Garota Infernal

[rating: 2]

Toda banda de rock que faz muito sucesso com o álbum de estréia conhece perfeitamente a maldição do segundo disco. Não importa o quanto seus integrantes dêem duro, o resultado sempre parecerá inferior – e na maior parte do tempo é inferior mesmo, porque o grupo semi-iniciante simplesmente não sabe lidar com as pressões oriundas do sucesso. O híbrido fracassado de horror com comédia teen “Garota Infernal” (Jennifer’s Body, EUA, 2009) pode ser interpretado desta maneira, substituindo-se a banda de rock pela roteirista Diablo Cody. Ou, para muita gente, o filme pode muito bem ser a prova da falta de talento de Cody.

A história de Diablo Cody é uma espécie de versão pós-moderna do conto de fadas da Cinderela. Com pouco mais de 20 anos, a garota magricela e tatuada do insípido estado de Minesotta (EUA) se mudou para Los Angeles, foi morar com o namorado que conheceu pela Internet e ganhar grana trabalhando como stripper num boteco de terceira, enquanto brincava de escrever roteiros nas horas vagas. Um desses roteiros virou “Juno” (2007), comédia independente que alçou o nome de Diablo Cody ao primeiro time de Hollywood. Ela ganhou um Oscar pelo trabalho, uma perfeita tradução audiovisual da adolescência no século XXI, com diálogos afiados e senso de humor mordaz.

Já na época, Cody era acusada de ser música de uma nota só. Ela não saberia lidar com outro tipo de material que não incluísse versões ficcionalizadas dela mesma (“Juno” de fato parece uma coleção de momentos autobiográficos da adolescência de uma menina durona-mimada). Por isso era importante que o segundo trabalho a carregar a assinatura de Diablo Cody fosse um filme… bem, diferente. Acontece que “Garota Infernal” não é tão diferente assim, pois lida com o mesmo universo teen-com-tatuagens-e-piercings-e-maquiagem-negra-em-torno-dos-olhos. A diferença está no gênero de referência: sai a comédia adolescente, entra o horror com pinceladas de humor negro.

Nesse deslocamento de gêneros, Cody se deu mal. Muito mal. “Garota Infernal” não é apenas uma coleção mal-ajambrada de clichês toscamente organizados em torno de uma narrativa previsível e monótona, mas elimina quase que completamente o maior charme do roteiro de “Juno”, que era o instantâneo preciso da juventude confusa – precocemente desenvolvida em seus aspectos sexuais, atrofiada do ponto de vista emocional – do século XXI. O maior mérito do filme anterior, dirigido por Jason Reitman, era a saudável recusa aos clichês dos filmes adolescentes. Os mesmos clichês que emprestam a “Garota Infernal” um ar de nostalgia artificial, e tornam seus personagems absolutamente desinteressantes e caricaturais.

Uma direção menos burocrática poderia melhorar a situação, mas a cineasta Karyn Kusama (do terrível “Aeon Flux”) está longe de ter a inventividade visual de Jason Reitman, de forma que o longa-metragem amontoa mais uma penca de vícios narrativos. A trilha sonora repleta de ruídos abstratos em volume hiper-real, apenas para realçar a sensação de medo; a música punk de butique; as cenas medrosas de assassinato com sangue em tripas (sempre filmadas em contraluz); e, por fim, a insistência em filmar a beleza física da atriz Megan Fox com a maior vulgaridade possível, a partir de planos-detalhes de lábios carnudos, olhos ultra-azuis, pernas bem torneadas e barriga lisinha, fazem do filme um autêntico programa de índio.

Vale mencionar, também, que a aparentemente esperta reviravolta final tem pelo menos um antepassado recente óbvio e ululante: o pouco visto thriller sobrenatural “Possuídos” (1998), que utiliza exatamente o mesmo truque – uma conexão não-prevista e surpreendente entre a narração em off inicial e o epílogo do filme, que dá ao todo uma nova perspectiva – de maneira bem mais eficiente e interessante. Em outras palavras, “Garota Infernal” é um filme de horror que não tem sustos, uma comédia que não faz graça e um drama adolescente sem nenhum personagem interessante.

O DVD da Fox contém o filme em duas versões (normal de cinema e estendida, com alguns minutos a mais de cenas gore). O formato de imagem (wide anamórfica) é correto, assim como o áudio (Dolby Digital 5.1 e DTS). Os extras incluem um featurette de bastidores, cenas cortadas, erros de gravação e dois comentários de áudio, um reunindo a diretora e a roteirista, e outro apenas com Kusama.

– Garota Infernal (Jennifer’s Body, EUA, 2009)
Direção: Karyn Kusama
Elenco: Megan Fox, Amanda Seyfried, Johnny Simmons, Adam Brody
Duração: 102 minutos

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7 comentários em “Garota Infernal

  1. Rodrigo

    A péssima Megan Fox já provou que nãoe stá nem aí para a carreira. É o segundo filme (o outro foi Transformers 2) que ela é mostrada de forma vulgar. Ela deve gostar né?

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  2. Agora você me desencorajou, Rodrigo… tava até a fim de ver a nova empreitada de Megan “eu quero ser Jolie´´ Fox. Pensei que fosse ao menos divertido. Bem, vou acabar assistindo, depois comento.

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  3. É um terrir que não deve ser levado muito a sério,o papel foi perfeito para Megan fox,e os dialogos são interessantes e engraçados.Desligue-se um pouco e divirta-se!

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  4. Apostei no nome da roteirista e terminei perdendo quase 2h do meu sábado. Que eu tinha certeza que a qualidade não era a trazida em Juno, é verdade. Mas que era ruim desse jeito, podia apostar que não. Graças aos downloads, essas decepções cinematográficas seguem uma escala menor. Imagina, ter que ir na locadora, pegar o filme, pagar o filme, odiar, e ainda ter que voltar na segunda, até às 20h pra entregar? Ah, a vida moderna.

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