Lobisomem, O

[rating: 2.5]

Um dos sinais mais confiáveis que a comunidade cinéfila tem para aferir antecipadamente a qualidade mínima de um filme é o cumprimento correto dos prazos estabelecidos pelo cronograma de produção. Quando um longa-metragem tem data marcada para chegar aos cinemas e começa a ser sucessivamente adiado pelo estúdio, bom sinal não é. Isso aconteceu várias vezes com “O Lobisomem” (The Wolfman, EUA, 2010), cujas filmagens foram realizadas no primeiro semestre de 2008 para um lançamento mundial marcado para novembro do mesmo ano. O filme só chegou aos cinemas, no entanto, quase quinze meses depois. E o resultado final confirma as suspeitas: apenas o desenho de produção gótico e a maquiagem da fera valem o preço do ingresso. Todo o resto, do desempenho histriônico dos atores ao excesso de seriedade do enredo, depõe contra o título dirigido por Joe Johnston.

“O Lobisomem” é o resultado de um dos processos de pós-produção mais atribulados dos últimos tempos. Aliás, a refilmagem do clássico de 1941 já dava problemas ainda em 2006, quando era apenas um projeto embrionário. Somente o nome de Benicio Del Toro – um notório fanático pelo personagem lendário do homem-lobo – esteve ligado ao projeto desde o início. O filme mudou de diretor (saiu Mark Romanek, entrou Joe Johnston), de roteirista (a versão inicial de Andrew Kevin Walker deu lugar a um novo script de David Self) e de quase tudo o mais.

As mudanças não pararam na pré-produção. A trilha sonora de Danny Elfman, inicialmente recusada pelo diretor, foi reaproveitada às pressas, depois que o compositor Paul Hasling entregou (em dezembro de 2009, pouco mais de um mês antes da estréia) um resultado considerado ainda pior – ele teria apostado em música eletrônica, ao invés dos arranjos góticos encomendados pelo diretor. Os atores tiveram que regravar parte das cenas, em 2009, e até mesmo uma dupla de editores experientes – Mark Goldblatt e o craque Walter Murch – foi chamada de última hora para remontar o filme. Seria difícil imaginar uma obra mexida e remexida por tanta gente sair realmente boa, e é o caso aqui.

Embora pague tributo evidente à versão de 1941, inclusive usando o mesmo nome do protagonista, o longa-metragem empresta elementos de outros filmes de horror (especialmente “O Lobisomem de Londres”, de 1935, do qual vêem a explicação para a origem do ser sobrenatural e uma longa seqüência no segundo ato que põe a fera para passear pelos cartões postais da capital inglesa), além de reaproveitar todos os elementos da lenda sobre os homens-lobo, como balas de prata e pentagramas, criados pelo roteirista alemão Curt Siodmak para o título de 1941.

O personagem principal é Lawrence Talbot (Del Toro), aristocrata britânico que vaga pelo mundo sem destino desde a morte da mãe, em violentas circunstâncias não explicadas. O desaparecimento do irmão o faz retornar ao lar, para um reencontro não desejado com o enigmático pai (Anthony Hopkins) e com a ex-noiva do irmão (Emily Blunt). Depois que Lawrence é ferido por um lobo, a ferida se cura sozinha, milagrosamente, e ele começa a se sentir mais forte. Em paralelo, um inspetor vindo de Londres (Hugo Weaving) começa a investigar o caso, que termina como uma tragédia shakespeareana (incluindo muitas menções a personagens do próprio teatrólogo britânico). O detetive, inclusive, é uma das raras boas sacadas do roteiro, pois foi inspirado em personagem real: o inspetor Abbernaty, que investigou de verdade os crimes atribuídos a Jack o Estripador, no século XIX.

A mudança da trama para a Londres vitoriana dá oportunidade à equipe de direção de arte e figurino se destacarem. Infelizmente, a opção do diretor Joe Johnston por ambientar quase todas as cenas à noite impede que o trabalho de Milena Canonero nas roupas e de Rick Heinrichs no desenho de produção seja desfrutado inteiramente. O uso de efeitos digitais também é abusivo, especialmente nas já citadas cenas do lobisomem em Londres, o que complica uma parte do bom trabalho do maquiador Rick Baker com a criatura, cujas transformações também são recheadas de interferências do CGI.

