Karatê Kid

[rating: 2.5]

A primeira informação que chama a atenção no remake de “Karatê Kid” (EUA, 2010) é o tempo de duração: praticamente duas horas e meia, uma metragem fora dos padrões, tradicionalmente reservada a épicos históricos, filmes dramáticos que lidam com temas “sérios” ou longas com múltiplos personagens que exigem tempo para serem desenvolvidos. Obviamente, “Karatê Kid” está longe dessas três categorias, consistindo basicamente de um filme de amadurecimento cujo clímax envolve uma espécie de variação da história bílica de Davi e Golias, disparando uma catarse coletiva na platéia mais jovem.

Há algo de errado com os 140 minutos? Tecnicamente, é claro que não. Contudo, há uma regra tácita do cinema de entretenimento que é claramente deixada de lado aqui: a duração de um filme deve ser proporcional à importância e/ou complexidade de sua trama. Todo cineasta iniciante aprende, ainda nos primeiros passos da carreira, que economia é fundamental nessa profissão. Quando não há nada de interessante (para alguém com mais de 18 anos) ou complexo acontecendo na tela, é melhor cortar a cena. Essa lição, infelizmente, não foi aprendida pelo diretor e pela equipe criativa desse filme.

“Karatê Kid” tem um fiapo de enredo – garoto americano vivendo na China se apaixona por menina local e precisa enfrentar os valentões locais num torneio de kung fu, após ser treinado pelo zelador do prédio onde mora, para ganhar respeito – e personagens tão arquetípicos que arranham os clichês: o herói (Jaden Smith) é um rapazinho ingênuo de coração bom; o mentor (Jackie Chan), um homem respeitável que arrasta na lama após uma tragédia pessoal; o interesse romântico (Wen Wen Han) não consegue enfrentar o rigor de uma educação formal; o vilão (Zhenwei Wang) é um jovem agressivo e arrogante; e assim por diante. Nada de novo, como se vê.

De certa forma, é no mínimo irônico que na refilmagem de um dos filmes adolescentes mais populares do anos 1980 os protagonistas lutem não o esporte explicitado no título, mas sim kung fu, que é muito mais popular nos Estados Unidos do que o caratê (a favor dos produtores, vale informar que o título do longa-metragem na Ásia foi o equivalente ao português “Sonho do Kung Fu”). Esse é um dos aspectos do filme que o diferenciam do original, além do elenco multiracial – na versão de 2010, afinal, o protagonista é negro, algo que não acontecia na obra de 1984.

Aliás, os atores consistem num aspecto fundamental do filme, já que todo o projeto foi organizado pelo ator e astro Will Smith, que assina como produtor, com um objetivo claro: transformar seu filho – co-protagonista ao lado do pai do dramalhão “À Procura da Felicidade” (2006) – numa estrela de Hollywood. Ao que parece, o objetivo foi plenamente alcançado, já que “Karatê Kid” ultrapassou a bilheteria de US$ 200 milhões na terra do Tio Sam, apesar de ter custado cinco vezes menos do que isso. De qualquer forma, todo o elenco (inclusive o pirralha Smith) está bem, dentro dos limites que a profissão de ator oferece em filmes do gênero.

De resto, o filme não compromete. Não há grandes exageros nas seqüências de luta, coreografadas corretamente pelo diretor norueguês Harald Zwart (“Que Mulher é Essa?”, de 2001); as filmagens em Pequim fornecem o exotismo necessário nos cenários e figurinos para a história funcionar (nesse departamento, desconte as manjadíssimas tomadas aéreas dos personagens visitando pontos turísticos da China, inclusive a Grande Muralha); e Jackie Chan injeta carisma num papel pequeno e murcho. Como diversão para adolescentes, é passável. Pelo menos para aqueles que conseguirem ficar sentados numa poltrona por duas horas e meia.

– Karatê Kid (EUA, 2010)
Direção: Harald Zwart
Elenco: Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson, Wen Wen Han
Duração: 140 minutos

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17 comentários em “Karatê Kid

  1. Bom eu não nem assisti esse filme…mas gostaria de saber se posso sugerir um filme?Vc entende muito mais de filmes tecnicamente falando do que eu e explica de uma forma q eu consigo entender gosto muito de ler suas resenhas.A sugestão é “O Profissional”, não sei muito bem o nome do ator mas gosto muito dele queria saber o que acha desse filme.Nem sei se posso fazer isso mas se um dia puder escrever a respeito desse filme eu agradeceria muito!!!!!!!!!!!

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  2. Amanda,
    Tenho quase certeza que o Rodrigo vai pedir a vc para comentar apenas sobre “Karatê Kid”. Quanto ao profissional é um belo filme com o Jean Reno e Natalie Portman não é isso? Acho que a direção é do Luc Besson. Quanto a “Karatê Kid” estou louco pra ver, já que a crítica do Rodrigo diz que o filme não ofende e se compromete a ser o que ele se compromete a ser

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  3. Como não há um fórum no Cine Repórter, Danilo, não tem problema de perguntar sobre um filme na crítica de outro. Sempre tento responder. E nesse caso, Amanda, sua sugestão vai pra lista de filmes que preciso ver (ainda não vi esse filme, realmente) pra poder comentar. Abraços.

