Bastardos Inglórios

[rating: 5]

Uma das críticas mais recorrentes a filmes que encenam acontecimentos (ficcionais ou não) relativos a algum período específico do passado diz respeito à fidelidade histórica. Historiadores, profissionais ou amadores, reclamam que o processo de ficcionalização desrespeita esse ou aquele detalhe, distorce determinado personagem real, ou coisas afins. Esse tipo de crítica, por si só, é rebatível com certa facilidade, pois exige da imagem audiovisual pertencente a um regime específico (a narrativa ficcional) um tipo de leitura oriundo de outro regime (o registro documental). “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds, EUA, 2009) traz uma infinidade desses detalhes que horrorizariam historiadores. E esses detalhes ajudam a fazer do filme mais uma obra-prima assinada por Quentin Tarantino.

Projeto de cabeceira que o diretor burilou durante mais de 10 anos, “Bastardos Inglórios” é uma celebração cinéfila, um exercício impecável de carpintaria cinematográfica, um desfile ininterrupto de diálogos memoráveis e interpretações meticulosas que fazem do filme uma autêntica coleção de momentos antológicos, de ritmo e execução irretocáveis. Se lhe disserem que “Bastardos Inglórios” é um filme de ação sobre a II Guerra Mundial, não acredite – até porque existe muito pouca ação (no sentido físico) dentro do longa-metragem. “Bastardos Inglórios” não está interessado em se tornar mais um dos muitos relatos ficcionais a respeito do maior conflito bélico do século XX (algo que a seqüência final dentro do cinema deixa explícito, pois reinventa completamente a História). Quer, apenas, proporcionar aos apaixonados pelo cinema a chance de passar duas horas e meia com um sorriso de orelha a orelha grudado no rosto.

Pois bem: a história se passa na região da França ocupada pelos nazistas, entre 1941 e 1944. À moda críptica de Quentin Tarantino (é importante notar que a cronologia não-linear, presente desde sempre no trabalho dele, parece integrada mais organicamente à história, sem chamar tanto a atenção para si, como acontecia em “Pulp Fiction” ou “Kill Bill”), o enredo justapõe a execução de dois planos independentes e um tanto desajeitados para executar membros do alto comando nazista. Um deles é executado por um pelotão de soldados norte-americanos infiltrados dentro das linhas inimigas, com a singela missão de matar nazistas com o máximo possível de violência – são os Bastardos do título, liderados por um tenente caipira (Brad Pitt). O outro é levado a cabo por Shosanna (Mélanie Laurent), jovem mulher sobrevivente de uma família judia executada pelos alemães.

Os dois planos vão convergir e se chocar dentro de um pequeno cinema nos subúrbios de Paris, numa noite inesquecível tanto para os personagens quanto para os espectadores do lado de cá da tela. Até chegar lá, contudo, tanto os Bastardos quanto Shosanna terão que superar uma série de longos e tensos duelos verbais, muitas vezes liderados pelo tenente-coronel Landa (Christoph Waltz), astuto oficial nazista de sorriso matreiro e modos ambivalentes, que fala francês, inglês, italiano e alemão fluentes. Aliás, em que pese a qualidade coletiva espetacular das interpretações, em sua maior parte conduzidas por atores franceses e alemães semi-desconhecidos, pode-se afirmar com segurança que Waltz rouba o filme para si. Ele consegue a proeza de soar divertido e sedutor ao pedir um copo de leite, em determinada cena, e horrivelmente ameaçador ao pedir outro copo de leite, com o mesmo sorriso rasgado, num momento subseqüente. Não é à toa que ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes 2009.

Reconhecendo implicitamente que a mais impressionante de suas muitas virtudes está na qualidade dos diálogos que produz, Tarantino estrutura o filme em meia dúzia de segmentos, cada um contendo um longuíssimo confronto verbal como centro de gravidade narrativa. Todas essas seqüências, sem exceção, são jóias cinematográficas da melhor espécie: carregadas de rico subtexto, magnificamente interpretadas, dirigidas com sobriedade e discrição, e imbuídas do mais impecável tratamento do tempo fílmico. Não há uma nota sequer fora do lugar. À moda de Hitchcock ou Sergio Leone, Tarantino maneja a condução dessas seqüências como um mestre da construção cinematográfica; ora dilata o tempo para produzir tensão na platéia até o limite do suportável, ora espreme e acelera o andamento em breves suspiros de alívio que nos preparam para a próxima dose de energia cinéfila inesgotável.

O resultado dessa perfeição do manejo da técnica cinematográfica é algo ímpar – torna-se impossível desgrudar os olhos da tela, tamanho é o grau de magnetismo que dela emana. Tome-se como exemplo o prólogo, que mostra uma visita do coronel Landa a uma família de agricultores franceses. A cena consiste, essencialmente, de uma conversa entre dois homens em torno de uma mesa. Eles conversam em francês e inglês, fumam cachimbos e tomam leite. Ao fundo, ouvem-se mugidos esparsos de uma vaca e o cacarejar de um pássaro, enquanto o oficial alemão filosofa sobre a natureza de ratos e falcões, num daqueles diálogos eletrizantes e elípticos que consagraram a obra de Tarantino. O tique-taque de um relógio de parede amplia a tensão. A cena dura 19 minutos (só consegui cronometrar na segunda revisão, já que é tão intensa e magnética que simplesmente não conseguia desviar a atenção da tela e olhar para o relógio), e se sustentaria perfeitamente sozinha, como um filme independente.

