Homens que Não Amavam as Mulheres, Os

[rating: 4]

Uma tradição da literatura policial popular é o uso da estrutura narrativa como uma maneira de investigar aspectos sombrios da condição humana e/ou da vida em sociedade. Escritores pulp dos anos 1930, como Raymond Chandler e Ross Macdonald, aprenderam rapidamente que não dava para abordar esse tipo de assunto de forma direta sem afugentar a maior parte dos leitores. Esses escritores aprenderam a usar tramas de desaparecimentos e assassinatos misteriosos como desculpa para explorar, no subtexto e na atmosfera proto-existencialista, temas mais sérios e complexos. Foi dessa literatura que surgiu o film noir, um dos mais importantes subgêneros cinematográficos do cinema. “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (Män som hatar kvinnor, Suécia, 2009) é herdeiro dessa tradição.

A primeira parte de uma trilogia baseada na obra do romancista sueco Stieg Larsson recebeu, de críticos e fãs oriundos de todas as partes do mundo, comparações com a franquia “O Código Da Vinci”. Embora o paralelo seja compreensível, já que o filme nasceu de um fenômeno literário parecido (os livros de Larsson, ex-jornalista investigativo que morreu de enfarte antes de ver publicadas suas tentativas de ganhar algum dinheiro com literatura popular baseada em sua profissão anterior, foram os primeiros a superar a barreira de um milhão de exemplares vendidos para leitores digitais), a comparação é injusta. Aliás, injusta com os livros e com os filmes: Larsson é melhor escritor do que Dan Brown, e “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é adaptação cinematográfica bem mais consistente do que as aventuras detetivescas de Robert Langdon, levadas à tela grande por Ron Howard.

O grande trunfo do filme sueco, na verdade, é o retorno à já citada tradição da literatura policial popular de antigamente. A trama se sustenta sozinha e gera um bom thriller, mas o que realmente move o interesse da platéia são os personagens sólidos e fascinantes, que o veterano (e obscuro) diretor Niels Arden Oplev desenvolve sem pressa durante todo o primeiro ato. Ao final deste trecho do filme, quando a investigação empreendida pelo jornalista Mikael Blomkvist (uma clara versão ficcionalizada do próprio Stieg Larsson, interpretada por Michael Nykvist) e pela hacker Lisbeth Salander (Noomi Rapace) começa finalmente a engrenar, já estamos fisgados. Ambos são seres humanos interessantíssimos, e o mergulho que nos proporcionam nos meandros escuros da alma humana consiste no verdadeiro foco de interesse da história. Como nos melhores noirs das décadas de 1930 e 1940, damos um passeio no inferno sem ao menos perceber isso.

A estrutura narrativa gira em torno de um falso protagonista. Mikael acaba de ser condenado a três meses de cadeia por publicar uma reportagem desmascarando as práticas corruptas de um industrial sueco – uma reportagem cujo conteúdo ele não consegue provar. Antes de cumprir a pena, porém, Mikael recebe uma proposta insólita de trabalho: investigar o desaparecimento da sobrinha de um milionário recluso (Sven-Bertil Taube) que mora numa ilha. A moça sumiu quase 40 anos antes, e indícios levam o tio rico a crer que algum membro da própria família Vanger – uma das mais ricas e tradicionais da Suécia – foi responsável pelo crime.

Antes de contratar Mikael, o milionário tomou a precaução de investigá-lo, tarefa que foi conduzida por Lisbeth. Ela é a verdadeira protagonista do filme. Aos 24 anos, anti-social até a medula, com corpo frágil repleto de piercings e tatuagens, a moça tem aquela beleza exótica de pós-adolescente que tenta a todo custo se enfeiar para afastar outras pessoas e se isolar, curtindo as dores de alguma ferida na alma. Lisbeth invade o computador de Mikael, faz seu trabalho, e continua monitorando-o secretamente depois de concluir o serviço. O filme desenvolve com consistência esses dois personagens e trata de aproximá-los sem pressa, enquanto a investigação enreda as vidas pessoais de ambos em uma espiral de violência que inclui perversões sexuais, corrupção em larga escala e até mesmo neo-nazismo, oferecendo um panorama nada auspicioso da Europa do século XXI.

