Onde Vivem os Monstros

[rating: 4]

Inspirado em uma selvagem e curta história infantil (o livro original tem apenas dez sentenças, cada uma ilustrada por um desenho), “Onde Vivem os Monstros” (Where the Wild Things Are, EUA, 2009) passou por um longo processo de pré-produção que durou quase 30 anos, antes de chegar às mãos do diretor certo para dirigi-la: Spike Jonze. Conhecido por abordar projetos bizarros demais para cineastas convencionais, o ex-diretor de videoclipes foi realmente capaz de captar a essência da história, ao mesmo tempo expandindo-a para uma espécie de fábula direcionada a adultos e conservando um senso de selvageria e excentricidade tipicamente infanto-juvenil.

As primeiras tentativas de filmar o livro de Maurice Sendak, escrito e publicado em 1963, datam do início dos anos 1980. Naquela época, a Disney tentou realizá-lo como uma animação revolucionária, que deveria misturar personagens animados à mão com cenários criados em computador. John Lasseter, futuro diretor da Pixar e gênio do setor, participou da realização de testes com a tecnologia, mas o filme não vingou. Foi preciso esperar mais de 20 anos e unir o surgimento de novas tecnologias (CGI, bonecos eletrônicos, etc) à aparição de um diretor que pudesse unir irreverência e inocência em doses iguais para que o projeto vingasse, agora nas mãos da Universal.

E deu certo. “Onde Vivem os Monstros” talvez seja o filme mais consistente e interessante de Spike Jonze (o mesmo homem que deu ao mundo os viajados e inteligentes “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”). O acerto tem menos a ver com uma trama coerente e lógica, e mais a ver com uma simplicidade narrativa que, associada à inventividade, permitiu ao diretor transformar em imagens o universo onírico criado pela imaginação fértil de uma criança. “Onde Vivem os Monstros” é precisamente isto: uma viagem completa pela mente de um garoto cuja imaginação não tem limites.

A história é muito, muito simples. Max (Max Records) tem nove anos e sente-se muito solitário após o divórcio dos pais. Ele vive com a mãe (Catherine Keener) e a irmã mais velha. Apanha regularmente dos amigos desta última, e sente que a primeira tem dado mais atenção ao namorado (Mark Ruffalo, uma ponta de luxo) do que a ele mesmo. Assim, após uma briga em casa, Max foge. Apanha um bote o mar perto de casa e rema para o meio do oceano, indo parar em uma ilha onde encontra uma comunidade formada por seis monstros gigantescos. Vestido com uma fantasia de lobo, Max tem lábia suficiente para convencer os monstros a não comê-lo. Mais: sua capacidade de articulação é tamanha que os bichos logo se convencem de que ele tem poderes mágicos, e o promovem a rei da ilha.

Parece meio sem lógica? Pois é mesmo. A chave para entrar no clima do filme de Spike Jonze é imaginar a história como o delírio de uma criança solitária. O maior acerto do diretor, aliás, é manter no enredo justamente as excentricidades e os furos de lógica que existem naturalmente nos universos ficcionais que toda criança cria para si mesmo. Auxiliado pelo melhor que a tecnologia pode produzir (o design dos monstros, que uniu bonecos eletrônicos, CGI e atores vestidos com fantasias, é simplesmente espetacular, dotando as criaturas de feições absolutamente críveis e que, ainda por cima, dão a cada uma delas uma personalidade facilmente reconhecível), Jonze mergulha na irreverência que caracterizou sua obra anterior sem esquecer de manter a inocência essencial para uma fábula infanto-juvenil.

Para completar, ele acertou em cheio na escalação do ótimo elenco de vozes: James Gandolfini (o furioso Carol), Paul Dano (o desprezado Alexander), Forrest Whitaker (o doce Ira), Catherine O’Hara (a depressiva Judith), Caris Cooper (o pacífico Douglas) e Lauren Ambrose (a maternal KW) contribuem para que cada personagem tenha uma caracterização específica – todas, aliás, refletindo algum aspecto exacerbado da personalidade de Max – e um rico panorama das fantasias do hiperativo menino-lobo. E o melhor de tudo é que, ao contrário das fábulas da Disney, esta aqui não tem nenhuma lição de moral edificante e fantasiosa. Belo filme.

O DVD simples é da Warner. Imagem correta (widescreen anamórfico), áudio OK (Dolby Digital 5.1) e nenhum extra.

– Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, EUA, 2009)
Direção: Spike Jonze
Elenco: Max Records, Catherine Keener, James Gandolfini (voz), Paul Dano (voz)
Duração: 101 minutos

8 comentários em “Onde Vivem os Monstros

  1. Não sei se o melhor de tudo é a ausência de uma “lição moral edificante”. Até porque há uma lição moral, e porque não, edificante. A diferença é a sutileza com que isso é mostrado. As cenas finais falam: Max volta para casa. A mãe assistindo o filho comer. O sorriso de Max no final, esboçando ter aprendido com mais uma etapa do lento processo de lidar com medos e traumas. Filmaço!
    Mas meu filho de 11 anos não viu muita graça nesse final.
    O adulto com sua falta de graça está querendo tirar o conflito bem/mal que ajuda a criança em suas decisões entre o certo e o errado, a confrontar (e superar?) situações de dor. Os adultos não têm o direito de tratar a criança com um miniadulto pernóstico e relativista.

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