Estrada, A

[rating: 4.5]

É praticamente impossível falar sobre o introspectivo “A Estrada” (The Road, EUA, 2009) sem evocar “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008). As semelhanças são inúmeras: as duas histórias se passam num mundo pós-apocalíptico, documentam a jornada de alguns personagens numa busca desesperada por sobrevivência, são baseados em romances muito premiados e funcionam como parábolas, caráter explicitado pelo fato de os personagens jamais se referirem um ao outro por nomes próprios. No entanto, em tom e sensibilidade, esses dois longas-metragens não poderiam ser mais distintos – e, nesse caso, a vantagem fica com o diretor australiano John Hillcoat, que fez um filme bem mais delicado, sutil e evocativo do que Fernando Meirelles.

Na verdade, a produção de “A Estrada” foi acompanhada com interesse desde o lançamento original do romance de Cormac McCarthy, em 2006. O escritor talvez seja, neste início de século XXI, o mais destacado e talentoso romancista em ação nos Estados Unidos. Além disso, convém não esquecer que o brilhante “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007), dos irmãos Coen, também saiu da caneta de McCarthy. Some a tudo isso o excelente western “A Proposta” (2005), filme anterior de Hillcoat, que lidava com um universo igualmente sombrio e desolado com o mesmo realismo brutal, e você tem um longa-metragem potencialmente clássico.

Graças ao talento dos nomes envolvidos, à frente e atrás da tela, “A Estrada” não decepciona. Com trilha sonora esparsa, locações reais e pouquíssimos efeitos digitais, John Hillcoat desenvolve a parábola elaborada por McCarthy sem se afastar do texto original e acentuando aquilo que ele tem de melhor: a tenacidade do protagonista (chamado nos créditos de O Pai, e interpretado por Viggo Mortensen), seus esforços hercúleos para manter-se vivo e ao mesmo tempo proporcionar uma educação de base moral para o Filho (Kodi Smith-McPhee). Hillcoat faz tudo isso através de escolhas estilísticas corajosas. Ele usa os silêncios para demarcar a lenta agonia da dupla. Há poucos diálogos e quase nenhuma música.

O enredo se passa em algum ponto determinado do futuro, em que os Estados Unidos foram devastados por algum cataclisma de origem não-identificada. O evento decretou a extinção dos seres vivos, vegetais ou animais, além de escurecer o céu. Não existe mais civilização. Os poucos agrupamentos humanos que existem se dedicam a roubar, pilhar e matar uns aos outros para comer. O canibalismo é praticado em larga escala. Nesse cenário desolador,
Pai e Filho movem-se pelo país em direção ao sul, na esperança de que possam chegar a algum ponto em que a situação seja um pouco melhor. Tudo o que os move é a esperança (provavelmente, eles sabem, ilusória). Não há televisão nem rádio. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu com o planeta, ou se aquela situação é apenas localizada.

A trama, seca e sem enfeites, é narrada através de diálogos esparsos em que os personagens lidam com aspectos concretos de sua existência, como a busca por comida ou a importância dos sapatos para a sobrevivência, sem jamais procurar discutir tópicos metafísicos que poderiam advir da situação-limite. Nesse ponto, o filme funciona muito bem como parábola, deixando que cada espectador projete sobre a história suas próprias preocupações. Há quem diga que o tema central é a ausência de Deus. Outros preferem acreditar que seja a relação entre pai e filho. Pode ser um alerta ecológico, ou um estudo sobre a moral (pessoalmente, gosto muito da última interpretação). De fato, o filme funciona em todos esses níveis. Os melhores filmes, aqueles que não tentam ensinar lições, funcionam sempre dessa maneira, com diversas camadas sobrepostas.

Em termos puramente cinematográficos, “A Estrada” tem muitas qualidades. A encenação de John Hillcoat segue na direção contrária do cinema de massa contemporâneo, com planos longos e câmera afastada dos atores. A fotografia dessaturada do espanhol Javier Aguirresarobe (incrível a diferença entre este filme e “Vicky Cristina Barcelona”, que ele também fotografou, em termos de paleta de cores) dá uma boa medida da desolação daquele mundo frio e sem vida, sem que sejam necessários cenários gerados em computador. Além disso, Mortensen e o estreante Smit-McPhee atingem uma química muito boa; o primeiro demonstra, mais uma vez, ser um ator de nuances, quase minimalista, perfeito para uma história sóbria como essa.

