Distrito 9

[rating: 3.5]

Uma gigantesca nave alienígena, quase do tamanho de uma pequena cidade, entra na atmosfera terrestre. Ela pára sobre a Joanesburgo, na África do Sul, e lá permanece. Flutuando, algumas centenas de metros de altura, e sem dar qualquer sinal de vida. Durante meses os militares do mundo inteiro monitoram a nave, enquanto a imprensa especula o que diabos aquilo significa. Quando cientistas finalmente tomam coragem e invadem a nave, descobrem uma população inteira de alienígenas famintos e subnutridos, praticando canibalismo para sobreviver. Eles não têm intenções bélicas. São refugiados interplanetários. Acabam acomodados numa grande área vazia na periferia da cidade, onde permanecem isolados por duas décadas do convívio com humanos, e constituem uma grande favela extraterrestre, chamada exatamente de Distrito 9.

Esse ponto de partida demarca a abordagem criativa e original de um dos temas mais batidos do cinema de ação – a presença de alienígenas em nosso planeta – e consiste no cenário dramático do interessante e irregular “Distrito 9” (District 9, África do Sul/EUA/Nova Zelândia, 2009) , espécie de comentário cheio de adrenalina do cineasta sul-africano Neill Blomkamp sobre apartheid e segregação racial. Utilizando um enredo simples para discutir questões culturais relacionadas às ondas de imigração de povos pós-coloniais e também às condições de vida em grandes favelas, Blomkamp fez um filme pop e irreverente, mas cometeu um pecado crucial. Não tanto pela visão ingênua do problema (não dá para exigir profundidade intelectual de um filme que se pretende tão somente uma aventura com toques de ficção científica), mas sobretudo por quebrar inteiramente, a partir do segundo ato, o postulado estético estabelecido desde o princípio da projeção.

Esse último ponto parece ser, sem dúvida, o calcanhar de Aquiles da produção de médio porte assinada por Peter Jackson (“O Senhor dos Anéis”). No primeiro ato, “Distrito 9” se inscreve explicitamente na onda de falsos documentários que, a partir de “A Bruxa de Blair” (1999), investiram na simulação do registro amador de um fato extraordinário, com câmera diegética (isto é, a câmera existe fisicamente dentro do filme, fazendo parte do universo ficcional) posteriormente editado com a estrutura narrativa clássica do cinema de ficção. Em maior ou menor grau, longas-metragens como “Cloverfield”, “Diário dos Mortos”, “[REC]” e “Guerra Sem Cortes” investiram nesse conceito entre 2006 e 2008. Este último, particularmente, parece ter servido de inspiração direta para o diretor sul-africano, pois usa imagens de diversas origens (programas de televisão, telefone celular, câmeras de segurança, sites da Internet, etc.) para reconstituir um acontecimento impossível de ser registrado a partir de um ponto de vista único e estável, como acontece no cinema narrativo tradicional, onde a câmera sempre está no lugar certo e na hora certa.

Em “Distrito 9”, Blomkamp utiliza imagens de cunho documental para construir um mosaico que funciona como um primeiro ato clássico, em que personagens e ponto de partida dramático são apresentados ao público. Assim, ficamos sabendo como a nave alienígena chegou ali, conhecemos as condições sub-humanas em que vivem os extraterrestres (seres que parecem um cruzamento de humanos com camarões), descobrimos detalhes sobre o funcionamento social da favela ET (gangues nigerianas traficam armas, exploram venda de comida e dirigem uma rede de prostituição inter-racial). Somos apresentados, também, ao improvável herói: Wikus Van Der Merwe (Sharlto Copley), franzino e inseguro funcionário público que irá liderar uma operação de remoção de todos os aliens para um novo local – chamado Distrito 10 – inteiramente afastado de centros urbanos humanos.

Todos esses acontecimentos são reconstituídos a partir de fontes de segunda mão: trechos de programas de TV, registros caseiros ou feitos por equipes militares, etc. Esse postulado garante a “Distrito 9” a aparência de um documentário, inclusive na textura imperfeita das imagens. Os pedaços supostamente retirados de programas de TV enquadram os entrevistados em planos americanos, vídeos dos militares são tremidos e têm uma pequena marca d’água no canto inferior direito, por exemplo. Todo esse material é consistente com o postulado do falso documentário, mais ou menos até o acontecimento que precipita o segundo ato – Wikus é contaminado com material orgânico extraterrestre e seu DNA começa a sofrer uma mutação, tornando-o uma mina de ouro para as indústrias de armamentos. Isso acontece porque as poderosas armas dos ETs só funcionam quando operadas por um deles, algo que obviamente todos se recusam a fazer.

Perseguido pelos militares, Wikus só vê uma possibilidade de se manter vivo: buscando abrigo dentro do Distrito 9, único local onde os militares não têm acesso irrestrito. A partir do momento em que ele foge, Blomkamp trapaceia o postulado inicial e comete um erro fatal para a credibilidade do filme. Apesar de não estar existir mais nenhuma câmera nos locais onde Wikus busca refúgio, ele continua a ser filmado como se um cinegrafista amador estivesse fugindo junto com ele. Até mesmo a estética documental – câmera na mão, imagens tremidas e fora de foco, etc. – continua a ser simulada. Claro, apenas espectadores mais atentos irão perceber esse problema, mas ele existe e não pode nem deve ser ignorado.

