Anjos e Demônios

[rating:3]

Quem acompanhou com algum grau de interesse (mesmo que pequeno) a celeuma envolvendo o sucesso do romance “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, sabe perfeitamente bem que o enredo de “Anjos e Demônios” (Angels & Demons, EUA, 2009), primeira aventura protagonizada pelo simbologista Robert Langdon, antecede a famosa história envolvendo a Mona Lisa e o suposto casamento de Jesus Cristo e Maria Madalena. Na versão cinematográfica da obra, contudo, a trama foi reordenada cronologicamente e ocorre após os acontecimentos vistos no longa-metragem de 2006. Esta é uma das muitas e significativas alterações feitas na narrativa pelo diretor Ron Howard e pelos roteiristas Akiva Goldsman e David Koepp.

De certa forma, esta era uma mudança previsível. Afinal de contas, para quê incluir um dado cronológico complicador em um enredo já repleto de informações históricas (reais e fictícias) e intrincadas teorias conspiratórias, que ocupam tempo precioso de projeção com infindáveis e cansativas exposições verbais? Assim, assume-se desde o princípio que os eventos vistos em “Anjos e Demônios” ocorrem alguns meses depois daqueles mostrados em “O Código Da Vinci”, ao contrário do que ocorre nos livros. Ron Howard aproveita esse dado para tornar a relação entre Langdon (Tom Hanks) e os membros da alta hierarquia da Igreja Católica, que aparecem com destaque neste filme, ainda mais tensa. Ou seja, mais controvérsias religiosas bobinhas à vista.

Outras alterações são mais radicais e podem desagradar aos fãs do romance original, que não são poucos (o livro vendeu mais de 40 milhões de cópias ao redor do planeta, número impactante mas pálido, quando comparado aos 100 milhões vendidos de “O Código da Vinci”). Algumas das mudanças incluem a completa eliminação do relacionamento afetivo que Langdon constrói com a cientista italiana Vittoria Vetra (a atriz israelense Ayelet Zurur) no decorrer da aventura. O filme também descarta parte do inacreditável final melodramático do livro, que inclui Robert Langdon voando sobre os céus de Roma com um pára-quedas improvisado. E deixa de lado, talvez para evitar mais conflitos com a Igreja, a informação de que o papa (falecido no início da história) tinha um filho consangüíneo.

Do ponto de vista cinematográfico, as mudanças funcionam bem, pois deixam o enredo mais compacto, mais ágil, eliminando boa parte dos penduricalhos narrativos que mais confundem do que esclarecem a platéia, obrigada a lidar com enorme quantidade de informação durante as duas horas e meia de projeção. Se “O Código Da Vinci” sofria com o ritmo, paralisando a ação dramática de tempos em tempos para engatar diálogos infindáveis de até 20 minutos (!), “Anjos e Demônios” se sai muito melhor, desenvolvendo um ritmo contínuo e acelerado em que as descargas verbais de exposição estão melhor integradas à ação.

Por outro lado, o personagem do simbologista sofre na mão dos roteiristas, perdendo boa parte da erudição (característica natural de um professor da Universidade de Harvard) e ganhando um raciocínio lógico que o aproxima muito mais de um Sherlock Holmes (atente para a cena inicial, em que ele adivinha a procedência do visitante que o encontra na piscina sem nem mesmo parar de nadar) do que de um professor universitário. Em troca, Akiva Goldsman e David Koepp deram um jeito de injetar mais humor à trama, boa parte dele saído da boca de Robert Langdon, que ganhou uma personalidade mais cínica e menos introvertida do que no primeiro filme. O humor também ajuda a aumentar a impressão de agilidade.

Quanto à trama, segue fielmente a estrutura de “O Código Da Vinci”, que por sua vez remete à estrutura de um game eletrônico, em que o personagem principal precisa resolver um enigma para ser impulsionado à fase seguinte, e assim sucessivamente, com o grau de dificuldade aumentando pouco a pouco, até o clímax. A receita estética também continua a mesma, trocando-se de capitais européias (saem Paris e Londres, entram Roma e o Vaticano), mas mantendo-se a correria desenfreada, a direção de arte suntuosa, a fotografia soturna repleta de sombras e a trilha sonora sinistra, aqui vitaminada por corais masculinos e cantos litúrgicos que, obviamente, ajudam a sinalizar o caráter religioso da história.