Claro, sublimes não são apenas diálogos e interpretações; todos os demais elementos da carpintaria narrativa contribuem para tornar a seqüência um primor de construção cinematográfica. O desenho de produção entra com os sugestivos cachimbos, reveladores da personalidade de cada homem; a montagem contribui com a valorização dos planos de reação, enquanto a câmera de Robert Richardson (um mestre da iluminação elegante, discreta e eficiente) aproxima-se aos poucos dos rostos dos atores; o desenho de som ajuda a modular a intensidade da tensão, acrescentando ou eliminando pequenos ruídos do exterior da cabana que alteram sutilmente a percepção do espectador para a tensão; e há a música, claro, remix de um dos temas de Ennio Morricone para “Três Homens em Conflito” (1966), obra de cabeceira do cineasta americano. A cena inteira, aliás, é uma espécie de homenagem discreta à seqüência de apresentação do personagem de Lee Van Cleef deste mesmo filme de Sergio Leone, acrescida de um roteiro que só poderia ter saído da pena de Tarantino.

Há diversos outros momentos do mesmo calibre no decorrer de “Bastardos Inglórios”. Preste atenção no primeiro encontro dos integrantes alemães dos Bastardos com a espiã dos Aliados (a atriz germânica interpretada por Diane Kruger), que acontece dentro de uma pequena taverna no porão de um bar – 27 minutos de diálogos, que ora apertam, ora afrouxam a tensão (novamente, só consegui cronometrar na revisão, pois da primeira vez eu estava torcendo para que a cena não acabasse nunca). Ou atente para o encontro-surpresa reservado a Shosanna quando da visita a um proeminente restaurante chique, a fim de conhecer um dos mais brilhantes cérebros nazistas.

Se nada disso lhe bastar, simplesmente espere pelo glorioso final dentro do cinema, que arremata com chave de ouro um dos melhores filmes de 2009. É um final que deixa claro, aliás, quão pouco preocupado estava Tarantino com a questão da precisão histórica. Estamos, afinal, no campo da ficção pura, da celebração do cinema como construção de afetos – e há pouca gente com o estilo, a precisão e a qualidade do autor norte-americano em ação atualmente.

O DVD de locação da Universal é simples. O filme comparece com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, galeria com cenas inéditas ou estendidas (três ao todo, somando 11 minutos), o “filme dentro do filme” completo estrelado por Daniel Brühl (6 minutos, dirigido por Eli Roth, diretor amigo de Tarantino que faz o bastardo do taco de beisebol no filme) e mais quatro trailers.

– Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA, 2009)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Christoph Waltz, Brad Pitt, Mélanie Laurent, Diane Kruger, Michael Fassbender
Duração: 153 minutos

65 comentários em “Bastardos Inglórios

  1. Não diria que Tarantino é meu diretor favorito, mas está entre os atuais que mais me agradam, sim. E não apenas pela influência direta do cinema de Sergio Leone (que, este sim, é meu favorito absoluto), mas pela absoluta paixão pelo cinema que deixa explícita. Obviamente, discordo da aproximação entre pastiche e plágio (trabalho diretamente com isso na minha pesquisa de doutorado, poderia citar dezenas de diferenças), mas compreendo o seu raciocínio. Quanto ao Oscar, sinceramente, acho que só os críticos mais ingênuos podem considerar aquela festa como um prêmio. Aquilo é uma festa, ponto. Digo mais: Cannes, Berlim, Veneza e o circuito de festivais não ficam muito atrás, não. Obrigado pelos comentários e elogios.

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  2. CARO RODRIGO
    COMO DE PRAXE ADOREI A TUA CRITICA QUE LI ANTES DE VER O FILME. ACHEI O FILME UMA OBRA-PRIMA . TUDO QUE TA NA TUA CRITICA FECHA ,MAS TEM UMA COISA QUE NAO CONSEGUI ENGOLIR QUE E O FINAL OU SEJA O LANDA VIRAR A CASACA . PRA UM ROTEIRO QUASE PERFEITO ACHO QUE MERECIA UMA COISA MAIS CRIATIVA , MAIS INTELIGENTE PRINCIPALMENTE COM O PERSONAGEM MAIS INTERESSANTE QUE ELE TARANTINO CRIOU NO SEU ROTEIRO . A PROPOSITO, REVI POUCO TEMPO ATRAS UM FILME QUE AMO E ACHO QUE TEM UM ROTEIRO PRIMOROSO E QUE E GENIAL , ERA UMA VEZ NO OESTE . GOSTARIA MUITO DE SABER SE TU GOSTOU DESSA VIRADA DO LANDA ,TAO INFANTIL,PRA UM PERSONAGEM TAO INTELIGENTE COMO ELE.CONCORDAS OU ACHAS QUE FICOU OTIMO ASSIM. AGUARDO ANSIOSO TUA RESPOSTA . UM ABRACAO SANDER HAHN

