Pequeno Nicolau, O

[rating: 3.5]

Embora esteja longe de possuir no Brasil a popularidade desfrutada por outros personagens parecidos e oriundos de cartuns, como a argentina Mafalda, o Nicolau criado por René Goscinny e desenhado por Jean-Jacques Sempé fez parte da infância de muita gente, entre as décadas de 1960 e 1980. Nesse sentido, é difícil entender porque demorou tanto tempo para surgir a primeira adaptação cinematográfica protagonizada pelo personagem. “O Pequeno Nicolau” (Le Petit Nicolas, França, 2009) dirige um carinhoso e nostálgico olhar adulto à infância nos anos 1950, quando as crianças saiam para brincar na rua em qualquer cidade grande, e a vida parecia passar num ritmo mais lento.

“O Pequeno Nicolau” nasceu de um projeto do cineasta Laurent Tirard, talvez mais conhecido no Brasil pelas entrevistas realizadas com 20 cineastas famosos e transformadas no livro “Grandes Diretores de Cinema”, lançado por aqui pela editora Nova Fronteira. Tirard, que também co-escreveu o roteiro, entrega-se à adaptação com o apetite de uma criança leitora dos livros do personagem, algo que sua faixa etária confirma. Ele faz um trabalho cuidadoso para apresentar o personagem a uma platéia que pouco o conhece e vive numa realidade social bem diferente. Isso justifica o olhar adulto e nostálgico com que Tirard constrói o universo multicolorido e afável de Nicolau (Maxime Godart), menino absolutamente normal, na faixa dos oito anos, que mora numa Paris bucólica e lúdica, inspirada pelos trabalhos de Jacques Tati e filtrada através das cores quentes de parque de diversões no melhor estilo “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”.

Nicolau talvez seja o mais normal de seus colegas de escola. Tirard usa caracterização de personagens e figurino para dar a cada uma das crianças uma personalidade distinta e facilmente reconhecível: há um que come demais, um inteligente mas sem iniciativa, o garotinho de raciocínio lento (Clotário, provavelmente o mais carismático de todos, interpretado com graça por Victor Charles), e assim por diante. Da forma como Nicolau vê a turma, ele mesmo é o único que não tem problema algum na vida. Estudar, brincar, comer e dormir – essa é a rotina dele. Isso, claro, até ele começar a desconfiar que seus pais (Kad Merard e Valérie Lemercier) planejam lhe dar um irmão, algo que – Nicolau imagina – vai tirar sua condição de centro das atenções daquele lar. Esse é o começo de uma série de esquetes cômicos protagonizados por Nicolau e as outras crianças, que põem em prática um plano para se livrar do futuro bebê indesejável.

Não seria correto classificar “O Pequeno Nicolau” como um filme infantil, embora o longa-metragem simpático e divertido de Laurent Tirard possa perfeitamente ser visto e compreendido por crianças pequenas. O grande truque do diretor e roteirista foi fazer um filme infantil com olhar de adulto. Um adulto que sente-se confortável entre crianças e alimenta saudades da época em que foi uma, mas ainda assim adulto. Afinal de contas, a maior parte do humor do filme decorre justamente da tensão cômica que nasce da má interpretação que Nicolau dá a conversas entre adultos; e Tirard só tem a oportunidade de explorar dramaturgicamente essa tensão ao justapor o olhar de adulto às traquinagens da meninada. Observe a cena em que Nicolau e os amigos tentam limpar a casa para agradar a mãe, ou o aloprado passeio que a família faz a um bosque nas redondezas; são esquetes cômicos compreensíveis apenas por aqueles espectadores cujo olhar adulto permite operar um distanciamento da realidade infantil, efetuado em chave cômica.

Claro que isso não é nenhum demérito, muito pelo contrário. De fato, “O Pequeno Nicolau” aposta num tipo de humor ingênuo, repleto de gags construídas com carinho e valorizadas pelo excelente elenco adulto. O filme não tem o cinismo (oni)presente na grande maioria das comédias infanto-juvenis contemporâneas. O contexto de produção de “O Pequeno Nicolau” o transforma em produto perfeito para aqueles cinéfilos que andam de saco cheio das piadas de cunho sexual ou escatológico que predominam no cenário do humor cinematográfico atual.