Fãs do filme ainda poderiam argumentar que o enredo é interessante, o que não deixa de ser verdade, mas também não serve de desculpa. O desenvolvimento da ação dramática reserva boas seqüências de ação, como a inevitável perseguição seguida de tiroteio que acontece no clímax do filme. Por outro lado, não esqueça que a trajetória de heróis como Wikus já foi vista em centenas de filmes antes; alguns bons, a maioria ruins (pense em quantos longas-metragens você já viu que acompanham um homem solitário fugindo da perseguição de tropas inteiras, sem esquecer de incluir quase toda a filmografia de Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger nos anos 1980). No caminho, Neill Blomkamp insere comentários interessantes sobre a indústria de armas, sobre segregação racial, e sobre diásporas em geral.

Do ponto de vista estilístico há outros acertos, como o excelente design das criaturas alienígenas (todas construídas com o uso de computação gráfica) e a consistência dos muitos detalhes a respeito da cultura alienígena adaptada às condições terrestres – eles são viciados em comida enlatada para gatos, vivem em barracos de papelão, catam dejetos em gigantescos lixões para trocar por dinheiro humano e sobreviver. O elenco desconhecido ajuda a ampliar a verossimilhança da situação; o fato de não carregarmos nenhuma lembrança dos rostos dos atores em filmes anteriores ajuda o espectador a imergir completamente na história. A boa atuação do novato Sharlto Copley (originalmente um dos produtores) no papel principal também auxilia a platéia a estabelecer forte empatia com o personagem.

Vale lembrar, também, que o gênero da ficção científica tem sido utilizado, desde a década de 1950, para discutir temas sócio-culturais espinhosos diante de uma platéia popular e acostumada a ver filmes como mero veículos de entretenimento. Nesse sentido, é interessante observar o quanto “Distrito 9” é superior a longas-metragens muito mais caros e badalados, como a terrível refilmagem de “O Dia em que a Terra Parou” (2008), que praticamente atira uma mensagem pseudo-ecológica goela abaixo da platéia. Porém, nenhuma dessas virtudes elimina o fato concreto de que Neill Blomkamp cometeu um dos erros mais cruciais da atividade cinematográfica, que é estabelecer um postulado criativo no início do filme para depois quebrá-lo. O pior é que não haveria nada de errado nesse procedimento, se o diretor tivesse escancarado essa quebra, ao invés de insistir em manter a estética documental em momentos do filme que jamais poderiam adotar essa estética. Por falta de coragem ou criatividade, o cineasta sul-africano perdeu a chance de fazer um pequeno cult para as futuras gerações, entregando um filme que é apenas eficiente.

O DVD de locação da Sony traz o filme, com boa qualidade  de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). A edição dupla é mais caprichada: inclui comentário em áudio do diretor, documentário em três partes (34 minutos) cobrindo da pré à pós-produção, galeria de cenas cortadas (23 minutos) e mais quatro featurettes que detalhas aspectos específicos do filme, como a maquiagem e a criação da favela alien (45 minutos).

– Distrito 9 (District 9, África do Sul/EUA/Nova Zelândia, 2009)
Direção: Neill Blomkamp
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt
Duração: 112 minutos

29 comentários em “Distrito 9

  1. Tranqüilo, Edu… e Ricardo, minha obrigação como crítico é apontar problemas e virtudes dos filmes. Não é questão de preciosismo; o trabalho do analista é analisar. Ademais, tem muito filme ruim por aí que é cult. Essa categoria não tem nada a ver com qualidade.

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  2. Eu ia comentar apenas isso que já comentaram. Apesar de ser um mero leigo e ter percebido o problema da troca de câmera, também não acho que o filme deixará de ser cult por causa disso. Vejo como uma obra que merece sim ser lembrada e que supera em muito, muito filme badalado por aí (como você bem colocou)!

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  3. Gostei do filme, mas esperava mais.Tinha gente falando até que esse podia ser uma surpresa no Oscar (sem chance).Resultado, fui assistir o filme com uma espectativa enorme, mas tudo que vi foi uma boa obra de ficção científica, e só. O tal “estilo documental”, ao contrário do espanhol [REC], atrapalha mais do que ajuda, deixando as cenas meio confusas e às vezes saturadas, e a forçação de barra documental o diminui um pouco.Uma pena, já que a premissa é muito original e o desenvolvimento dessa é fodona. Já imaginou um roteiro desses na mão de David Fincher?
    De qualquer forma, já estou esperando Distrito 10…

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  4. Para mim, Rodrigo, o calcanhar de Aquiles desse filme foi o roteiro. Acho que ele levanta pontos interessantíssimos sobre o homem em si e as relações humanas, mas acredito que o filme termina num anti-climax…

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  5. Posso estar enganado, mas percebo em vários comentários escritos acima (Kamila, Pedro, Ricardo, Edna) uma questão interessante: quando vocês gostam do filme, colocam a história – o enredo – acima de tudo o mais. A lógica é a seguinte: “tudo bem, tem um problema aqui, mas e daí? Continua sendo bom”. Tudo bem, cada um raciocina como deseja, mas eu não entro nessa.

