500 Dias com Ela

[rating: 3.5]

Comédias românticas sobre homens com dor-de-cotovelo depois de levarem um belo pé na bunda não são exatamente um fenômeno recente em Hollywood. Só para citar um exemplo, o delicioso “Jejum de Amor” (1940), de Howard Hawks, já tratava desse tema. A diferença é que, mais ou menos a partir de meados da década de 1990, o ambiente social passou a aceitar melhor a idéia de ver um homem rastejando explicitamente atrás de uma garota. “500 Dias com Ela” (500 Days of Summer, EUA, 2009) explora esse filão, reforçado por diálogos espertos, muito molho de cultura pop e uma espécie de melancólica desencanada.

Decerto “500 Dias com Ela” vai fazer a festa de marmanjos que curtiram ressacas amorosas assistindo a filmes como “Procura-se Amy” (1997), de Kevin Smith, e “Alta Fidelidade” (2000), de Stephen Frears. Esses dois longas-metragens são referências óbvias do longa-metragem de Marc Webb: ambos têm um timing de comédia filtrado por um pendor à melancolia bem-humorada, possuem trilhas sonoras lotadas de canções pop interessantes (tanto dentro quanto fora da diegese) e têm protagonistas que são homens crescidos na aparência, mas se comportam como adolescentes que precisam urgentemente amadurecer.

“500 Dias com Ela” consiste num filme milimetricamente planejado para virar objeto de cultura de uma platéia seleta de sujeitos sensíveis com um toque de timidez e alma feminina. A turma cuja adolescência rolou na década de 1980 vai encontrar momentos especialmente tocantes, como a festa em que o herói canta “Here Comes Your Man” (Pixies) num karaokê (Jesus & Mary Chain, The Smiths e PIL também estão na trilha sonora). Para espectadores que desconhecem as duas obras de referência, pode funcionar muito bem. Para os demais, é um filme de verão bacana (sem trocadilho com o título original), e só.

O enredo segue o ponto de vista de Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), publicitário cujo trampo consiste em escrever slogans de auto-ajuda bem otimista para estamparem cartões de aniversário. Ele curte rock inglês, tem um melhor amigo bem nerd (Geofrey Arend), se acha incapaz de seduzir uma mulher, e está claramente encharcado de carência sexual e afetiva. Aí ele conhece Summer (Zooey Deschanel), a nova estagiária do pedaço, na agência em que ele trabalha. O filme documenta os 500 dias em que o romance entre os dois durou, dedicando tempo igual para bons e maus momentos do casal.

Como filme, parece ter sido dirigido por um designer gráfico. A narrativa é não-linear e dividida em capítulos; cada capítulo consiste num dia do relacionamento entre Tom e Summer, só que esses dias estão fora da ordem cronológica. O diretor recorre a todo tipo de técnica pintosa de edição para acelerar a narrativa e injetar um molho pop-cult, e isso inclui telas divididas (em que uma ação corresponde à realidade e outra à fantasia do protagonista, o que é talvez a melhor sacada de todo o filme), direção de arte repleta de detalhes a ponto de sufocar os atores, muitas intervenções gráficas na película, ótimos diálogos cômicos e até um número musical.

Se o roteiro não chega a ser inovador e muito menos sensacional, é correto, respeita a caracterização dos personagens e tem piadas ocasionais realmente boas. Por outro lado, incorre em erros tradicionais do gênero cômico-romântico, incluindo um “melhor amigo” do protagonista que é irritante e desnecessário (como de praxe). Vamos combinar o seguinte: “500 Dias com Ela” é um filme curto, engraçado e esperto (talvez um pouquinho além da conta), feito para gente jovem. Quem se encaixa no padrão e já levou um pé na bunda, tem a faca e o queijo na mão para criar empatia com o personagem principal – ou com a confusa e engraçadinha Summer – e se encantar. O casal principal tem química e se sai bem. E isso é um elogio.

O DVD da Alpha Filmes traz apenas o filme, com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mas sem extras.

