Alice no País das Maravilhas

[rating: 2.5]

“Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, EUA/Reino Unido, 2010) contradiz seu próprio título ao se constituir mais como uma estranha espécie de continuação/seqüência do célebre romance de Lewis Carroll do que como a abordagem de Tim Burton para a clássica história publicada em 1865. No enredo do filme, a protagonista do romance – e de inúmeras versões para o cinema da trama, sendo a mais famosa o desenho animado feito pela Disney em 1951 – já alcançou a idade adulta, mas é levada por circunstâncias externas a visitar pela segunda vez o reino subterrâneo onde seis coisas impossíveis acontecem antes do café da manhã.

Bom, isso tudo em teoria. Porque, na prática, esse papo de aventuras revisitadas não passa de estratégia narrativa, adotada por Burton e pela roteirista Linda Woolverton, para ter a liberdade de se desviar livremente do enredo. E a verdade é que esse desvio põe o filme, ao contrário do que se imaginaria, num rumo muito mais convencional e comportado do que se esperaria de um filme de Tim Burton. A própria animação de 1951, apesar de feita com a censura livre em mente, era muito mais selvagem, excêntrica e aloprada do que a versão romântico-gótica de 2010.

De fato, “Alice no País das Maravilhas” nos dá farto material para repensar a carreira de um dos mais singulares cineastas comerciais de Hollywood. É inegável que Tim Burton trouxe, nos anos 1980, uma nova sensibilidade ao mundo dos grandes espetáculos cinematográficos, unindo o senso do macabro que brotava dos filmes de horror B à excentricidade e encantamento das fantasias tipicamente hollywoodianas. No entanto, a partir de certo ponto de sua carreira, Burton parece ter cedido à acomodação ou, quem sabe, dado uma guinada em direção a uma sensibilidade mais convencional.

Desde essa virada na carreira (talvez ocasionada pela reconciliação seguida da morte do pai do diretor), Burton tem preferido mergulhar nas aventuras infanto-juvenis, em que investe claramente mais esforço criativo na concepção visual do que na estrutura narrativa. Se ainda é capaz de nos surpreender com bizarrices do nível de “Sweeney Todd” (2007), também tem se revelado pródigo em pegar material sinistro para crianças e transformá-lo em filmes repletos de visuais interessantes, mas cuja narrativa freqüentemente resvala no lugar-comum. Isto fica explícito em “Alice no País das Maravilhas”, uma fábula infanto-juvenil cujo sopro de vitalidade está nas viraras ilógicas do enredo. Pois Burton subverte justamente esse ponto, criando para o mundo subterrâneo de Alice uma causalidade lógica que simplesmente não bate com o surrealismo original da história, tornada assim bem menos sinistra do que se poderia supor. Os cílios pintados e o delineador no rosto de Johnny Depp chamam muito mais a atenção do que as (poucas) pirações do roteiro.

Que fique claro: boa parte do charme do “Alice no País das Maravilhas” original (nesse ponto, refiro-me tanto ao livro quanto ao desenho animado de 1951) nascia justamente do elemento surreal que fazia a linha narrativa dar guinadas completamente inesperadas a cada cinco ou dez minutos. Essas extravagâncias foram completamente eliminadas por Tim Burton, que transformou a segunda incursão de Alice pelo País das Maravilhas numa espécie de filme de ação com pitadas de romance. Burton chega mesmo a incluir um flerte entre Alice (Mia Wasikowska) e o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp), cuja participação na trama foi convenientemente ampliada por razões obviamente comerciais, que têm a ver com a transformação do ator-fetiche do diretor num astro de primeira grandeza. Esta ampliação chega ao ponto de dar ao personagem quase o mesmo tempo de tela que a protagonista.

