Invictus

[rating: 3.5]

Difícil não pensar nos heróis estóicos, taciturnos e atormentados que o ator Randolph Scott interpretou em uma série de sete westerns do cineasta Budd Boetticher, realizados no final dos anos 1950. A intimidade de seu diretor com o finado gênero nos autoriza perfeitamente a interpretar “Invictus” (EUA, 2009) como uma espécie de western contemporâneo, que resgata um dos temas mais arquetípicos do gênero: o pária social humilde e virtuoso que, após sofrer todo tipo de preconceito e humilhação, acaba sendo responsável por unir uma comunidade fraturada e decadente em torno de um ideal nobre.

A diferença crucial entre “Invictus” e a grande maioria dos westerns é que o filme de Clint Eastwood dramatiza uma situação real, protagonizada em 1995 por um dos personagens históricos mais famosos do século XX: Nelson Mandela, o símbolo da queda do apartheid na África do Sul e primeiro presidente negro da nação africana. Ao contrário do que muitos podem pensar, contudo, “Invictus” não consiste numa cinebiografia de Mandela. O filme ficcionaliza apenas uma curta passagem da vida dele, focalizando o papel que o líder negro exerceu, nos bastidores da histórica conquista da Copa do Mundo de rugby, pelo país africano, no torneio disputado lá mesmo, em 1995.

O investimento de Eastwood na caracterização de Mandela como um herói clássico do faroeste é visível em certas escolhas narrativas operadas pelo diretor. Ele se concentra, ao longo dos 133 minutos do filme, em mostrá-lo como um homem hiper-atarefado, que tinha a consciência exata do papel que precisava exercer durante a passagem pela Presidência do país: um unificador. Mandela não estava ali para vingar os séculos de humilhações sofridas pela sua raça (algo que tanto brancos quanto negros esperavam que ele fizesse), mas sim para ajudar a alcançar a paz. Nesse sentido, o filme sinaliza que a atuação dele nos bastidores esportivos foi planejada cuidadosamente para cumprir essa tarefa através do esporte.

Significativamente, Eastwood fez um filme que prioriza a relação complexa entre Mandela e o jovem capitão da seleção de rugby, François (Matt Damon), loiro filho de família aristocrática francamente hostil ao presidente. Filmando de maneira clássica, com cenas longas e decupadas em planos gerais que não se apressam para sair do caminho, Eastwood valoriza o trabalho dos dois ótimos atores, que brilham sem precisar fazer grande esforço. O ponto de vista do filme não é o de Mandela, mas o de François. Aos poucos, o esportista vai compreendendo o plano do líder negro, sem que este precise dizer-lhe explicitamente, enquanto sua hostilidade dá lugar a uma crescente admiração.

Ótimo diretor de melodramas, Eastwood filma tranqüilo e faz jus ao velho ditado de que os bons vinhos melhoram quando envelhecem. Ele parece narrar a história sem esforço, fazendo o enredo se desdobrar diante do espectador de forma orgânica. Embora tenha 133 minutos, a economia narrativa é evidente. O cineasta opta por descartar toda a vida pessoal de Mandela, fazendo uma única referência velada aos seus problemas familiares (numa cena curta em que o presidente sai para caminhar com os seguranças e retorna, contrariado, quando um deles lhe pergunta sobre a família). Boa parte do filme é dedicada à reconstituição das partidas de rugby, momentos em que a narratyiva poderia ficar chata, mas Eastwood evita o problema editando as partidas com abundantes inserts da reação do público às jogadas, o que permite a quem não entende nada do esporte – como a maioria dos brasileiros – compreender o que está se passando dentro de campo.

Além disso, o diretor veterano ainda nos brinda com cenas curtas, pequenos momentos de suspense e drama, aparentemente desconectados da ação dramática principal, e que ajudam a modular a tensão do filme. É o caso da seqüência do vôo rasante de um avião comercial em direção ao estádio, justo no dia da final (obviamente, uma cena que ecoa de modo bem mais dramáticos nos norte-americanos), e também da cena final,m que envolve dois policias brancos e um menino negro. “Invictus” não chega ao nível de “Menina de Ouro” ou “Sobre Meninos e Lobos”, mas mostra que Clint Eastwood continua cheio de fôlego, energia e categoria.

O DVD da Warner traz o filme no formato correto de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) e um punhado de extras que incluem making of do filme, documentário sobre a obra de Eastwood e um featurette curioso com Matt Damon aprendendo a jogar rugbi.

– Invictus (EUA, 2009)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Adjoa Andoh, Tony Kgoroge
Duração: 133 minutos

9 comentários em “Invictus

  1. Já vi “Invictus” e gostei muito. Basicamente concordo com a crítica. Mas tenho alguns poréns. Acho que tanto a cena do avião quanto a do menino são desnecessárias, fugindo da narrativa central. Também tive a impressão que embora as partidas sejam muito bem editadas e tenham a emoção do público, caberia uma narração para explicar o que está acontecendo para quem não entende bulufas de Rugbi. Mas isso é muito pouco perante e atuação de Feeman, o contexto social e a maravilhosa trilha sonora. Clint é demais e eu sou grande fã dele. Não tem jeito!

    Curtir

  2. Quando citei as duas cenas (avião e menino), escrevi a palavra “aparentemente” sabendo o que fazia. É isso: na aparência, elas fogem da concisão do resto do filme. Mas é só aparência. As duas, na verdade, ecoam o tema do preconceito. Quanto à idéia da narração em off, Danilo, é um velho clichê dos críticos, ms funciona sempre: se for possível comunidar uma idéia sem usar narração em off, melhor fazer que o resultado SEMPRE ficará menos óbvio e mais eficiente. É o caso. Acho que deixei bem claro que considero os planos de reação do público suficientes para que seja possível entender minimamente quem está ganhando o jogo.

    Curtir

  3. o filme é sentimental? sim. mas clint eastwood sabe editar o melodrama. exemplo: a cena das mãos (branca e outra negra) erguendo a taça seria longa com a câmera dando voltas em torno da cena e uma música esfuziante do tipo ‘we are the champions’. mas a cena é rápida.
    a sequencia que alterna a dramaticidade do jogo final com as cenas do garoto negro querendo ouvir o jogo no rádio do carro de dois policiais brancos é emblemática: o filme é centrado no tema da reconciliação (mandela chegou a instituir o ‘tribunal da reconciliação’ em que ofendidos e ofensores perdoavam publicamente suas ofensas), e essa cena resume o estilo narrativo do diretor.
    ao mesmo tempo em que o jogo avança para os minutos finais, o time se une dentro de campo, a torcida vibra no estádio e pela tv e o menino vai se aproximando mais do carro dos policiais.
    enquanto o jogo é intensamente dramático e violento, as cenas do garoto são ternas e engraçadas. jogo e reconciliação são editados e elipsados para mostrar o que mandela queria que acontecesse com a nação.
    o filme é sentimental? sim. mas se todos os sentimentais fossem da estirpe do clint eastwood…

    Curtir

  4. Gracias por el comentario David.Hay que tener en cutena que es una pelicula Estadounidense, asi que todo este1 pasado por su filtro particular y la historia resulta algo ‘americanizada’. Como lo del avion que parece que se va a estrellar en el campo de juego, que no me creo que haya pasado de verdad. Pero bueno, es entretenida y muestra como la politica se une al deporte de masas, algo que vemos continuamente.Saludos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s