociedade que nada faz para combatê-la, decide comprar uma roupa de herói – um traje grotesco que poderia perfeitamente ser usado pela Seleção Brasileira dos ninjas, se tal agremiação existisse – e sair pelas ruas combatendo o crime. A coisa não dá muito certo, mas o coloca nas televisões e o põe em contato com um ex-policial (Nicolas Cage) que treina sua filha de 11 anos (Chloe Moretz) para combater o barão das drogas da cidade (Mark Strong). A cena em que Cage treina tiro ao alvo na própria filha, usando colete à prova de balas, é uma das melhores do longa-metragem.

Em sua sátira deslavada ao universo dos super-heróis, “Kick-Ass” enfileira uma série de momentos divertidos – a seqüência de abertura é hilariante – e constrói uma espécie de fábula pop e irreverente para o século XXI. Vale mencionar que Vaughn optou por não fazer um filme para crianças, e transforma as cenas de ação num banho de sangue que, promovido por uma criança de 11 anos vestida com um pavoroso uniforme rosa-choque, provoca gargalhadas em qualquer ser vivo com senso de humor. Aliás, o contraste entre o humor negro e a fotografia límpida, clara e multicolorida funciona que é uma beleza. “Kick-Ass” tem lugar garantido em qualquer lista dos melhores de 2010.

– Kick-Ass – Quebrando Tudo (EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Nicolas Cage, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse
Duração: 117 minutos

12 comentários em “Kick-Ass – Quebrando Tudo

  1. Eu curto muito as suas críticas, parabéns. Sem falar que temos gostos bem parecidos (me refiro ao amor que sentimos pelo cinema do mestre Sergio Leone e do já consagrado Quentin Tarantino), mas não achei o filme Kick Ass lá essas coisas. Enfim, isso é subjetivo. Mas gostaria mesmo de ler uma crítica sua sobre o sensacional O Profeta, que para mim até então, é o melhor filme do ano. E aí, quando veremos uma crítica sua sobre O Profeta?

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  2. Já vi o filme e gostei muito, Pedro. Falta tempo e oportunidade para escrever. Tenho tentado aproveitar cada minuto para trabalhar na tese de doutorado, que está na reta final. Mas vou tentar escrever ainda em junho. Obrigado pelos elogios e um abraço!

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  3. Não gostei muito de Kick-Ass. Divertido e tal, mas não teve o impacto prometido. Eu queria ver um filme só da Hit-Girl, que rouba todas as cenas em que aparece. Aliás, ela e o Big Daddy, com um Nicolas Cage que em poucos minutos fez muito mais que em grande parte de seus últimos filmes.

    Just for fun.

    Forte abraço, Rodrigo.

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  4. Vi ontem. Adorei. Filmaço, sem medo de censura, honesto. Muito divertido mesmo.

    Aliás, estou adorando ver que hoje em dia filmes baseados em HQs não precisam mais serem “pra crianças” como se HQ fosse um gênero pra um segmento específico e não uma linguagem em si.

    Nota 10 pra Kick-Ass e pra Hit Girl.

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  5. Que filme ousado muito bom, não chegou ao grau de violência da hq mas ficou divertido.
    E a HitGirl… me apaixonei, essa garota tem futuro, muito carismática.

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  6. Rodrigo, hoje, por acaso, me deparei com a informação que queria: a familiaridade com a Chloe Moretz está explicada! Ela era a garotinha que aconselhava Tom, o protagonista de “500 dias com ela”. E, igual a vários outros comentários, eu também fiquei impressionada com sua atuação. Garota de futuro ! Grande abraço!

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  7. Filme just for fun, não conhecia o quadrinho e quando falaram de super-heróis que não são super, logo lembrei de Watchmen, longe disso a única coisa que lembra Watchmen é a fantasia do Big Daddy que é muito parecida com a do Coruja, que por sinal é com certeza o melhor do filme, aquela sequência dele no armazém é fantástica. A Hit Girl é a outra parte que movimenta o filme, mas não cheguei a rir dela. Tirando isso é o que eu costumo chamar aqui com meus amigos “um tipico filme da Marvel” só que hardcore: blockbuster, feito para vender muito, diversão por 2 horas de ação e pronto, só que dessa vez com muito mais sangue que qualquer outro filme marvel nada mais que isso. Esse filme me lembrou na vdd o Super-Herói mais pro lado trash principalmente quando o Kick Ass chega de Jet Pack e o Mark Strong que morre num tiro de bazuca que o carrega um kilometro pra depois explodir. As citações foram junto com o Nicolas Cage o melhor ponto do filme principalmente o “Say hello to my little friend”. Nada de mais, 3 estrelas.

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