Filmado parcialmente com a tecnologia empregada em “A Lenda de Beowulf” (2007) – em que os atores atuam com fundo verde e são reconstituídos digitalmente na pós-produção – e convertido posteriormente para a tecnologia 3D Digital, “Alice” soa desapontador até mesmo nos aspectos visuais. OK, a aparência da malvada Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) está acertadíssima, sugerindo instantaneamente sua obsessão em cortar cabeças de convidados, e o mesmo pode ser dito sobre o rosto sutilmente amalucado do Chapeleiro Maluco (os olhos de Johnny Depp foram aumentados em 10%, e suas pupilas têm tamanhos diferentes). Mas as paisagens hipercoloridas parecem sobras de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), sobrepondo excessivamente o visual à narrativa, e os diversos seres digitais, como o coelho branco e a lagarta fumante, não ultrapassam o nível do corriqueiro.

Ademais, a opção tradicional de Burton em filmar com pouca profundidade de campo (culpa das lentes teleobjetivas) e utilizar muitos close-ups de rostos gera duas decisões estilísticas que reduzem o impacto da tecnologia 3D de projeção. Comparado à encenação bem mais complexa e interessante de “Avatar” (2009), por exemplo, o filme de Tim Burton empalidece. Os equívocos culminam com o design do exército de cartas de baralho da Rainha Vermelha, que mais parecem robôs eletrônicos vermelhos, e com um terceiro ato insípido que transforma a jornada tresloucada de Alice numa longa e banal seqüência de ação, incluindo uma batalha supostamente épica.

O DVD da Buena Vista é simples e contém, além do filme em boa qualidade (imagens em wide anamórfico, som Dolby Digital 5.1), featurettes enfocando a criação dos efeitos especiais e o personagem do Chapeleiro Maluco.

– Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: Tim Burton
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway
Duração: 108 minutos

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20 comentários em “Alice no País das Maravilhas

  1. Mas eu não esperava nada muito diferente para ser sincero. Os traillers e promos lançados eram todos muito rasos (ok, traillers são quase sempre rasos) e coloridíssimos, todos me soavam como um coisa só bonita mas cansada e pouco inventiva. A primeira vez que vi o Coelho foi quando mais me decepcionei; afinal era Tim Burton e aquele não era pra ser só mais um coelho. Enfim, vou conferir mesmo assim.

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  2. Pois é, Burton tá encaretando 😦 Botar lógica na história de Alice foi um crime. Porém, o gato está ótimo, melhor personagem da história (além da rainha vermelha), na minha opinião. PS.: Eu realmente não gostei da rainha branca, tava muito estranha e sem graça.

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  3. Como muita gente já notou, os excessos de Tim Burton não fizeram bem à carreira dele, principalmente em Sweeney Todd e A Fantástica Fábrica de Chocolate, sem contar que o gosto musical dele é pavoroso (não estou falando das trilhas de Danny Elfman). Pra mim, Alice é um sopro de vitalidade no seu cinema, um filme que remete à sensibilidade de Edward Mãos de Tesouro e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça. Agora, pensar em surrealismo em não entender nem Tim Burton nem Alice no País das Maravilhas. O mundo subterrâneo não é um sonho – é uma realidade alternativa, como em O Planeta dos Macacos, por exemplo. Não sei se você viiu o desenho da Disney recentemente ou puxou pela memória. Alí sim estamos no terrenos dos sonhos, afinal nós vemos Alice acordar. Por outro lado, o filme de Burton é uma leitura feminista do personagem, e vai mais além dos livros de Lewis Carroll, que, felizmente ou não, não precisa ser mais levado ao pé da letra. Se Burton e roteirista a Linda Woolverton não respeitam a anedota, pelo menos eles dão um grande valor à prosódia, com diálogos dignos da criatividade de Lewis. Quanto ao 3D, ele funciona normalmente. Agora, não sei onde você assistiu ao filme. Se você foi no UCI Boa Viagem lamento lhe informar que a projeção foi um desastre, com o som péssimo e o aspect ratio mutilado. Alice foi originalmente filmado em 1:44.1, o formato original do IMAX. Já nas salas de 3D ele deve projeto em 1:85.1 e não em 2:35.1, o que aconteceu no cinema local, destruindo completamento os enquadramentos originais do filme e mostrando os personagens quase sempre sem cabeças. Acredito que o filme deve ser visto em todo seu esplendor em IMAX 3D. Uma pena que nesta cidade pobre ainda não temos uma sala deste tipo.

