Arrasta-me Para o Inferno

[rating: 3.5]

A maneira como o público recebe cada novo lançamento de um filme de gênero tem muito a ver com as safras recentes deste mesmo gênero. Essa característica precisa ser levada em consideração, especialmente, quando um novo exemplar cai nas graças simultâneas de público e crítica, como aconteceu com “Arrasta-me Para o Inferno” (Drag me to Hell, EUA, 2009). De modo geral, o longa-metragem foi saudado como o tão esperado retorno de Sam Raimi ao gênero híbrido de horror gosmento e comédia que o consagrou no início da carreira. O fato é que, embora tenha momentos ocasionais assustadores e divertidos (ou simultaneamente ambos, em pelo menos um par de cenas), o título está longe, longe, longe de merecer o rótulo de obra-prima que boa parte da crítica norte-americana lhe grudou.

“Arrasta-me Para o Inferno” soa, de fato, como uma espécie de passeio no parque para um cineasta que passou uma década inteira enfiado até o nariz numa franquia (“Homem-Aranha”) que lhe transformou em cineasta rico e poderoso, ao mesmo tempo em que lhe restringia severamente os movimentos criativos. O fato de o roteiro deste filme estar pronto desde 1992 (foi escrito mais ou menos na época em que Raimi encerrou a trilogia “Evil Dead”, com a qual guarda semelhanças inquestionáveis) mostra-se bastante significativo, tanto quanto a quantidade maciça de efeitos digitais computadorizados que Raimi utiliza para construir visualmente as seqüências de exorcismo e aparições fantasmagóricas que pontuam a ação.

A chave para compreender as virtudes e (principalmente) os problemas de “Arrasta-me Para o Inferno” talvez esteja nos logotipos da produtora Ghost House (propriedade do próprio Raimi) e do estúdio Universal, apresentados logo no início da projeção. O primeiro é uma legítima caveira 2D canastríssima, bem na linha dos trabalhos de horror B que William Castle fazia nos anos 1950-60; o segundo consiste no logo original que a Universal utilizava no início dos anos 1980, quando Raimi começou no cinema, fazendo autênticos festivais de sangue e tripas à base de truques de maquiagem, próteses de borracha e efeitos em stop motion. Indo direto ao ponto, um espectador atento percebe, antes mesmo de o filme começar, que “Arrasta-me Para o Inferno” tenta emular a experiência dos filmes B baratos, de horror e ficção científica, que se via nos drive-ins de antigamente.

Em espírito, trata-se da mesma operação realizada por Robert Rodriguez em “Planeta Terror” (2007). E Sam Raimi cometeu o mesmo engano fatal, ao decidir declinar do uso de efeitos mecânicos e/ou práticos à moda antiga para mergulhar de cabeça no CGI. O resultado é um pastiche nitidamente falso da sensibilidade gore que o diretor desejava capturar; um horror B com gosto de plástico, que se torna cada vez mais histérico e sem graça à medida que o filme se aproxima do final. O pior de tudo é que algumas das cenas supostamente de maior impacto – como aquela que mostra um homem cuspindo um gato inteiro pela boca, e o manjadíssimo “final-surpresa” – são diluídas por efeitos digitais de qualidade no mínimo duvidosa.

Os problemas não param nos efeitos digitais. Há problemas, por exemplo, na construção de personagens coadjuvantes, como Clay (Justin Long), o noivo da protagonista Christine (Alison Lohman). A função do rapaz é absolutamente nula, em termos de narrativa; ele simplesmente poderia ser eliminado do filme, sem qualquer prejuízo para a trama. Está ali, aparentemente, para permitir que Raimi insira alguns diálogos explicativos entre ele e a noiva (o que denota falta de confiança no próprio roteiro, escrito pelo diretor com o irmão Ivan) e, talvez, para angariar dinheiro à produção, já que o personagem é freqüentemente mostrado usando notebooks e acessórios da Apple (vale lembrar que o ator é garoto-propaganda da marca na vida real, o que deixa o merchandising ainda mais explícito).

Para piorar tudo, Clay é uma nulidade também como personagem, um bananão sem interesse. Isso prejudica seriamente a empatia do público com Christine, ambiciosa funcionária de um banco que recusa o prolongamento de um empréstimo a uma velha cigana (Lorna Raver) para conseguir uma promoção no trabalho. O que se segue é o lançamento de uma maldição que põe um poderoso espírito do mal no encalço da moça. Infelizmente, a personagem mais interessante – a velha cigana, filmada em deliciosos e exagerados planos-detalhes que enfatizam o grotesco da criatura – passa pouco tempo em cena.

Se “Arrasta-me Para o Inferno” não chega a ser uma decepção, é graças ao primeiro ato da história, filmado com perfeito controle de câmera – entendemos através dos cortes e composições visuais o drama pessoal que leva Christine a agir como uma imbecil – e uso generoso do desenho de som hiper-real, que alterna silêncio e ruídos naturais amplificados em doses cavalares para criar momentos de pura tensão, como o aterrorizante dia que Christine passa sozinha em casa, acompanhada apenas por sombras furtivas.