– O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, França, 2009)
Direção: Laurent Tirard
Elenco: Maxime Godart, Victor Charles, Kad Merad, Valérie Lemercier
Duração: 91 minutos

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10 comentários em “Pequeno Nicolau, O

  1. É mesmo um filme diferente, leve, ou melhor, de humor ingênuo como vc disse.
    Rodrigo vc já viu o filme “Nosso Lar”? Se viu adianta um pouquinho do que vc achou . Se não, o que vc acha dessa atual onda de títulos de cunho espírita que apareceram no cinema e na tv brasileira de uns tempos pra cá?
    Valeu

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  2. Não vi “Nosso Lar”, nem “Chico Xavier”, nem “Bezerra de Menezes”. Nem pretendo ver. Não gosto de panfletarismo de nenhum tipo no cinema, e os filmes citados em sua maioria tentam se aproveitar da fé dos outros para faturar, além de serem narrativa e tecnicamente ruins. Dito isso, admiro o espiritismo. Não sou assíduo em nenhuma religião, mas nos últimos 10 anos visitei inúmeras vezes centros espíritas. Toda a família de minha ex-mulher é praticante.

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  3. O Pequeno Nicolau é tudo isso que você descreveu, Rodrigo: humor ingênuo, simples, sem qualquer tipo de apelação (sexual ou não). Um filme infantil com olhar adulto. Apesar de vários clichês (como o abuso de desmaios de alguns personagens), o filme é muito agradável e engraçado, e não entendo o porquê de ser exibido apenas numa sala de cinema (o Rosa e silva).

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  4. Marcos, “O Pequeno Nicolau” também foi exibido no Festival Varilux desse ano no Cinema da Fundação, pena que tão poucas pessoas frequentem esse cinema! Voto por “O Pequeno Nicolau” nos Multiplex, onde seria mais difundido.

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  5. caro rodrigo

    Minha intençao nao é falar sobre o filme porque ainda nao vi. Ultimamente vi e revi poucos filmes entre eles Mademoiselle Chambon, Pelos Meus Olhos, Corrida Contra o Destino, Classe Operaria Vai Ao Paraiso e Investigaçao Sobre Um Cidadao Acima De Qualquer Suspeita. O motivo é que resolvi dar uma de roterista e esse trabalho tem me consumido muito tempo. Mas tenho acessado o teu cine reporter sempre. O que quero no momento é te desejar um feliz papai noel e boas festa de final de ano junto com tua familia e te parabenizar pelas tuas criticas sobre os filmes com esse olhar e forma diferente que só tu tens.
    Um Abraçao
    Sander Hahn
    Criciuma SC 20/12/2010

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  6. Interessante a sua observação deste ser um filme infantil com olhar de adulto. Eu adorei toda a perspectiva vir do olhar infantil, curiosamente. De eles não se basearem num sentido figurado, de eles levarem tudo do ponto de vista literal. Achei isso muito legal. Fora que todas as crianças são notavelmente bons atores. Não sei se eles são profissionais, mas me chamou atenção a naturalidade deles. O filme é muito leve, me fez rir bastante e foi uma agradável surpresa. Na minha sessão, tinham muitas crianças e tanto elas quanto os adultos riram MUITO! 🙂

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  7. Kamila, mas na medida em que as crianças olham tudo através de seu sentido literal, a instância narrativa (o narrador, no caso subjetivo) impõe um distanciamento à trama, que é justamente a origem do humor. Você e a platéia só riram muito por causa desse olhar adulto: vocês reconheceram o olhar infantil de Nicolau e seus amigos, mas à distância, sem participar diretamente dele.

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  8. Caro Rodrigo
    Gostaria de comentários sobre apelação sexual infantil nos desenhos.Estou fazendo um trabalho para faculdade e colendo material nesse tema se puder me ajudar agradeço,pois reparei que vc escreve muito bem.OBRIGADO.

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