Todo o filme é pontuado, também, por flashbacks coloridos e luminosos do passado de Pai e Filho, em que havia também uma Mãe (Charlize Theron), cuja ausência é ainda mais dolorosa quando sabemos que ela simplesmente abandonou o lar para a morte certa, por não suportar viver sem esperança (aliás, seria a esperança outro tema do filme?). Esses flashbacks, mostrados através de memórias ou sonhos dos protagonistas, destoam explicitamente do cenário sombrio do resto do filme, mas esta decisão não soa como estratégia comercial para tornar a história mais palatável, já que as memórias são a válvula de escape do Pai para aplacar o desespero. Assim, de episódio em episódio (todos são ótimos, com destaque para o encontro entre a família e o moribundo representado pelo veterano Robert Duvall), o filme ruma a um final alegórico em tom menor, e que pode ser interpretado como realidade ou delírio. Um final adequado para um belo filme.

O DVD simples e sem extras tem o selo da Paris Filmes e traz o filme com imagem correta (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– A Estrada (The Road, EUA, 2009)
Direção: John Hillcoat
Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall
Duração: 111 minutos

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20 comentários em “Estrada, A

  1. Magnífico filme. Algumas cenas, como a que Mortensen aponta a arma para a testa do próprio filho numa incontestável declaração de amor e afeto demonstra o apuro do roteiro. Por sinal, Mortensen demosntra um cuidado ímpar com sua carreira pós Senhor dos Anéis. Creio que o único filme mediano que ele topou fazer nos últimos anos foi o wester dirigido por Ed Harris, Appallosa. Ah, Rodrigo, na edição do texto você deixou passar a falta do “N” no quarto parágrafo, terceira linha: “Não existe mais civilização”.
    Abraço. João Paulo.

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  2. Um outro ponto que queria sua opinião refere-se à cena em que o Pai se aventura no mar. Você não a achou meio desnecessária e apenas como justificativa para o que acontece em terra durante sua ausência, já que a ação ocorrida na embarcação nem sequer é mostrada?

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  3. Adorei o filme, chorei muito em diversas cenas. A historia é simples, mas tao profunda. Viggo Mortensen está sempre bem, não conheço um só papel dele que tenha sido menos que bom. O menino é ótimo tb, da pra notar logo no inicio, na cena do rio. Robert Duvall está ótimo (e irreconhecivel) em mais uma atuação memorável. Enfim, filme mto bom!!

    Só discordo de vc, Rodrigo, na parte que vc diz que não dá pra saber se no final “estamos presenciando a realidade ou um delírio”. Pra ser sincera, nem pensei nessa segunda hipotese. Pra mim ficou mais que claro que o que aconteceu, aconteceu realmente, até pq, se fosse um sonho, o rapaz lá teria uma cara mais agradavel.. =D

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  4. Gosto muito dos seus textos; este foi o que faltava para me convencer a assistir a este filme no cinema.

    A propósito: parabéns por usar a palavra “encenação” numa crítica cinematográfica. Não agüento mais ler “mise-en-scène” a torto e a direito nos textos deste campo artístico (e cada vez com um sentido diferente).

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  5. Obrigado pelos elogios e pelas correções (foram feitas).

    Cristiano, eu até uso “mise-en-scéne” aqui e ali, mas sempre me sinto na obrigação de colocar um parêntese para explicar a expressão, já que leitor nenhum é obrigado a conhecê-la. Com “encenação” isso não é necessário. Então, parece bem melhor usar a última. 🙂

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  6. Rodrigo, desculpe, mas o meu comentário não é a respeito do filme “A Estrada” (que eu ainda não conferi, infelzmente).
    Sei que você é fã dos filmes do Sergio Leone, então, não sei se você ficou sabendo da morte do roteirista italiano, Furio Scarpelli que escreveu o seu amado “Três Homens em Conflito”, além de “Casanova 70” e “O Carteiro e o Poeta”, entre outros grandes filmes.
    Bem… só queria avisá-lo do falecimento dessa grande figura do meio cinematográfico.
    Parabéns pelo site que, como sempre, está ótimo, com suas ótimas análises sobre os mais variados filmes.
    Abraços e sucesso, hoje e sempre.