Curioso, por fim, é ver uma penca de atores famosos (quase todos bastante competentes, como o sueco Stellan Skarsgard e o alemão Armin Mueller-Stahl) lutando para manter as expressões de gravidade, enquanto dizem algumas das falas mais implausíveis já escritas para o meio audiovisual, em papéis minúsculos. Aliás, dizem que os melhores atores a gente reconhece justamente quando eles desempenham com correção personagens mal ajambrados, o que parece ser bem o caso aqui. 

O DVD de locação, simples, leva o selo da Sony. O filme tem aspecto original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras. Já a edição dupla, lançada pera venda direta, traz um segundo disco repleto de pequenos documentários sobre locações, efeitos especiais, alterações do roteiro em relação ao livro e muito mais. A versão lançada em DVD contém aproximadamente seis minutos a mais do que a vista nos cinemas.

– Anjos e Demônios (Angels & Demons, EUA, 2009)
Direção: Ron Howard
Elenco: Tom Hanks, Ayelet Zurer, Ewan McGregor, Stellan Skarsgaard
Duração: 139 minutos

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11 comentários em “Anjos e Demônios

  1. É impossível assistir a este filme e não comparar esta obra com “O Código da Vinci”. No geral, “Anjos e Demônios” é um longa bem melhor, simplesmente porque entendeu o que é ser uma adaptação cinematográfica. Ao contrário de “O Código da Vinci”, que era uma simples transposição de uma obra literária extremamente figurativa e repleta de elementos de entretenimento; “Anjos e Demônios” é uma adaptação de um livro para uma outra mídia (neste caso, o cinema). Os roteiristas deram sua própria visão ao material – chegando até a mudar o final do livro – e, principalmente, o diretor Ron Howard captou o clima da situação. Sua obra é ágil mesmo, bem feita do ponto de vista técnico, interessante e prende demais a atenção da plateia – que nem vai sentir os 138 minutos de duração do longa passar.

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  2. Não gostei desse livro, então se houveram mudanças “deve melhorar”… O estilo de escrita de Dan Brown é medonha, parece que o cara já quer economizar no roteiro adaptado, muita descrição, capítulos curtos com mudanças de plano e personagens estereotipados – feito para estadounidense preguiçoso não explodir a cabeça pensando e vender feito banana.

    Vou assistir o filme como curiosidade e só.

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  3. Não assisti “O Código da Vinci”, apesar de ter lido o livro. Mas se você, assim como muitos, dizem que “Anjos e Demônios” é melhor, mais compacto etc, já vi que “O Código…” é lixo puro.

    Em metade do filme queria ir embora. Não só Langdon é um gênio, todos que o cercam também o são. Surge um questionamento no filme e, em um segundo, alguém sai com a resposta. Não dá nem tempo do público pensar e tentar raciocinar.

    Tudo é previsível. E me senti em uma aula de História. Várias explicações que mais pareciam encheção de linguiça do que qualquer coisa…. E aquele blá blá blá de perguntarem se Langdon acredita em Deus, que Deus o fez salvar o mundo… que pataquada chata.

    Ah, sem contar que, em todos os horários marcados para matar os caras, Langdon sempre chegava faltando, no mínimo, dez minutos para acontecer o assassinato. (fácil de visualizar já que o horário, assim como em 24 Horas, aparece nos caracteres)

    SPOILERS

    Aquelas coisas de que as estátuas apontavam para para próxima igreja e tal é tão ruim que parece coisa de desenho animado da década de 80.

    E, no trailer, eu já sabia que, obviamente, Ewan era o vilão da história… ele não iria participar do filme para ser o herói. Mais previsível impossível.

