Como Treinar o Seu Dragão

[rating: 3]

Diretores da animação “Lilo e Stich” (2002), Chris Sanders e Dean DeBlois viveram uma situação desagradável quatro anos mais tarde. Enquanto trabalhavam febrilmente na produção de seu longa-metragem seguinte, os dois receberam a notícia de que a Disney estava comprando a Pixar, cujo chefe criativo passaria a chefiar o departamento de animação da empresa. Pois bem: a primeira tarefa do gênio John Lasseter no novo cargo foi supervisionar a produção de Sanders e DeBlois, que versava sobre um cão que cruzava os Estados Unidos em busca de sua dona. Acontece que Lasseter não gostou do rumo que o filme tomava. Ele pediu mudanças substanciais no roteiro, algo que os dois diretores se recusaram a fazer. Eles acabaram demitidos (o roteiro modificado se tornaria o agradável “Bolt”, de 2008).

O imbróglio criativo, contudo, terminou de forma positiva. Afinal, acabou gerando dois bons frutos, já que a dupla de diretores se retirou da Disney e conseguiu abrigo na DreamWorks, onde transformou um livro infantil de sucesso, publicado em 2003, em uma animação divertida: “Como Treinar Seu Dragão” (How to Train your Dragon, EUA, 2010). Realizada com a nova tecnologia de 3D digital, a aventura segue uma longa linhagem de filmes sobre grandes amizades entre crianças e animais e passeia com desenvoltura e irreverência pela cultura viking, deixando no chinelo produções como “A Lenda de Beowulf” (2007).

A história gira em torno de Soluço, menino magricela de 12 anos que vive numa aldeia viking encravada no topo de uma ilha montanhosa. A região é assolada por dragões voadores que destroem constantemente a cidade, de forma que o líder da tribo – que é também o pai de Soluço – vive constantemente em busca do ninho das criaturas aladas, para que possa ter a chance de exterminá-las em definitivo. O maior problema da criança, no entanto, não é o perigo oferecido pelos dragões, mas sim o desprezo com que é tratado pelos demais moradores da vila, incluindo sua própria família. Magro e desajeitado, Soluço não tem pinta de viking. Ninguém sabe, mas sem querer ele vai acabar revolucionando os métodos de lidar com as agressivas bestas que cospem fogo.

Claro, é um enredo gasto. Basta pensar em “Corcel Negro” (1979), que documentava a relação de amizade entre uma criança e um cavalo selvagem, ou em todos os contos Disney em que as princesas, sempre solitárias, invariavelmente encontram companhia no mundo irracional dos animais selvagens. No fundo, porém, “Como Treinar Seu Dragão” é uma fábula sobre as diferenças, e que acaba se revelando eficiente porque se afasta um pouco da tradicional abordagem familiar e adocicada da Disney para abraçar a postura mais irreverente, até um pouco cínica, que as animações da Dreamworks têm trilhado.

Ademais, do ponto de vista narrativo, o filme é bem narrado. Os cineastas gastam a maior parte do segundo ato elaborando cuidadosamente a evolução da relação entre Soluço e o dragão Banguela – uma relação que vai da desconfiança à empatia, da curiosidade ao afeto –, que soa bastante crível. As longas seqüências de vôos dos dragões se aproveitam da tecnologia de ponta para usar uma câmera móvel quase todo o tempo, colocando a platéia em cima das feras aladas e criando um efeito de montanha-russa bastante bem-vindo para o público infantil. Para completar, o design das diferentes espécies de dragão consegue ser criativo, sem dar às criaturas um aspecto ameaçador em excesso, o que poderia amedrontar as crianças menores.

O DVD, com imagem correta (wide anamórfica) e som OK (Dolby Digital 5.1), tem cenas excluídas.

– Como Treinar o Seu Dragão (How to Train your Dragon, EUA, 2010)
Direção: Chris Sanders e Dean DeBlois
Animação
Duração: 92 minutos

5 comentários em “Como Treinar o Seu Dragão

  1. Eu adorei este filme. Aliás, nem esperava muita coisa dele, mas o filme tem uma certa qualidade. A história cativa e é bom ver um filme de animação da Dreamworks sendo estrelado por alguém de “carne e osso”, ao invés das criaturazinhas Kung Fu Panda e Shrek! 🙂

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  2. Assisti ao filme com meu filho de 6 anos e ambos gostamos. A história tem algumas falhas no roteiro, a beleza gráfica e o carisma de Soluço, aliadas a boas cenas de ação resultam em um filme interessante. Um dos furos principais do roteiro (não exatamente furo, mas faltou trabalhar melhor a situação) diz respeito à velocidade com que os dragões aprisionados, caçados há apenas alguns minutos, se tornam melhores amigos dos humanos, a ponto de acompanhá-los e ajudá-los para enfrentar o grande dragão no final. Em contraste com a bela maneira como Soluço conquistou lentamente a amizade do dragão, essa repentina “conversão” dos dragões soou mais do que artificial.
    Nada que tire, todavia, o brilho deste notável filme.

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  3. Me surpreendeu o filme, com um final ousado especialmente para um filme infantil.
    Também senti essa falha no roteiro citada por Leonardo, no mais o filme é bom mesmo.

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  4. Achei a qualidade da animação excelente, muito boa mesmo, superior a Shrek 2 e 3.

    O desenvolvimento da história é muito legal, acabamos por criar empatia com os personagens. O design do Banguela (esse dragão preto “assustador”) é bem divertido, apesar de simples.

    É um filme que agrada aos adultos também, embora me pareça que, ao chegar perto da batalha final, os criadores evitaram tentar algo mais sério, caindo no final feliz comum – o que é até compreensível, já que as crianças são o público alvo. Apesar disso eles deram uma palinha do que poderia ter sido, arrancando uma perna do personagem principal.

    Gostei muito dessa animação. Eu daria 4 estrelas.

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