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  7. Obrigado pela informação, Marcelo. O Scarpelli foi chamado para”Três Homens em Conflito”, junto com o parceiro Agenore Incrocci, por causa do roteiro que os dois tinham escrito para Monicelli em “A Grande Guerra” (1959), filme que inspirou Leone. Mas, infelizmente, eles não se deram bem. Tenho uma entrevista com ele, onde diz que não conseguia abordar a guerra com o humor que Leone desejava. Eles acabaram largando o trabalho, apesar dos créditos. A maior parte do roteiro foi escrita mesmo por Luciano Vicenzoni. Abraços.

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  8. Rodrigo, mandou uma resenha a altura desse magnífico filme. Parabéns!

    Esse é o tipo de filme que mais me assusta: cenários pós-apocalípticos, onde os sobreviventes vão perdendo sua humanidade, pois precisam lutar pela sobrevivência. Acho que esse é um dos principais temas do filme: o Pai, para preservar a própria vida e a do Filho, aos poucos vai perdendo sua humanidade e deixando de se importar com os demais que encontra pelo caminho. Todos são vistos como ameaça. E o Filho, criança ainda inocente, no papel de não deixar que isso ocorra ao Pai. Após perseguirem o homem que os roubou na praia, o Filho faz ver ao Pai que deveriam sim ajudar o homem.

    De fato, Viggo Mortensen vai se firmando como um dos melhores atores de sua geração. Já havia atuado otimamente em Marcas da Violência e agora arrebenta em A Estrada. Rodrigo, este filme já passou pelos principais festivais?

    Abraço

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  9. Um belo filme, um dos melhores de 2009.Viggo Mortensen da um show de interpretação, Robert Duvall esta irreconhecível, só não direi que naquele cenário tenebroso e apocalíptico não tinha sequer a presença de Deus, porque o filho(Kod-Smit McPhee) parece ser o único ser vivo com sentimentos!
    Rodrigo, parabéns pelo texto, Show de Bola!

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  10. Ler a tua crítica após ter assistido “A Estrada” foi muito enriquecedor, Rodrigo. Demorei pra retirá-lo da prateleira da locadora, mas ontem foi o dia. E acertei ! Ainda que não seja o melhor filme para se assistir antes de dormir – porque dificilmente o sono será tranquilo -, adorei tomar conhecimento do sóbrio filme de Hillcoat. O que melhor definiu minha sensação durante todo o percurso foi, justamente, a realidade brutal.

    Foi uma surpresa passar os olhos aqui e me dar conta de que, realmente, não há nomes próprios no longa metragem, colocando-o na condição de parábola. Mas, admito, o fato de não haver explicações eloquentes e científicas para o que havia causado a devastação, gerou curiosidade em mim. O final alegórico pareceu mesmo um delírio do filho. E não seria a primeira vez, afinal ele avistou um menino correndo (na segunda metade do filme) que não existia.

    Bela crítica !

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  11. Vi pouca ou nenhuma semelhança com “Cegueira” nesse filme. São mundos e situações bem diferentes. Sobre [des]esperança, sonhos e família, e mesmo a linguagem do filme, entendo muito mais ligação com “Revolutionary Road”. A mãe que vai embora é a mesma. Ok, é só uma parte da história, mas é o que constrói o perfil afetivo dos dois personagens masculinos.

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  12. Rodrigo td bem?? [ATENCAO SPOILER]vc deve ter notado, em dois momentos ‘e mostrado alguns personagens com o polegar faltando, fiquei tentando achar uma explicacao pra isso ja que isso foi bem frisado tanto na mao do bandido negro como no do pai que encontra o garioto no final do filme, qual seria a relacao disso?

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  13. Acabei de assistir ao filme…fiquei com a mesma dúvida referente aos polegares e também referente as vozes que aparecem no final dos créditos, alguém mais viu isso??

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  14. Ola pessoal, assisti o filme ontem e em seguida ja comece a vasculhar atras de criticas, opinioes e explicaçoes, eu amei o filme, ver aquele garotinho carregando dentro dele ”o fogo” e procurando pelos ”caras bons” realmente para mim demostra a quetao da esperança numa reconstruçao da humanidade!! acho que isso se confirma com a chegada daquela familia no final, q os estava seguindo e com certeza observaram isso, para mim fica claro qdo ela diz : nao temos mais com o que nos preocupar!, é lindo, mas nao compreendi a conversa que ocorre depois que sobem as legendas de credito do filme, vcs nao assistiram ate ai???? me deixou realmente confusa, por que ninguem fala sobre esse trecho?? abraço a todos!!

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