Além disso, a cena do ataque da velha no estacionamento e a seqüência do jantar na casa dos sogros da moça são duas jóias do horror cômico para ninguém botar defeito, daquelas que você toma susto e ri ao mesmo tempo. Com mais ousadia no terceiro ato, menos CGI e personagens mais irreverentes, “Arrasta-me Para o Inferno” poderia ser um filmaço; do jeito que está, é apenas um trabalho OK de um diretor mais capaz do que isso.

O DVD da Universal é simples e traz o filme com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O extra mais importante é um documentário (35 minutos) sobre a produção.

– Arrasta-me Para o Inferno (Drag me to Hell, EUA, 2009)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao
Duração: 99 minutos

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35 comentários em “Arrasta-me Para o Inferno

  1. Gostei do filme assisti agora a pouco, muito bom, para quem gosta de terror sobrenatural é o filme indicado… os efeitos sonoros são exelentes faz você arrepiar em certas cenas… Não estou adiantando nada mais o final é chocante…. Recomendo!

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  2. Acabei de assistir….olha que fui preparada, pois conhecia o estilo de Raimi, mas não ri como esperava….achei o roteiro vazio e manjaderrímo (eu sei que o argumento da maldição é um clássico no gênero, mas poderia ser um pouquinho mais original, só um pouquinho…..rsrssr) A atriz é antipática (saudades de Bruce Campbell – ele tem a feição exata da “canastrice ” necessárias para um papel em filmes assim….) Os efeitos deixam, e muito a desejar…..ou é trash (o que funcionária) ou é algo bem feito (o que não conseguiu fazer…) E o final “surpresa”, na verdade não existe…..Para mim, bem razoável, puxa…Rápida e Mortal me pareceu melhor…srrsrsrsr. Mas, gostei do título: “Duas entradas para ‘Arrasta-me para o inferno’…rendeu-me boas risadas”!

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  3. rodrigo, que cara chato! (rs) tem que falar “vai logo, vale zuper a pena” ou “não, não perca o seu tempo”. eu gosto de filmes de terror. mas acho que vou esperar passar no telecine.

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  4. ótimo filme
    concordo com relacão aos efeitos. Mais acho a função do sempre competente Justin Long válida. Faria algo diferente no final. Para os mais destraídos, pode impactar a “surpresa” manjada do final. Além do humor característico de Sam Raimi, o filme tem um par de cenas brilhantes. Não preciso dizer quai são.
    Eu recomendo muito.

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  5. Caramba, me diverti muito vendo o filme, a atmosfera é perfeita os efeitos sonoros idem. Quanto a atriz, gostei bastante dela. O CGI ficou um tanto exagerado realmente, diminuindo o impacto que poderia causar uma boa maquiagem e gosma falsa. Sam Raimi realmente tem total controle sobre o gênero e ritmo do filme.

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  6. O filme é divertido. Nada mais e nada menos do que isso. As vezes ficava um pouco cansado das cenas de susto que ficavam mais por conta do som do filme do que das cenas propriamente ditas. Toda a história já é bem manjanda: maldições ciganas, demônio querendo levar a protagonista para o inferno… Mas o humor irônico e o exagero das cenas arrancam uma boa dose de risos. Principalmente nas cenas bizarras e surreais como a da cabra falante…Embora eu ache que tem cenas bem desnecessáiras, como naquela em que a protagonista luta com o lenço da falecida cigana… Fala sério… Já não era suficiente a cabra falante? rs… Os efeitos digitais realmente não são dos melhores. Não acho que a personagem seja antipática. Ela só soa como alguém comum demais. Mas confesso que fiquei com pena dela… Com certeza não é uma obra-prima, mas serve para distrair. Agora, quem entrar no cinema achando ver algo bem elaborado e novo, pode se decepcionar…

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  7. Acabei de chegar do cinema e simplesmente amei Arrasta-me para o inferno. Não conheço outros filmes do Sam Raimi, a exceção dos aranhas, mas fiquei maravilhada com esse. Fui com grandes expectativas e posso dizer que fiquei satisfeitíssima. Sem pretensões de ser levado a sério, o filme conquista com seu jeito trash, humor irônico e bons sustos. Genial.

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  8. ********** SPOILERS *************

    Gostei muito do filme, mas achei o final um pouco covarde. Sam Raimi optou por um desfecho moralista, que tira um pouco da interpretação do espectador. Caso Cristine tivesse mandado o Stu para o inferno para conseguir subir na carreira, da mesma forma que negou o empréstimo a cigana, o filme ganharia em termos de crítica a individualidade da sociedade. E ainda teria uma brincadeira com o título: afinal, depois de ter passado por cima de duas pessoas para conseguir vencer na vida, a protagonista já não estaria no inferno?

