Up – Altas Aventuras

[rating: 4.5]

Embora seja uma atitude desejável, é difícil esquecer, mesmo que por um instante, os superlativos normalmente associados à Pixar. Em 2009, a empresa capitalizou como nunca os anos a fio de elogios angariados junto à comunidade cinematográfica, em quase duas décadas de atividade. Mesmo ainda associada à produção infanto-juvenil de Hollywood, a empresa invadiu o prestigiado circuito de cinema de festivais europeus, nicho normalmente reservado ao que chamamos de “cinema de arte”. O líder criativo da firma, John Lasseter, ganhou homenagem em Veneza; e “Up – Altas Aventuras” (EUA, 2009), primeiro longa-metragem da Pixar produzido em 3D, obteve a honra de se tornar a primeira animação a abrir o Festival de Cannes, fazendo-o sob mais uma saraivada de críticas positivas.

Toda essa adulação, aliada à lendária fama da empresa de jamais ter investido tempo e dinheiro num filme ruim, autorizava o mais desconfiado dos cinéfilos a elencar “Up” na lista dos melhores títulos de 2009, mesmo sem ter visto sequer um fotograma da produção. Por isso, se uma sombra de desapontamento percorrer sua mente após a primeira seção do longa-metragem de Pete Docter (o primeiro do cineasta após o belo “Monstros S/A”, feito oito anos antes), dê o devido desconto. Todos nós sabemos que as expectativas exageradas tendem a gerar decepções (ou, mais raramente, adorações) igualmente imensas, de forma que reservar algum tempo para uma reflexão cuidadosa sobre a obra pode ser uma atitude sensata. Até porque, numa conferida cuidadosa, “Up” se mostra mais uma obra impecável do estúdio mais criativo da atualidade.

Digo isso porque “Up”, embora na superfície possa parecer pálido para os altíssimos padrões estabelecidos pela Pixar, funciona muitíssimo bem em dois níveis distintos e intercambiáveis: como uma aventura infantil repleta de cenários deslumbrantes e personagens divertidos, e como uma reflexão pungente sobre a velhice e os sonhos não-realizados que todos nós acumulamos em nossas vidas. Aliás, sob certo aspecto, o longa-metragem tem mais potencial junto ao público adulto – o subtexto da dolorosa jornada do protagonista é tão rico quanto econômico e silencioso – do que junto às crianças, para quem aventuras ambientadas em cenários naturais exóticos (habitados por animais igualmente exóticos) vêm se tornando comuns, vide os sucessos de franquias como “Madagascar” e “A Era do Gelo” (cujo terceiro exemplar, aliás, foi lançado nos cinemas poucos meses antes de “Up”).

A rigor, os 12 minutos que compõem o prólogo do filme de Pete Docter se equiparam ao melhor que a Pixar já conseguiu produzir. Nesse intervalo, ficamos conhecendo Carl e Ellie, duas crianças solitárias, que compartilham sonhos aventureiros alavancados pelo explorador Charles Muntz, que volta das selvas localizadas no planalto da Venezuela com imagens de paisagens encantadoras e o fóssil de uma criatura desconhecida. Enquanto ele é confrontado com acusações de fraude e desaparece nas selvas da América do Sul para e encontrar o bicho vivo, as duas crianças crescem, se casam e envelhecem, tentando economizar para uma viagem ao local exótico e sendo impedido pelas circunstâncias da vida. A dinâmica entre os dois é perfeita: ela fala demais, ele não abre a boca. Quando Carl consegue comprar as passagens, Ellie está doente. Ela morre, deixando-o solitário e amargurado – um velho ranzinza cuja maior aventura diária consiste em caminhar do quarto até a varanda.

Não demora muito para que Carl “desista” da vida em sociedade e, numa seqüência visualmente estonteante que encapsula perfeitamente a idéia de uma espécie de ressurreição metafórica, parta numa viagem surreal ao planalto venezuelano, tendo a própria casa içada por milhares de balões coloridos. Aquela que seria uma aventura solitária, contudo, acaba se transformando numa viagem imprevisível e perigosa, graças à presença inusitada de Russell, escoteiro de oito anos que por acaso estava na varanda do velhinho quando a casa levantou vôo. A relação forçada com o intruso-viajante, apimentada por uma ave colorida e uma matilha de cães falantes (!), vai ensinar a Carl uma ou duas coisinhas novas a respeito da natureza humana, bem como levá-lo a reprocessar a memória de toda uma vida a partir de uma nova perspectiva. Tudo isso entremeado por duas ou três seqüências de ação física capazes de deixar o espectador literalmente sem ar.

Falar sobre a qualidade da animação da Pixar é chover no molhado; não chega a surpreender, portanto, que as paisagens da natureza presentes em “Up” sejam tão belas. Incomum, porém , é a decisão de manter o traço cartunesco das figuras humanas, uma aposta distante do naturalismo que dita as regras das animações feitas em computador neste século XXI. Nesse ponto, “Up” paga tributo a “Os Incríveis” (2004), alcançando um resultado muito interessante em termos de expressividade do rosto humano, mesmo fugindo da representação de fundo realista. Observe, por exemplo, as reações do menino Carl durante a cena de abertura, que o mostra assistindo a um noticiário sobre o explorador: curiosidade, idolatria, exultação, raiva e decepção se alternam no seu rosto. Nem todo ator de carne e osso consegue alcançar esse grau de expressividade.