– 500 Dias com Ela (500 Days of Summer, EUA, 2009)
Direção: Marc Webb
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Moretz
Duração: 95 minutos

14 comentários em “500 Dias com Ela

  1. Orra, já tava com saudade das suas críticas – novas. Achei esse filme, de modo geral, feito pra quem detesta Transformers mas também não compreende Mizoguchi, Renoir… etc
    Abraços.

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  2. bom, já eu amei o filme. a delicinha do ano. com relação a opinião do paulo, não acho que uma pessoa que venha a gostar/adorar este filme, não só não possa como não entenda “filmes de arte”.

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  3. Queria ver o que você ia dizer da divisão de telas realidade/expectativas 🙂
    bom, eu gostei muito, mas confesso que sou adepta de comédias românticas que não têm no seu roteiro toda a receita principal.
    Pra mim, “500 dias com ela” pode ser considerado o “Juno” desse ano.

    Ah, Rodrigo, uma dúvida: tem alguma razão técnica pela qual o Box colocou Avatar 3D dublado? ou foi só falta de noção mesmo?

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  4. Nathália, o gerente do Box explicou que a decisão foi nacional, tomada pela diretoria de Marketing da empresa. Todos os complexos do Box no Brasil exibirão em 3D apenas cópias dubladas. Foi uma decisão estratégica da empresa. (aliás, espero publicar um comentário pessoal sobre essa questão legendas/3D, no Blog do Editor, ainda no final de semana).

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  5. Concordo com Natália. Saí do cinema com a sensação de que ‘500 dias com ela’ é o ‘Juno’ deste ano. E, embora não conheça as duas comédias a que vc se refere, Rodrigo, confesso que não compreendi bem quando vc diz que o filme é ‘feito pra gente jovem’. Tudo bem que esse certamente é o público-alvo mas me parece que uma obra de qualidade transcende faixas etárias, né não ? E mesmo os hoje adultos que já curtiram “The Smiths” (não é que colocaram duas das minhas favoritas no filme ?) podem se agradar do invólucro pop da fita, mesmo embalando uma história já conhecida.
    Ah ! E pra quem só gosta de rock pesado até que seu conhecimento de rock mais melódico é considerável Rodrigo! Não reconheci, embora goste de várias músicas, do Jesus & Mary Chain. Vc tem notícia sobre se a trilha vai ser lançada ?
    Grande abraço !

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  6. Tem filmes que a crítica incensa e eu não vejo a menor graça: um deles é “Juno”. Os outros são os que fazem parte da série Star Wars. Mas qdo a gente diz que não gosta a maioria olha esquisito. Como se fosse obrigado gostar.
    Respondendo a pergunta: eu acho “Juno” uma farsa. E a roteirista “doidinha” parece que se apagou. Pelo menos o último filme roteirizado por ela ficou bem longe de qlq coisa parecida com o que foi a babação em cima de Juno. Vá entender…

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  7. Sim, tenho que admitir: o filme funciona e é bem melhor do que essas comédias românticas pegajosas com Cameron Diaz ou Jennifer Aniston que aparecem todo ano. Apenas destaco que aqueles com um pouco mais de quilometragem já viram esse filme antes (OK, acabo de me chamar de velho, algo não muito recomendável no dia 31 de dezembro).

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  8. altos Bergmans no filme. Tem Persona, tem o sétimo selo!
    assisti ontem e achei bem espertinho. =)

    e paulo, qual foi a sua em: ‘detesta Transformers mas também não compreende Mizoguchi, Renoir… etc’?

    abraço, rodrigo

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  9. axo que o que me atraiu neste filme foi apenas as referencias musicais.
    em dialogo inteligente para comédia romântica, a série gilmore girls pra mim é um marco. tao rapidos os dialogos e tao inteligentes que até assustam! se nao conheces e puder dá uma sacada, é super interessante. quando alguem cita um dialogo inteçigentem fico com gilmore girls. tem tantas referencias pops que voce se perde.

    bjos

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