Aliás, a opção por dotar o visual do lobisomem de uma aparência mais humana e menos animal, contrariando a tendência dos últimos exemplares do subgênero, é duplamente eficaz. A fera anda em duas patas e com roupas humanas, homenageando a obra de 1941 e ao mesmo tempo emprestando ao filme certo tom cartunesco que poderia ser ainda melhor, caso Johnston houvesse incluído um pouco de humor no resultado final. Outro ponto forte está nas cenas de ataque do homem-lobo, repleta de sangue e membros amputados, o que faz de “O Lobisomem” um filme pouco recomendado a crianças.

Por outro lado, mesmo contando com dois vencedores do Oscar (Del Toro e Hopkins) no elenco, Joe Johnston deixa muito a desejar na direção de atores, de forma que as performances atingem variados graus de canastrice, que vão do desinteresse evidente de Anthony Hopkins ao histrionismo de Hugo Weaving, resgatando parte dos cacoetes que pareciam tão adequados ao Sr. Smith da triloga “Matrix” e, aqui, soam apenas exagerados e dignos de gargalhadas. Enfim, era previsível: sempre que algum cineasta de talento apenas mediano se dedica a injetar pompa, seriedade e tragédia a um gênero que visa prioritariamente a diversão (caso do horror), o resultado é a irregularidade e a monotonia. “O Lobisomem” apenas confirma essa regra.

O DVD lançado pela Universal, simples, tem apenas galeria de cenas cortadas (11 minutos) como extra solitário. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Lobisomem (The Wolfman, EUA, 2010)
Direção: Joe Johnston
Elenco: Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt, Hugo Weaving
Duração: 125 minutos

8 comentários em “Lobisomem, O

  1. Bem, sim, o filme foi “mal’ organizado, mas não é todo mundo que não gosta de filmes assim. Estou super ancioso para a estréia (no caso, amanhã). Sou fã de filmes sobre lobisomem, principalmente quando se trata da refilmagem de um clássico do gênero.

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  2. Eu fiquei totalmente desinteressada nesse filme, tanto que ele chegou a me dar sono. Eu até gostei da técnica do filme, que me chamou a atenção, mas a boa premissa foi desperdiçada num filme que não prende mesmo a atenção!

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  3. Discordo plenamente dos comentários acima. O filme pode não ser brilhante e muito menos genial.
    Mas é uma deliciosa sessão em estilo retrô da Hammer e me deixou bastante interessado do início ao fim. Tanto que no final, ainda fiquei com aquele gostinho de quero mais!

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  4. E aí, Rodrigo? Meu irmão e eu acabamos de ver esse filme hoje à noite. Eu não sou nenhum perito em análise de montagem, mas, na minha ignorância, “O Lobisomem” acabou com uma edição meio caótica.
    Se contarmos, por exemplo, o tanto de segundos de cada tomada vai ficar ainda mais evidente. Tudo é muito rápido, brusco e brutal também. Os únicos sustos provêm do som e do jogo de luzes, como numa tomada em que Del Toro ilumina os corredores e um cão aparece latindo do escuro. As reações da plateia foram unânimes: meu coração disparou e o André deu um pulo na cadeira. Mas depis pensei: será que isso foi não foi resultado do som demasiado alto do cinema em vez de uma condução boa de verdade? Enfim, não sei se fui muito claro, mas em termos gerais o filme consegue divertir um puquinho -especialmente na passagem em que o lobisomem é perseguido pelos telhados de Londres. De resto, como você disse, o filme consegue gerar um grande desinteresse mesmo.
    Até mais Rodrigo e obrigado pela paciência

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  5. Quanto à crítica concordo totalmente (acabo de tentar rever o filme, tentando ao máximo achar alguma qualidade além do visual do monstro, que achei perfeito, mas não tem como: é ruim mesmo!) mas não te parece meio exagerado dizer que o horror é “um gênero que visa apenas a diversão”? Creio que existem muitos exemplos de filmes de horror que não apenas visam como conseguem ser muito mais do que mera diversão, especialmente quando trabalhados por diretores acima da média (no momento estou aqui pensando em toda a primeira fase do David Cronenberg, mas poderia pensar no “Exorcista”, vários filmes antigos do George Romero, dá pra ir longe). Sei lá… me incomodou a colocação. Me pareceu meio desnecessária.

    De resto continuo achando o site sensacional… 😉

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