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  9. Assisti ” A Morte do Demônio” quando era guri e fiquei sem dormir direito uns 3 dias! rsrsrsrs Clássico! Amanhã vou ver “Arrasta-me Para o Inferno”. Sinceramente, não parece ser muito bom.

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  10. Eu achei esse filme com um quê meio nostálgico, especialmente em sua concepção visual. Apesar de ser irregular, acaba sendo uma obra surpreendente, especialmente em seu final – fato que me agrada muito!

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  11. O filme é exatamente o esperado. Vale pelos sustos acompanhados do som amedrontador (nossa… fazia tempo que não escrevia essa palavra). A combinação de imagem e som neste filme é bem forte. Não é uma obra prima… mas é bacana.

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  12. nao achei um filme ok, é sim um filmaço, as cenas são de dar arrepio em qualquer um ! o filme nao chega nem proximo a decepção, é bem criatico. Sem medo de abraçar as convenções do gênero (em certo instante, vemos Christine escavando uma sepultura durante a noite, sob forte chuva e relâmpagos constantes),o filme é ainda beneficiado por um desfecho que, mesmo tremendamente previsível e como voce disse ai majadissimo, é eficaz e impactante.
    o direitor compreende que os sustos não vêm de efeitos digitais bem realizados e CGI mas de climas bem estabelecidos de tensão, algo no que ele é mestre, com a computação gráfica sendo apenas mais uma ferramenta, não o astro, mostrando isso principalmente por sua predileção por efeitos práticos.
    Provando sua competência no gênero que o consagrou, Sam Raimi explora com sabedoria a construção dos personagens e da trama que os cercam, amarrando a narrativa, tornando-a coerente e explorando os muitos finais possíveis para esse novo clássico do gênero.
    NA MINHA OPINIÃO, EXTREMAMENTE RECOMENDADO

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  13. Acabei de assistir ao Filme e definitivamente, o filme é péssimo…
    Para quem já assistiu, O exorcista, Espiritos, Os estranhos, O Ilumindado, dentre outros, não pode considerar no mínimo razoavel esse filme, ele é terrivel, as cenas que teriam a inteção de provcar susto não surtiram efeito, foi de muito prache, a história ridicularmente previsivel do começo ao fim, as cenas terrivelmente mal feitas, em pleno século XXI não há necessidade de se fazer um filme com cenas tão mal elaboradas, a cena em que os olhos da velha pulam foi ridicula, quem assistiu ao Albergue sabe o que é um olho de verdade…
    A atriz é pessima, nos momentos em que ela deveria mostrar talento, ela falhou, sem segurança nas cenas, o exorcismo foi um dos piores que eu ja vi, não vejo pontos positivos sinceramente…
    Se ainda assim quiserem ver o filme, fiquem em suas casas e vejam pelo computador, não paguem ingesso de cinema, não vale a pena… Ainda bem que hoje eu vi “Se beber não case” pelo menos isso valeu a pena…

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  14. Eu assisti, e não sei de tive um lapso de memória, mas me pareceu que já tinha visto a história do filme, tenho 29 anos, e lembro de ter visto muitos filmes B, alguém pode me dizer se estou correto, se existe algum filme com história parecida com a deste filme?

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  15. só pra deixar registrado que eu gostei bastante do filme, mór divertido. e olha como eu sou lerdo, eu entendi errado o final.

    SPOILER

    na hora pensei (mesmo com o namorado mostrando o botão na minha cara) que ela foi levada para o inferno mesmo tendo conseguido passar a maldição pra cigana. ou seja, não teve jeito, o dito cujo queria ela mesmo. só em casa eu fui perceber que não, que ela não conseguiu passar adiante. e que talvez ela tivesse conseguido se salvar.

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  16. Um ótimo filme para quem gosta de filme b, não espere que vc irá assustar com o filme, porque ele foi produzido pelo sam raimi, quem assistiu evil dead sabe q o filme tem várias referencias a ele, alías, até o homem aranha 2 tem referencia de evil dead :lol:! Anyway, bom filme, não é para susto e sim para quem gosta do genero trash+ humor negro! e pelo jeito que acabou….irá ter uma continuação melhor que a original, se brincar, sam raimi irá fazer que nem o evil dead 2, um remake do original, mas bem diferente e com um personagem bem mais loko!

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  17. Bom, eu gostei de quase tudo no filme; acho que ha um ou duas cenas descartaveis e que os efeitos alias em uma dessas cenas, foi tão ruim que estragou tudo. Mas de resto, achei tudo muito bom; confesso que não eserava nada desse filme, mas acabei me surpreendendo. Não achei Justin Long sem função; achei que ele deu um toque de romance teen, que com certeza é um dos alvos do diretor. Adorei a atriz tambem. Fazia muito tempo que não via um filme de terror americano assim! Recomendo!

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