Inimigos Públicos

[rating: 3.5]

Michael Mann é um dos poucos diretores norte-americanos em ação no circuito dos grandes estúdios de Hollywood a quem a folha de serviços prestados à arte cinematográfica garante o rótulo de “autor”. É fato que parte da crítica ainda lhe torce o nariz – graças ao seu passado como produtor de séries de TV –, mas um exame atento dos filmes que ele faz não deixa margem para dúvidas. Mesmo trabalhando dentro de filmes de gênero, cujos códigos e convenções rígidos deixam pouca margem para manobras autorais, Mann espalha suas impressões digitais pelo caminho. Em “Inimigos Públicos” (Public Enemies, EUA, 2009), Mann dá sua versão ultra-moderna do filme de gângster, num trabalho irregular, mas que leva a assinatura inconfundível de seu diretor.

“Inimigos Públicos” reconstitui, com a habitual atenção minuciosa para detalhes, os últimos meses de ação do gângster John Dillinger (Johnny Depp). Metido em sobretudos negros e chapéus idem e portando as características metralhadoras Thompson, Dillinger era o homem mais procurado dos Estados Unidos entre 1933 e 1934, quando a ação dramática toma vida. Mann segue-lhe os passos de perto, mostrando o desenvolvimento de sua paixão por uma garota meio francesa meio índia (Marion Cotillard, linda e irreconhecível após o Oscar por “Piaf”), e examinando suas reações de impotência e desespero enquanto o cerco policial se fecha cada vez mais, comandado pelo metódico e tenaz inspetor Melvin Purvis (Christian Bale).

Mesmo encenando com relativa fidelidade os eventos históricos, Michael Mann encontra espaço de sobra para espremer dentro do filme seu tema predileto: o pragmatismo profissional, obrigatório para qualquer um ser realmente bom naquilo que faz, em confronto com a ética pessoal. Trata-se de uma variação moderna (ou pós-moderna) do velho ditado bem conhecido por John Ford e outros grandes diretores de westerns: “a man’s gotta do what a man’s gotta do” (algo como “todo homem precisa fazer aquilo que precisa fazer”).

Todos os grandes personagens de Michael Mann são pragmáticos ao extremo. Lembre-se do policial vivido por Al Pacino, ou do bandido de Robert De Niro, ambos em “Fogo Contra Fogo”; ou do motorista de táxi interpretado por Jamie Foxx em “Colateral” (o matador de Tom Cruise, visto no mesmo filme, também serve). Todos são homens que põem a ética profissional na frente de tudo o mais. Não importa se esta ética bate de frente com sua visão de mundo, levando-o à ruína, como ocorreu com o verdadeiro MelvinPurvis– o inspetor cometeu suicídio em 1960, angustiado pelo rumo cuja carreira havia tomado dentro do FBI. Mesmo tomado pela tristeza, em 1934, Purves cumpriu seu dever até o fim. Não desistiu. Ele é um personagem de Michael Mann por excelência.

De fato, a atenção que Mann dedica ao desconforto crescente do personagem de Christian Bale perante as ordens crípticas do soturno diretor do FBI, J. Edgar Hoover (Billy Crudup), é desproporcional à sua importância no enredo. O diretor estava fazendo um filme sobre os últimos dias de John Dillinger (e o próprio gângster também é retratado como um profissional que, feita as escolhas, segue-as de maneira ferrenha, sem se importar com as conseqüências), mas “Inimigos Públicos” parece, muitas vezes, ser mais simpático ao dilema interior que começava a destruir a vida de Melvin Purvis do que às ocorrências que levaram Dillinger a encontrar seu destino, numa fria noite de 1934. O problema é que Mann não desenvolve muito bem essa faceta secundária do enredo.

De certa maneira, é fácil encontrar pontos de contato entre “Inimigos Públicos” e o thriller “Fogo Contra Fogo” (1995). Os dois filmes focalizam a caçada policial comandada por um policial extremamente dedicado a um ladrão de bancos muito competente; ambos encenam com realismo e brilhantismo técnico seqüências impecáveis de assalto a bancos e tiroteios, pontuadas por cenas de grande violência gráfica e impacto emocional; e ambos terminam com um final que dramatiza de forma estilizada um dos códigos fundamentais do gênero, que é o confronto final.