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  4. Tom, dá pra notar que temos opiniões bem diferentes sobre Tim Burton. “Sweeney Todd” é pra mim o filme mais interessante dele nos últimos tempos (exceção feita a “A Noiva-Cadáver”, que é excelente). Vi o filme da Disney bem recentemente, sim. O fato de este aqui ser (na sua opinião) realidade alternativa e não sonho, para mim, não muda muita coisa. Realidade alternativa ou sonho, a história sempre foi conhecida pela desobediência às lógicas da nossa realidade normal (ou seja, surrealismo), e isso não há no filme de Tim Burton, onde a causalidade rígida atrapalha muito.

    Quanto aos aspectos técnicos, sei que o filme tem sido exibido em dois formatos (1.44:1 e 1.85:1). Ele foi – ou deveria ter sido – pensado dessa forma. A mesma coisa ocorreu com “Avatar” (1.85:1 em 3D e IMAX, 2.35:1 em salas 2D normais) e o filme de James Cameron não sofre com enquadramentos deficientes. Se “Alice” sofre, a culpa é de quem planejou a decupagem. Inclusive porque a maioria dos projetores analógicos em operação no mundo está equipada com no máximo três lentes: 1.66:1 (esférica), 1.85:1 (esférica) e 2.35:1 (anamórfica). Ou seja, você não verá em nenhum cinema que não seja IMAX, no mundo (não é um problema local do Recife), uma projeção em 1.44:1, por impossibilidade técnica mesmo.

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  5. Bem, eu não vou conseguir mudar seu ponto de vista. Nem quero, claro. Voxê é o que você é, ok?
    Agora, você tem uma propensão a inverter as informações, uma coisa estranha, sabe? Eu disse que o filme foi exibido em 2.35:1 e não em 1.44:1. Vai ver que você viu o filme num screener baixado na Internet.

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  6. Seguinte, Tom: numa releitura, consegui entender o que você escreveu (o filme foi exibido no formato 2.35:1 quando deveria ter sido em 1.85:1). Infelizmente, seu português na ocasião foi ambíguo e pouco claro. Mas você está correto, sem dúvida. De qualquer modo, lembre-se de que eu até poderia me ater à crítica de uma determinada projeção equivocada do filme, mas não o fiz. Fiz uma crítica ao filme em si. E nela não reclamei dos enquadramentos, mas sim da profundidade de campo, algo em que a lente usada na projeção não influi. Ah, e editei seu último comentário, como faço com todos os que perdem a cabeça na hora de argumentar para soltar ironias ou agredir. Abraço.

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  7. Vi Alice 3D no UCI recife, achei a história fraquinha e fiquei meio decepcionada com Tim Burton. O unico momento que valeu a pena no filme inteiro foi quando Alice pequena atravessa a ‘ponte’ de cabeças pra chegar no castelo. De resto o filme não teve nada demais, achei até infantil. Também fiquei chateada pq em algumas cenas os personagens ficavam sem cabeça.. falavam e a gente só vendo do pescoço pra baixo.. tb teve problema de som na minha sessão. Bom, não é um filme que eu recomendo e tb não recomendo o UCI Recife.

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  8. Tentei ver’ Alice’ 3D legendado. Sem chance, esgotado hoje e amanhã. Então resolvi ver ‘A Estrada’
    gostei MUITO. Viggo Mortensen esta mais uma vez perfeito.
    Voce vai escrever sobre esse filme Rodrigo?

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  9. Alice gerou muita expectativa, mas não correspondeu a ela, na minha opinião, em termos de roteiro. Mas tá aí, eu gostei do 3D, se bem que não tenho muita experiência em 3D não (acho que só assisti a Avatar mesmo), mas achei os efeitos muito interessantes. Queria saber se você vai fazer alguma crítica à Chico Xavier.