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  3. Pessoas que discordam do final do personagem do Christoph Waltz, acho que existe certa lógica do raciocínio de vocês. Mas creio também que no raciocínio do Tarantino a lógica vem em segundo (ou terceiro plano). De qualquer forma, vamos nos colocar por um momento em 1944. Neste ano (ou melhor, desde 1942), todo o planeta sabia que a guerra estava decidida. A a Alemanha tinha perdido, era só uma questão de tempo. O Landa, esperto que só, sabia disso perfeitamente. E, sendo amoral como já havia demonstrado, era óbvio que viu no episódio a oportunidade perfeita para sair por cima e não acabar na prisão. Na minha leitura, ele até devia imaginar que não receberia tudo o que lhe havia sido prometido, mas o fato de ficar em liberdade já seria sair no lucro. De modo que eu considero a cena adequada, sim.

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  4. Pelo que entendi, a pergunta seria se em algum momento do filme ele havia deixado sinais de amoralidade. A resposta é sim. Por exemplo, durante a cena de abertura, em vários momentos ele se refere ao alto escalão nazista em tom de galhofa, como se considerasse todo mundo ali muito burro. Aliás, o comportamento dele em si é totalmente ambíguo, o tempo todo, de maneira sutil mesmo. Pelo tom de ironia sempre presente, você nunca percebe se ele está falando a verdade ou não.

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  5. Rodrigo

    Certissimo.Agora me ajudasse bastante .Entendi perfeitamente.Obrigado pela resposta rapida e certa.Por essas e outras que es o Cara.Valeu.Vou rever o filme .
    abraco
    Sander

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  6. Olá Rodrigo, Parabéns pelo texto!
    Tarantino, nunca foi um diretor de minha preferência, mas tenho que me render a este filme.Muito bom, na minha opinião o melhor do ano, e que atuação de Christoph Watz, Brad Pitt uma figurassa, gostei muito de Melanie Laurent, filme com uma fotografia maravilhosa. Enfim um filme de guerra bem diferente do tradicional.

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  7. O talento de Tarantino é inegável, e esse filme me parece ser a maior de suas realizações. Concordo com todos os elogios. Mas, às vezes, me pergunto a propósito de que ele coloca o seu talento. Deixe-me ver se consigo me explicar. Não acho que o cinema tenha, o tempo todo, o dever de fazer crítica a algo, mas acho que o cineasta tem o dever de ser o tempo todo crítico. E o fato é que Tarantino, por mais brilhante que tenha sido na direção deste filme, não fez nada além de mais uma história da 2ª Guerra Mundial em que os americanos do bem matam os nazistas do mal, num thriller (pouco convencional, é verdade) cuja finalidade não vai além do entretenimento puro e simples. Ou isso, ou não entendi algo. Posso estar soando pedante, sei lá, mas o que Tarantino fez neste filme, ao mesmo tempo, é fantástico e não me satisfaz. O filme é ótimo, sem dúvida – não quero dar a impressão de que penso o contrário -, mas, ao que me parece, é pueril demais para ser uma obra-prima.

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  8. Mesmo considerando Tarantino como um dos melhores cineastas da era moderna do cinema e ainda que considerando o filme um exemplo de esmero técnico artesanal, (qualidade muito ausente na maioria das produções dos ultimos 20 anos) posso deixar de apontar pelo menos uma falha inaceitável: Ficção é ficção, mas imaginar Adolf Hitler morrendo dentro um cinema de Paris é fantasioso e simplista demais. Nem a mente de Walt Disney ou de George Lucas conceberiam tal idéia, mas se eu não entendi o filme, me corrijam e podem até me chamar de bobo, mas francamente não deu pra engolir tal absurdo…Um abraço!

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  9. Para um crítico, o que é um grande filme para ser chamado de “cinema puro”?
    Tarantino é discípulo de Leone, mas o italiano fazia filmes com imagens e raros diálogos. E Tarantino é famoso por ser verborrágico.
    Ambos são ultra estilosos e têm obras de conteúdo “fútil” (faroeste, gangsterismo, violência farta, etc).
    O que Leone tinha a mais (e que faltaria ao Quentin Tarantino)?
    Entende o que quero dizer?

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  10. Sinceramente, não sei se entendo seu ponto de vista, Gilx. “Cinema puro” pra mim é qualquer história que perderia sua principal qualidade se contada em outra mídia. Não consigo enxergar uma maneira de transpor para livro ou teatro, por exemplo, a modulação de tensão que existe na sequência de abertura ou na enorme cena da taberna. Tarantino é um craque completo nessa arte sutil de modular a tensão. Nisso eu o aproximo de Leone, sim, pois este era outro mestre nesse aspecto (assim como Hitchcock). Claro que eles usavam ferramentas diferentes para atingir o mesmo objetivo (Leone usava os olhares dos atores, Tarantino usa as palavras).

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