Embora a investigação realmente demore a engrenar, não dá para culpar o diretor Niels Arden Oplev por isso. Além de manter-se fiel à trama do romance, ele só o faz para dar tempo e espaço para os personagens de Lisbeth e Mikael se desenvolverem. As interpretações dos dois atores ajuda. Nykvist personifica um jornalista de meia-idade, estressado e sem vida pessoal, com naturalidade. E Noomi Rapace carrega o filme para outro patamar de excelência com uma magnífica caracterização da lacônica Salander, entregando uma das mais densas e interessantes interpretações femininas já vistas em um filme policial.

De resto, Oplev ganha pontos extras pela ótima escolha do elenco secundário (o advogado repugnante que monitora Salander é particularmente digno de menção). Mesmo filmando com muita rapidez e sem verbas largas para caprichar nos cenários, ele mantém corretamente o pulso acelerado do filme com uma combinação de planos fechados e simétricos (que valorizam os rostos dos atores) e cortes rápidos, sem abusar da ação física e da velocidade estroboscópica que caracteriza os thrillers norte-americanos. Em resumo, ótimo filme.

O DVD simples e sem extras tem o selo da Imagem Filmes e traz o filme com imagem cortada nas laterais (widescreen anamórfica na proporção 1.78:1, ao invés do formato original 2.35:1) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Män som hatar kvinnor, Suécia, 2009)
Direção: Niels Arden Oplev
Elenco: Noomi Rapace, Michael Nykvist, Peter Andersson, Sven-Bertil Taube
Duração: 152 minutos

20 comentários em “Homens que Não Amavam as Mulheres, Os

  1. Achei a adaptação uma exceção à regra de que “filmes não são tão bons quanto seus respectivos livros”. Queria muito ver tua opinião sobre esse filme.Valeu pela crítica!
    Obs: No começo estava receoso em relação ao remake americano, mas depois de ter visto a adaptação do segundo livro da trilogia fiquei decepcionado com o resultado. Talvez David Fincher resolva isso.

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  2. Tb fiquei com receio de um remake principalmnte pq de modo geral delegam esses trabalhos para pessoas nao muito competentes, ou q nao possuem a mesma paixao pelo projeto do q os realizadores originais…

    Mas ao saber q vai ser David Fincher e q pode haver um elenco de peso (Daniel Craig ja foi contratado; pessoalmente eu contrataria Ellen Page tb)… minhas preucupaçoes se dissiparam… espero um trablho ainda melhor do q o original…

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  3. Acho q o Fincher vai conseguir colocar um pouco de seu toque no filme… no minimo vai ter uma nova experiencia e acho q tem talento suficiente pra se dar bem….
    Não acho q va ser tao americanizada pq Fincher nao vai deixar e tem cacife suficiente pra exigir isso… inclusive ja disse q a censura vai ser de todo jeito de 18 anos, devido ao livro.
    Enfim, claro q eh tudo especulaçao e acima de tudo esperança 🙂

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  4. SPOILLER ALLERT!!!!
    Mesmo assim Thiago. Fico imaginando se a cena de estupro, que PRECISA ser forte, não será amenizada ou por exigência do estúdio ou devido a platéia não estar preparada. Só nos resta esperar e torcer.

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  5. Sim Eduardo, concordo contigo nesse aspecto…
    Eu ate acho q cenas como aquela nao precisam realmente serem transpostas para o cinema de forma literal ou muito real… seria gratuito demais e talvez faria as pessoas perderem o foco do filme (com certeza teria gente btando o filme pra baixo por causa da violencia)… Mas msm assim eh possivel chocar sem necessariamnete mostrar td, como por exemplo Violencia Gratuita. E acho q isso O Fincher consegue fazer… na verdade todas as minhas esperanças recaem sobre Fincher 🙂

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  6. Brilhante trilogia! A obra original sueca, pra mim, é irretocável!
    É uma pena que os americanos já anunciaram uma versão, assim como aconteceu com o também sueco e excelente “Deixa ela entrar”. E eu não estou animado com David Fincher na direção, o diretor é muito bom mas não gostei de seu último filme “O Curioso caso de Benjamin Button”.

    Rodrigo, quando vc irá colocar as críticas de “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”?

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  7. Vi ontem o filme, na sessão de arte do Tacaruna, e saí entusiasmadíssima ! Filmaço ! E visto no cinema, então, amplifica enormemente a força das imagens e o envolvimento do espectador. Que versão americana, que nada !!! O filme é impecável ! E olha que eu só tomei conhecimento dessa trilogia literária pouco antes de vê-lo. E apesar das qualidades de um David Fincher, tenho a impressão que o desassombro com que os europeus colocam o dedo na(s) ferida(s) de nossa condição humana “civilizada”, sem apelações nem concessões, não tem encontra paralelo no cinema americano. Ou em bem poucos criadores.