Embora a comparação entre os dois filmes seja injusta (em “Fogo Contra Fogo”, Mann teve muito mais liberdade para trabalhar a intimidade dos dois personagens, o que deu mais densidade à composição de ambos), este “Inimigos Públicos” acerta em muitos aspectos. O design de produção, por exemplo, nunca é menos do que maravilhoso desde o primeiro segundo de projeção – o naturalismo da locação da prisão invadida por Dillinger, com suas barras enferrujadas e paredes caindo aos pedaços, é magnífico –, e o desenho de som segue o mesmo conceito de realismo a todo custo, muitas vezes criando uma ambiência tridimensional rica que contribui ainda mais para o impacto das imagens como um todo. Basta notar a textura dos sons ritmados oriundos dos passos que os prisioneiros dão no pátio da prisão, na primeira cena; está lá, no som, toda a monotonia que homens como John Dillinger não suportariam jamais.

Mais uma vez recorrendo às câmeras digitais de alta definição e ambientando a maioria das cenas à noite (o que dificulta o trabalho de iluminação dos cenários, já que o equipamento digital é mais sensível), Mann dá trabalho extra ao diretor de fotografia Dante Spinotti. A sutileza do trabalho de Spinotti merece destaque especial. Observe, por exemplo, como ele filma o escritório de J. Edgar Hoover: a mesa de trabalho impecavelmente limpa, brilhante e iluminada, enquanto o detetive, sentado logo atrás, está sempre mergulhado em sombras, sua face se transformando numa charada sombria. Neste caso, a fotografia poupa trabalho ao ator Billy Crudup, que não precisa fazer nada para expressar o caráter dúbio e sinistro do personagem. A luz já faz tudo por ele.

Outro ponto positivo é a economia de diálogos. Nem Dillinger e muito menos Purvis são homens de falar muito. Na única cena em que os dois se encontram, o diálogo é deliberadamente críptico e cínico; na verdade, Purvis fala uma única frase. Portanto, todo o tratamento singular ao tema central do filme está no subtexto. Michael Mann enfatiza isto criando uma encenação discreta: closes fechados nos rostos dos atores, que se comunicam mais com olhares do que com palavras. Nesse ponto, palmas para todo o elenco principal. Johnny Depp deixa de lado os gestos largos e o fanfarronismo habitual com que encarna anti-heróis como Jack Sparrow; Christian Bale é o próprio semblante do profissional pragmático  taciturno; e Marion Cotillard, embora pouco apareça, dá a delicadeza necessária para que “Inimigos Públicos” não se transforme num espetáculo de virilidade e misoginia ao estilo dos faroestes de John Wayne.

Claro, não é um filme perfeito. Embora o uso de canções na trilha sonora seja impecável (a entrada em cena de Melvin Purvis é um momento particularmente excitante, e é curioso traçar um paralelo entre esta cena e um momento semelhante de “O Baile Perfumado”, sobre o John Dillinger nordestino, Lampião), o score original de Elliot Goldenthal bate na trave insistentemente, recorrendo a melodramáticas melodias líricas de cordas a cada momento de intimidade entre Dillinger e sua namorada. De forma geral, aliás, sempre que ela entra em cena o ritmo cai, com muitas cenas convencionais – os amantes se enrolando na cama, fazendo juras de amor eterno, etc. – que parecem retirados de filmes inferiores. Mesmo assim, cabe a Marion Cotillard a honra de protagonizar a cena de encerramento, em que um dos agentes de Melvin Purvis deixa o recado final de Michael Mann ao espectador. Você sabe: todo homem precisa fazer aquilo que precisa fazer.

O DVD da Universal é simples e traz apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Inimigos Públicos (Public Enemies, EUA, 2009)
Direção: Michael Mann
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup
Duração: 140 minutos

24 comentários em “Inimigos Públicos

  1. Estou louco pra ver esse filme, quando será o lançamento? Ontem assisti ao “O Gato de Nove Caudas” e gostei bastante. Onde você conseguiu “Tenebre” e “Quatro Moscas No Veludo Cinza”?
    Baixou pela internet ou comprou os dvds importados?

    Curtir

  2. Lançamento na próxima sexta. Os filmes de Argento me foram passados pelos amigos da UFPE, em formato AVI.

    Uma sugestão: me procura no Orkut, Facebook ou Twitter (links no menu do site) para poder conversar, pois através dos comentários é bem mais complicado, sem falar que não tem nada a ver com o filme aí de cima.

    Curtir

  3. há um tempo atrás um amigo era fanático por Michael Mann e eu não gostava. Dei uma chance e revi todos os seus filmes e percebi que ele tinha razão. O Informante, Miami Vice e Heat são quase obras primas. Principalmente O Informante. Aliás State of Play (maravilhoso) tem muito d informante vc não acha Rodrigo?
    Vejo Inimigos Públicos amanhã.