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  4. O Profissional é um filme excelente, maravilhoso mesmo. Um dos melhores filmes de ação já feitos, tem uma atuação inesquecível do Gary Oldman, preconizando todos os vilões psicopatas modernos.
    Jáo “Karate Kid” aqui, eu como fã do blog posso dizer que fiquei surpreso com a tua boa vontade com ele. Sei que a tua intenção é sempre ser justo e imparcial, mas num mundo onde A Origem ganha 4 estrelas, considerei a cotação aqui no mínimo exagerada. Nada como ver um filme de excelente humor, né?
    Parabéns pelo site, o melhor de críticas na minha opinião. Quando quiser sentir vergonha alheia, dá uma chegada no meu! Seria uma honra, mas lá não temos críticas, só opiniões apaixonadas. Grande abraço, sucesso;

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  5. Aparício, agradeço pelos elogios. Vou passar no seu site, sim.

    Não acho que tive má vontade com “A Origem” (quatro estrelas!) e nem boa vontade com esse aqui (duas e meia!). Tampouco vejo muito sentido comparar dois filmes tão distintos, já que o primeiro é o supra-sumo da ambição blockbuster (o que carrega o filme para baixo, na minha opinião) e “Karatê Kid” não quer ser mais do que diversão sem compromisso (o que carrega o filme para cima). Comparações são sempre armadilhas perigosas! Abraços.

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  6. Grande Rodrigo:

    Cara, em primeiro lugar obrigado por gastar um pouco do teu tempo me respondendo.
    Não acho que tiveste má vontade com nada, só comentei por uma questão de escalonamento. Porém, já que tocaste no assunto, levanto a questão: seria essa ambição vista no filme do Nolan proveniente do filme em sí, ou foi posta no filme?
    Porque considero os blockbusters parecidos sim, quanto a sua intenção, ganhar dinheiro e oferecer diversão por algumas horas. A diferença é que o Nolan faz isso de uma forma extraordinária, enquanto no cinema do lado, cobrando o mesmo ingresso, temos uma porcaria que nem esse “Karate Kid”, que não tem personalidade nem para escolher outro nome, na tentativa de tirar o dinheiro dos pobres incautos que vão achando se tratar de uma homenagem ao filme que amaram na infância.
    A pretensão é a mesma, só que o Nolan faz valer o ingresso. Notas são questões pessoais, mas esses pré-conceitos são dados por quem afinal? Pelo clima do filme? Então, um filme ser mal feito, significa que é sem compromisso? Só se for com a qualidade.
    Curto muito o teu trabalho, parabéns pelo site. Ficarei honrado com a tua visita, apesar de um tanto envergonhado. Grande abraço;

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  7. Veja, debates sobre questões de crítica de cinema são sempre subjetivos. Não há como decretar que alguém está certo e o outro, errado. Pode-se apenas argumentar com lucidez. Partindo desse princípio, penso que os filmes de Christopher Nolan (inclusive os dois “Batman”) são blockbuster ambiciosos, tentativas de abordar temas “sérios” a partir de filmes que flertam com o entretenimento pura e simples (para mais sobre isso, leia a crítica de Inácio Araújo a “A Origem”; acho que ele acertou em cheio). O que você considera “extraordinária” é, claro, uma opinião subjetiva. De minha parte, acho o filme engenhoso, mais inteligente que a média, mas extraordinário, não. Do mesmo jeito, é possível argumentar que o fato de “Karatê Kid” explicitar seu caráter de remake é um ato de honestidade, já que mudar o nome apenas mascararia esse fato (aí sim, desonestidade). Se a pretensão é a mesma cabe a cada um julgar, mas me parece que não, nem um pouco. Nolan QUER ser visto como autor; o diretor do outro filme (nem lembro o nome dele) não tem essa pretensão. Fez um filme infanto-juvenil, enquanto “A Origem” quer chegar no público adulto. Dito isso, quero dizer que gosto de “A Origem” (embora sem achar de maneira alguma que esteja à altura daquilo que querem seus defensores) e não pretendo rever nunca mais o “Karatê Kid” (no máximo, acompanhando minhas filhas). Abraços.