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  8. Rodrigo… um alerta IMPORTANTE:

    O formato de tela do DVD lançado pela “Imagem Filmes” está ERRADO! Segundo o IMDb o formato correto é 2.35:1 . O DVD brasileiro amputou as laterais do filme para enquadra-lo no formato padrão das novas TVs widescreen, 1.78:1 (aparentemente esse é o novo fullscreen).

    Confirmei isso ao alugar o filme numa locadora. Fica aqui o alerta para que cinéfilos NÃO GASTEM seu dinheiro comprando essa edição adulterada de uma obra que merece tratamento muito mais respeitoso. A “Imagem” não apenas mutilou o filme como mostrou-se desonesta ao esconder esse fato do consumidor, estampando um “widescreen anamórfico” na embalagem.

    De minha parte posso dizer que pra mim chega. Certas distribuidoras brasileiras simplesmente não merecem confiança, como é o caso da Imagem, da Europa, da CineMagia e congêneres. Nos últimos tempos, filmes excelentes como “O Lutador” e “Menina de Ouro” foram mutilados com essa nova forma de fullscreen disfarçado (no caso de “Menina de Ouro” até a edição especial dupla está errada). Em tempos em que é possível encontrar cópias de alta qualidade na internet não há justificativa para tolerar produtos tão mal acabados. A pirataria pode ser ilegal, mas ao menos respeita mais o cinéfilo do que essas distribuidoras.

    Perdoe o desabafo… mas é mesmo muito irritante.

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  9. Rodrigo, o DVD nacional para locação está sim com a imagem cortada nas laterais, mas houve também um pequeno ganho de imagem, para compensar, nas partes de cima e de baixo. Além disso, o DVD está acelerado em PAL.

    Abraço!

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  10. Gostei da trilogia, principalmente do primeiro filme. A propósito Rodrigo, você já viu a trilogia “Red Riding”? Se já tiver assistido publique as críticas pra gente.

    Abraço!

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  11. Pela primeira vez, vou fazer questão de escrever meu comentário antes de ler a crítica do Rodrigo. Eu realmente não gostei desse filme. Achei o roteiro muito previsível, as elipses muito estranhas, algumas cenas com menos de 10 segundos, totalmente dispensáveis, personagens mal trabalhados. Achei que o filme procurou soluções fáceis pro roteiro, incluindo narraçãozinha e flashback. Achei realmente um filme pouco inspirado. Sueco com cara de cinemão americano. Gostei, porém, da personagem da hacker gótica, cheia de conflitos. Perturbada. Acho que o filme conseguiu expor bem esse lado da trama. Mas não gostei de como foi desenvolvida a trama principal (o desaparecimento e os assassinatos). Fui aqui muito no gostei x não gostei, mas eu achei um filme tão fraco mesmo. Tão mal finalizado. Nem sei. Vou ler agora a crítica.

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  12. Olá Rodrigo.
    Em um dos comentários acima você argumentou que o nome de David Fincher não parece, na sua opinião, combinar com projeto da versão americana. Porém, a meu ver, o rumo da narração sugere temas já apresentados pelo diretor, principalmente em filmes como Seven e Zodíaco.
    A questão que me intriga na realidade é se ele terá condições de acrescentar algo novo a esta história, uma vez que estamos falando de um remake de uma adaptação literária.
    Seria precipitado considerar que talvez este se torne o seu trabalho mais comercial?
    Um abraço.

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  13. Jefferson, tem duas coisas que eu fico pensando a respeito dessa refilmagem. A primeira é que Fincher não faria de jeito nenhum o mesmo filme. Ele pode até fazer um filme ruim, mas repetir o que outro diretor fez, não. E a segunda coisa que me vem à cabeça é “Os Infiltrados”, do Scorsese. Talvez esse projeto vire para Fincher a mesma oportunidade.

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  14. -No dia 29/11/2010 comentei na crítica de A Rede Social:
    “E Rooney Mara ? Ela tem algum destaque no filme?
    Dá pra saber se Lisbeth Salander está em boas mãos?
    Pode parecer besteira, mas desde que soube que ela seria minha querida
    hacker anti-social na versão de Fincher ela é uma das minhas curiosidades nesse filme.”
    -E o Rodrigo Disse:
    “Confie em Fincher, amigo, ele não costuma errar na escalação de elencos.”

    E você estava certíssimo. Amei a versão de Fincher e Amei Rooney mara.

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