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  10. Não vi “Chico Xavier”. Gosto muito do personagem e da religião (sou agnóstico, muito mais próximo do espiritismo do que do catolicismo), mas não gosto nada desse tipo de filme e menos ainda do diretor. Talvez assista em DVD.

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  11. No texto que fiz sobre esse filme, falei justamente sobre o fato de Tim Burton ter mudado demais o seu estilo de filmar após a morte do pai e após o fato de ele mesmo ter se tornado pai. Ele me parece, hoje, não gostar muito de sair de um terreno seguro. Neste sentido, concordo contigo: falta ousadia a esta adaptação, a ousadia que esta história permitiria e que poderia ser colocada em prática por uma mente como a de Burton, mas ele mudou.

    Mesmo assim, achei “Alice no País das Maravilhas” um filme acima da média. Adorei a parte técnica e especialmente a performance da Helena Bonham Carter. Acredito que a essência central dos livros de Lewis Carroll estão aqui.

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  12. Me desculpem a todos que criticaram o filme. Sou fã de Tim Burton e principalmente do Johnny, que ganhou o papel, talvez, por ser amigo de Tim, mas principalmente porque daria conta do papel, o q ue foi feito brilhantemente. Não sei porque estão dizendo que acharam infantil, É UMA HISTÓRIA INFANTIL! Não sei porque criticam Burton por não seguir a história descrita no livro, ELE NÃO É NENHUM MONGE COPISTA}!Por favor, se estão discutindo, é por questão de gosto, não por incompet}ência destes artistas}! Todos brilham no filme, e Tim Burton como sempre inovou}!

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  13. Ola Andressa Balverdu, quando disse que o filme saiu infantil, eu quis dizer no sentido de ser bobinho. Tim Burton é um grande artista e tem filmes dele que eu idolatro (O Estranho Mundo de Jack, por exemplo), mas em Alice, ele deixou a desejar. No fim das contas, nem parecia que era um filme de Tim Burton.

    Outra coisa, Alice não foi escrito para crianças e a história não tem nada de infantil.

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  14. Um filme que, como você deixou nítido em sua sensata crítica, peca pelo roteiro fraco e extremamente bobo, além de falhas nas interpretações – mas, eu achei o Depp bom, quem ficou realmente caricata foi Anne Hathaway e Mia Wasikowska (além de fisicamente parecida com Gwyneth Paltrow, parecia ela atuando, rs) não mostrou densidade. Mas, nem foi culpa dela, mas sim problemas de direção do Burton (a menininha Alice também soava estranha, apática e artificial) e do roteiro esquisito. Desnecessárias passagens da Alice com sua família, aquele casamento tosco com o caricato pretendente dela e a dancinha dela (e do Depp também) me deixaram com vergonha alheia, rs.

    E vou ser sincero, nem achei tãaaao bem feito os efeitos visuais – a cena que ela cai do buraco, achei bem mecânica e deu pra sentir bem a montagem e tal.

    Gostei mais da trilha sonora do Danny, nem citou, né? deu todo o clima e atmosfera ao filme…logo nos créditos iniciais; gostei da caracterização de Helena Bonham Carter e achei que a cenografia estava mesmo um primor.

    Mas, tudo foi meio chatinho: por vezes, cansava o excessivo efeito visual, o roteiro frouxo e meio louco, enfim…

    Abraço

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  15. Acabei de ver “Alice…” Decepcionante. Entendo que diretores, como Tim Burton, modifiquem a história original até pra dar um novo sopro no enredo já tão bem conhecido. Só que inventaram demais. A batalha final, a dança do chapeleiro maluco (rídicula, rídicula)… fizeram do filme um besteirol típico dos grandes estúdios, feito apenas pra agradar a grande massa. Longe do Tim Burton que conheço, que me parece teve o trabalho monitorado pela Disney, um Tim Burton sem liberdade de criar, apenas obediente à cartilha hollywoodiana. Fizeram tanto barulho por nada. Apenas propaganda. Me decepcionei. Só não abandonei a sala porque ainda nutro um pouquinho de respeito pelo Tim Burton. Ainda.

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