    E como o capanga do vilão consegue levar um bispo pesado para o meio da praça de São Pedro e ninguém perceber nada? Existia milhões de pessoas… e onde o cara foi achado era bem no lugar aberto…

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  4. Sei que o filme é adaptação, não li o livro, mas será mesmo que a história gira em torno da questão Religião X Ciência… não questiono seus méritos de ficção… fico sorrindo em pensar que as pessoas saem do cinema (ou da leitura) com a imagem do pesquisador imparcial, desprovido de ideologia ou crenças… hehehhe… isso nunca existiu…
    Ah, mas o filme é “bonzinho”…
    Rodrigo, achei o Simplesmente Feliz muito “bonitinho”… também não vi como comédia…
    Eita, preciso aprender a conversar com vocês – “bonzinho” “bonitinho” …. hehehehe

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  5. Na verdade, Celly, acho que todos os livros do Dan Brown usam esse confronto Ciência x Fé, inclusive aqueles sem o Robert Langdon , como pano de fundo. Nem acho que isso seja uma obsessão particular dele, acredito que seja apenas um filão lucrativo que ele descobriu e não quer largar. 🙂

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  6. Concordo com o leitor Bruno. Putz, vc vai ao cinema para assistir a um filme, onde você possa pensar, tentar resolver os problemas e “entrar” na trama, mas já vem tudo mastigado. Tem um enigma, dai já vem o “Indiana Jones” de Brown e resolve. E a tal das indicações do caminho pelas estatuetas pareciam mesmo os desenhos do Scooby Doo.

    Já tentei ver o Código por algumas vezes, mas sempre durmo no mesmo ponto. Pensei q não iria conseguir ver o Anjos e Demônios, mas realmente, ele é bastante ágil…

    Acredito que a relação Ciência x Religião é muito mais profunda e é estudada no meio acadêmico de forma a integrar a filosofia, fugindo dos moldes do pensamento cartesiano. “Indiana Langdon Jones”, embora se apresente como acadêmico, parece encarar isto de uma forma diferente. Uma mistura de Indiana Jones com Sherlock Holmes e Scooby Doo (crianças).

    Meio fraquinho…. mas foi bom, vale a pena assistir (dá pra entender :))

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  7. Olha, é realmente um bom filme de ação, e só. O problema é que se tenta levar tudo muito a sério, a trama, as atuações. O livro não li, assim como não li O Código DaVinci (desde o livro, existe um erro neste título. Vinci é uma cidade, e Leonardo era de lá, portanto Leonardo DaVinci. O Código, “ergo” deveria ser apenas Vinci. mas enfim…Dan Brown está rico…e eu não). Mas voltando ao promeiro filme, achei também um bom filme de ação. Este Anjos e Demônios perde no final, absurdamente absurdo (mais uma vez, Dan Brown), fora isso, pipoca em kilo e refri em litro. Põe o cérebro no cruise control e relaxa (não tanto, senão dorme).
    Nota 4
    Abs
    Ricardo (www.cinedrops.zip.net)

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  8. Pra mim Ron Howard q eu admiro muito da série De volta para o futuro, não se encontrou nesse tema ‘dan brown’, melhor ele voltar para os filmes autorais e largar essas auto-ajuda disfarçadas.

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  9. Rodrigo, sei que o trabalho de um crítico é “relativamente fácil” como diz Atom Ego em Ratatouille, mesmo assim às vezes vocês parecem querer confundir o pobre espectador. Anjos e Demônios é bem interessate, previsível próximo do final, mas prende a atenção até lá e não chega a ser um fiasco (opinião que também tenho sobre O Código Da Vinci). Alguns filmes tem diálogos maravilhos que gostaríamos que se extendessem por mais tempo, outros são cansativos e explicativos demais. No geral estas são as opiniões que a crítica geralmente nos apresenta. Pra mim, um filme deve resistir bem a uma segunda sessão. Caso ele passe a impressão de ser mais longo na segunda vez é que o mesmo não tem realmente conteúdo para se manter além da novidade.

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