    Curtir

  4. Fazia tempo que não saia do cinema tão satisfeita, pode ter sido falta de sorte de não ter ecolhido os melhores filmes nas poucas vezes que fui nos últimos dois anos… E embora eu não entenda nada de som, compreendo a “ambiência tridimensional” que vc fala como marcante… a escolha de Johnny Depp (ai sou suspeita rsrs) um grande acerto e também das músicas….

    Curtir

  5. Pingback: Anônimo
  6. Gostei do filme. Adorei as atuações de Bale e Depp, e os coadjuvantes tb foram ótimos. Infelizmente não está entre os melhores filmes de gangsters q eu já vi.

    ps.: achei Marion Cotillard feia, olho saltado. Tava melhor como Piaf.. =D

    Curtir

  7. Atuação perfeia de Deep e Bale. Marion foi “boazinha” no pape de Billie, mesmo achando ela uma atriz fantastica, impecável em Piaf, mas sinceramente, acho que faltou algo na historia! Seu eu já não tivesse ouvido falar de Dillinger, não etenderia por que ele foi tão famoso e muito menos porque foi considerado um “heroi do povo”, foi simplesmente um ladrão de bancos carismatico, esperto e vaidoso no filme e Deep soube passar essas caracteristicas de Dillinger perfeitamente, mas acredito que Dillinger foi mais que isso e 1930 tambem foi mais do que foi apresentado no filme…

    Grande produção, trilha…tudo perfeito, mas tinha que ser mais que perfeio, afinal é Michael Mann e Johnny Deep! Mesmo assim é o que há de melhor pra se assistir no momento…

    Ansiosa pra estreia de Alice…

    Curtir

  8. Gostei mas achei que poderia ser melhor. Poderia ter mostrado mais o contexto sócio/político da época…sei lá…só sei que faltou. Mas é um ótimo filme. E Bale e Depp nota 10 ambos. Só poderiam tr dialogado mais. Começa muito bm, depois acho que cai um pouco e se levanta novamente na meia hora final (a cena do cinema é muito boa). Não achei o final piegas como muita gente falou. Como a Vanessa disse é uma das melhores coisas no cinema atualmente.

    Curtir

  9. Eu gostei da divisão da história entre os últimos meses de vida do John Dillinger e a ascensão do FBI. Acho que o roteiro era um material perfeito pro Michael Mann e ele soube aproveitar isso ao máximo. O filme tem uma técnica excelente, um elenco bom demais.

    Curtir

  10. maravilhoso!!! tecnicamente perfeito!!!

    discordo totalmente com relação a Marion Cottilard, ela está linda e atuando muito bem

    mais uma vez o pragmatismo trabalhístico está presente, principalmente no personagem de Bale.

    Curtir

  11. Gostei muito da sua crítica, Rodrigo. Como sempre, vc coloca as palavras certas daquilo que a gnt só sente e não consegue descrever. rsrs
    Eu achei o filme simplesmente espetacular! Tudo bem que sou suspeita, pois sou fã de Michael Mann. Fotografia lindíssima, reconstituição de época maravilhosa, história emocionante, trilha sonora divina! Quê mais? Depp inspiradíssimo, Marion linda, Bale sem comprometer. Perfeito. Pra mim é nota 10.

    Curtir

  12. O filme vale pela reconstituição da época e pela trilha sonora (afinal, não é todo dia que se ouve Billie Holiday no cinema). Mas, para quem gosta mesmo de música é melhor assisitir ao maravilhoso filme japonês A PARTIDA (o melhor lançamento do ano que foi solenemente ignorado pela critica), cuja trilha sonora é formada pelos três “Bs” da música universal (BACH, BEETHOVEN e BRAHMS) Aliás, RODRIGO, você está nos devendo uma critica sobre esse belo filme “japa”!!!

    Curtir

  13. SPOILER

    Assistiu sim, Yanna. Isto é fato histórico. Claro que a forma como Michael Mann encena a ação que se segue (aliás, isso me ocorre agora, resultando numa cena muito semelhante à de “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”), quase como uma auto-imolação, não passa de licença poética.

    Curtir

  14. Rodrigo,vc reparou numa cena do filme que é bem influenciada pelo estilo do Sergio Leone?A cena em que Dillinger espera o sinal abrir,há closes no rosto de todos dentro do carro,no guarda do lado de fora,a tensão aumenta.O que acha?

    Curtir

  15. Lauro, eu escrevi bastante sobre isso na minha tese. Nos filmes atuais, desde a década de 1960, a tática de filmar closes de rostos em momentos de grande tensão se tornou bem comum. E com certeza Michael Mann tem um estilo próximo a Leone (embora a predileção dele por lentes teleobjetivas seja uma diferença importante). Gosto muito dos filmes dele. Aliás, este aqui talvez seja um dos que menos me impressiona… Abraços!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s