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  8. Rodrigo:
    Pois é, pode até realmente ser um ato de honestidade, se partirmos do princípio que ele está aí, em cartaz mesmo, e emula algo da fórmula original, que já tinha sido emulada de outros filmes. Ok, porém, o original não se chamou de “Rocky Adolescente” pra fazer a sua reformulação da idéia, tampouco gerar seu marketing.
    Já remakes como esse são levianos desde o seu princípio teórico (que em dias de DVDs é necessário trazer de volta determinados filmes já esquecidos…), culminando na questão de que são desprentensiosos pra justificar sua ruindade: ah, o diretor não quis fazer nada sério mesmo, nossos adolescentes são idiotas, tudo ok. Eu acho que não.
    O que o Nolan faz é partir dos mesmos princípios, e não se entregar a preguiça. Se ele quer ser autor, é só pensar um pouco pra perceber que ele é autor. Ele escreve e realiza tudo nos seus trabalhos, desde o primeirão em p&b Following. E esteve sempre bem acima da média de hoje, como é fácil conferir olhando a listagem de filmes em cartaz.
    Porém, não sou advogado do cara, gosto da sua obra, só isso. Assim como gosto de vários outros diretores, que vão tendo que se equilibrar nessa linha tenue entre o que é considerado pretensão, subjetivamente. Todo mundo tem o direito de achar o que quiser do que assiste, lógico, e isso deve ser respeitado. Mas essa pseudo-obrigação da crítica de em determinados momentos TER que se posicionar a favor ou contra determinados realizadores, devido a um hype que não é obra deles, e sim de quem gosta ou odeia o seu trabalho, é engraçado.
    Eu curto debates, acho que a gente nunca termina um da forma como começou. Enquanto te leio, reavalio as minhas opiniões, em busca do melhor argumento e até pelo exagero emocional, que nos domina normalmente, principalmente quando se trata de arte. Se blockbuster tem que ser um filme bobo, discordo de tí. Se filme pra adulto não pode ser acessível ou fazer sucesso, também discordo. A impressão que dá é que se A Origem passasse numa sessão só a meia-noite, em um cinema num bairro menos favorecido, todos ficariam maravilhados e seria um grande filme. Como eu vi no shopping, não pode ser tão bom assim…
    Opto por não ter maniqueísmos. Essa pretensão decantada não é resultado nem justificativa pra abonar ou desabonar alguma obra. Principalmente quando alguém se destaca no meio da pasteurização. O Kung Fu Kid é ruim em qualquer lugar, mas gosto é gosto. Se Hawks ou Hitchcock estivessem vivos, claro que seus filmes teriam hype também, e seria desmérito deles? Só quem é bom ou muito ruim chama essa atenção.
    Grande abraço, meu velho, valeu a atenção;

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  9. Eu discordo de você, e achei muito melhor que o original, deu até ao jackie chan uma oportunidade de atuar com emoção e não pular de um lado pro outro sem sentido.Quanto a promoção do filho do will smith e dai? isso e normal já, e o garoto até atua bem.

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  10. O remake mantém a essência da obra original, com aquelas modificações que são necessárias para fazer a gente crer que estamos diante de uma visão diferente da original. Eu acho que o remake acaba valendo pelo carisma do Jaden Smith e pela ótima performance do Jackie Chan. Acho que ele foi a alma e o coração desse longa e está interpretando o melhor personagem de sua carreira, aqui.

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  11. Eu só digo, Kamila e Iago, que prefiro mil vezes o Jackie Chan “pular de um lado pro outro” do que tentando atuar. Os filmes asiáticos dele são ótimos. Como ator, ele é um ótimo lutador. Tem algum jeito pra comédia, mas num drama… bom, pelo menos não compromete.

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  12. Eu achei que o remake superou o original. Pelo menos o roteiro deu coerência e profundidade a uma história [ no original] pouco crível. Achei as atuações do Jaden e do Chan maravilhosas, emociona e faz rir na medida certa. Adorei o filme.

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  13. Descobri recentemente o CINE REPORTER e já virou meu favorito em termos de crítica de cinema. E com o KARATÊ KID você acertou de novo. Duas horas e meia e o treinamento ainda parece resumido, comparado ao original: algum tempo foi disperdiçado no lugar errado. E apesar do esforço de Jaden “mini-Will” Smith e Jackie Chan, não deu pra não sentir falta do Sr. Myiagi de Pat Morita. Claro que a nova geração jamais terá ideia da febre que foi o filme de 1984, mesmo com suas lutas ingênuas, mas pra mim, que fui testemunha ocular, vejo este como mais uma prova da crise criativa em Hollywood.

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  14. Discordo totalmente desta crítica negativa que fez ao filme. Respeito o fato de você achar que o filme é longo demais em relação ao seu tema, que Jackie Chan não é um bom ator ou que o filme foi feito exclusivamente para promover Jaden Smith, mas acredito que você não soube visualizar o propósito da obra que é divertir um público mais jovem além de vender, é claro. E conseguiu.

    Particularmente vi muitas coisas legais. O filme sabe trabalhar a emoção no telespectador com trilhas sonoras bem bacanas, e também achei excelente a atuação do “badboy” chinês com expressões más muito fortes, lembrando a cara que Bruce Lee fazia. Jackei Chan para você, que deve se deliciar com atuações de Henry Fonda, Bronson ou Brando, pode ser ruim, mas para o fim de semana de um jovem que não está preocupado com estas peculiariades tão mesquinhas e que procura rir e se emocionar é excelente.

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