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  6. Mudando de assunto, Rodrigo, você vai lançar alguma crítica sobre O Desinformante? Eu achei o filme muito interessante, mas o que tem de gente metendo o pau…Queria saber a sua opinião.

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  7. Olá!
    A “quebra de postulado” é, sem dúvida, o problema do filme. Como escreveu o Rodrigo, isso é bem perceptível. Mas o filme é bom, bem produzido. O protagonista gera empatia, tem carisma. As criaturas são ótimas. O enredo idem. Enfim, vale a pena assisitir.
    É a primeira vez que comento, apesar de “frequentar” o site há um bom tempo. Parabéns Rodrigo. Seu site é referência.
    Abração

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  8. [A partir do momento em que ele foge, Blomkamp trapaceia o postulado inicial e comete um erro fatal para a credibilidade do filme. Apesar de não estar existir mais nenhuma câmera nos locais onde Wikus busca refúgio, ele continua a ser filmado como se um cinegrafista amador estivesse fugindo junto com ele. Até mesmo a estética documental – câmera na mão, imagens tremidas e fora de foco, etc. – continua a ser simulada.] Sinceramente, me passou despercebido. =D

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  9. Achei o filme muito bom, muito bom mesmo. Podia ser melhor em alguns detalhes? Sim. Mas no geral um filmaço, que faz pensar e me causou diversas “reações”…tem hora que dá vontade de virar a cara (pra mim não mas pra quem for mais sensível…). Falam da violência de Bastardos Inglórios, Bastardos é Walt Disney comparado com Distrito 9.

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  10. Acredito q nasce mais um bom cieneasta, esse erro estetico manchou realmente o filme? Acho q sim, mas o roteiro eh estimolante no quesito social e ainda eh d impressionar o q foi feito com o baixo orçamento.

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  11. Apesar de todas as comparações a outras produções
    do gênero, ainda acho esta muito original! Acredito
    que Neil (e Peter Jackson) conseguiu realizar uma obra singular!
    É uma pena a “falha” no começo do segundo
    ato, mas senti, em um momento, que o diretor conseguiu
    impulsionar o filme e terminar a história de maneira eficaz!
    O design de produção é excelente. Ponto para a maquiagem
    na transformação do Wikus.

    Parabéns pelo site. Assim como o Fábio,
    sempre “frequentei” e nunca comentei.
    Abraço.

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  12. Claro, é só olhar as críticas dos filmes dele aqui no Cine Repórter. Mas acho importante ressaltar que o mérito dele nesse filme aqui foi apenas viabilizá-lo financeiramente. Do ponto de vista criativo, pelo menos o diretor afirma que não tem nenhum pitaco de Jackson aqui.

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  13. Ah, só um detalhe, quando fala que o filme é muito violento não é só fisicamente que estou, verbalmente também, muito violento, o modo como a criança ET é tratada….ah, já vi muito isso com favelado e suas famílias….muito….

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  14. Rodrigo, descobri o Cinereporter agora, show de bola, parabens. Gostei do filme, e senti ecos de um outro, com Dennis Quaid e Danny Glover, se não me engano, chamado Inimigo Meu, de 1986 ou 87, por aí. procede? Abraço, passo a acompanhar suas críticas.

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  15. Cristina, verdade, tb senti esse eco de Inimigo meu nesse filme, e ai como Inimigo meu é bem superior na relação entre os desafetos, este filme acaba soando inferior, isto foi o que mais me incomodou neste filme. Mas isto não torna o filme ruim.

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  16. Gostei bastante do filme, mas essa quebra que Rodrigo falou me deixou, inicialmente, confusa, e depois incomodada. Se ele tivesse encerrado o documentário no fim do primeiro ato e começado a contar o filme de uma nova maneira a partit do segundo ato, o filme seria perfeito (acho eu, na minha himilde e leiga opniao). Fora isso, achei o filme excelente e fiquei surpresa com a super atuação brilhante de Sharlto Copley (quem??). Ah!! e que boa ideia fazer um ‘herói’ odiável.. muito ousado isso.

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  17. Gosto muito do filme e acredito que ele contribuiu bastante ao mostrar que ETs podem ser mostrados por mais de um ângulo. Toda a referência ao “aparteid” também é extremamente criativa, mas concordo com o que você disse, Rodrigo.

    Não sei se havia notado a questão das câmeras, mas havia percebido que o filme havia ficado diferente a partir de certo ponto. Faz tempo que o vi também, vai ver até notei e não me lembro.

    Ainda assim, continuo recomendando o filme. Se existem falhas cinematográficas, existem ganhos reflexivos, mesmo que superficiais, que merecem atenção.

    Um abraço!

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