Assim como em “Monstros S/A” (2001), Pete Docter mostra talento nas transições entre as cenas, imprimindo ao filme um ritmo fluido. Ele usa o som, com freqüência, para ligar duas ações distantes no tempo e/ou no espaço. No já citado prólogo, que dispensa os diálogos (e funciona como uma espécie de unidade narrativa autônoma dentro do longa), Docter transforma o estouro de um balão de ar no espoucar de um flash fotográfico, unindo com um som simples e marcante dois momentos separados no tempo por pelo menos uma dúzia de anos. O senso de composição visual do diretor, que usa de forma abundante a profundidade de campo para acentuar a beleza das paisagens, também garante cenas de ação empolgantes; o primeiro “pouso” da casa no planalto venezuelano, capaz de deixar muitas crianças suando frio. Em emoção, a seqüência se equivale à viagens através das portas em “Monstros S/A”. E a paleta de cores também evolui de modo perfeito. No primeiro ato, por exemplo, as cores vão sendo dessaturadas à medida em que o casal envelhece, sinalizando visualmente o melancólico final deste trecho; nos outros dois atos, enquanto Carl reexamina sua vida, acontece o contrário, e as cores vão ganhando vida e beleza ao mesmo tempo em que o velhinho descobre sentimentos adormecidos há muito.

Se existe uma sombra de decepção deixada por “Up”, ela não está no tratamento visual dado à história, mas no uso recorrente de dispositivos narrativos cuja originalidade não é um ponto forte. O cineasta dá à relação entre o menino e o velho, um recurso narrativo muito explorado em Hollywood, um tratamento apenas correto, apesar de repleto de humor e graça. Além disso, a necessidade de criar um vilão facilmente reconhecível torna o enredo, a partir de certo ponto, facilmente antecipável. O resultado disso é um desequilíbrio qualitativo na história, com o primeiro ato impecável se sobressaindo de forma evidente aos dois trechos seguintes. De qualquer forma, é fundamental “ler” o filme nas entrelinhas – e prestar atenção nas reflexões que ele propõe sobre o tema da velhice – para entender que o alcance de “Up” vai além do nível de entretenimento puro e simples.

Em tempo: muita gente (eu incluso) espera os curtas-metragens que antecedem os longas da Pixar nos cinemas com uma expectativa tão grande quanto a reservada para o prato principal. E para variar, “Parcialmente Nublado” (Partly Cloud), dirigido por Peter Sohn, iguala-se em lirismo, graça e humor a todos os outros curtas maravilhosos produzidos pela empresa. O filminho, de cinco minutos, parece buscar inspiração na seqüência de abertura de “Dumbo” (1941) para mostrar as aventuras de uma cegonha entregadora de bebês, às voltas com uma nuvem desastrada. O curta abandona a influência de Chuck Jones (evidente em “Presto” e “ Quase Abduzido”), perde em selvageria, mas ganha em encantamento (e mostra-se mais próximo, em clima, de “Para os Pássaros” e “Banda de um Homem Só”). Ou seja, são duas obras-primas pelo preço de uma.

Os dois filmes, longa e curta, estão presentes no DVD nacional, que carrega o selo Buena Vista. O filme de Pete Docter aparece com aspecto de imagem correto (widescreen anamórfico) e áudio de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). Um segundo curta-metragem é integrado ao pacote, assim como dois featurettes, o primeiro documentando a viagem da equipe da Pixar aos planaltos da Venezuela (eles queriam inspiração para as paisagens) e o segundo discutindo as várias opções de final com que os roteiristas trabalharam para o personagem de Muntz.

– Up – Altas Aventuras (EUA, 2009)
Direção: Pete Docter
Animação
Duração: 96 minutos

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22 comentários em “Up – Altas Aventuras

  1. Pessoal, julgar o 3D só como artifício para jogar coisas na cara plateia é subestimá-lo! Como bem disse Rodrigo, o 3D serve “para dar um efeito de profundidade”.

    Rodrigo, e A Órfã? Vai rolar crítica? Para mim uma surpresa agradável. Tirando uns clichês… eheh

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  2. Eu achei o primeiro ato do filme belíssimo – acho que um dos melhores produzidos pela Pixar. O filme manteve a regularidade para mim, até o final, porém não tem mesmo aquele brilho de um “Wall-E” e de um “Ratatouille”. A mensagem, no entanto, é bonita!

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  3. Up – Altas Aventuras é uma das coisas mais sensíveis e bonitas que vi no cinema este ano. Palmas mais uma vez para a Pixar!!!!
    Apenas para ressaltar uma das qualidades de Up, destaco o tema escolhido, a amizade entre um velhinho e um menino de 8 anos, numa inguagem acessível às crianças, que precisam tanto aprender a amar e respeitar os idosos, coisa que não vemos muito acontecer em nossos dias.

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  4. Penso que o filme mexe até mais com UM sonho específico (de muita gente), que na história se realiza, do que mesmo com os não-realizados… é emocionante (tb pela técnica) e divertido… Gosto muito do recurso que faz o público acessar sua “memória fílmica” (seria essa a expressão, Rodrigo?) criando o “cone da vergonha”…
    Ah… é bom lembrar: rasgar páginas do livrinho da biblioteca só pode nos filmes, viu….kkkkk

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  5. Nossa, Leandro, pensei que tinha sido a única a chorar em Up! Chorei tanto no início e no final. Aliás, já comecei a chorar no curta! Minha sobrinha ficou espantada comigo! Achei que realmente foi um filme para tocar emocionalmente os adultos e ensinar as crianças a terem um relação mais respeitosa com os idosos!

    Deixou o Monstros S.A. e Os Incríveis em segundo e terceiro lugar respectivamente na minha listinha! ahahahahah!

    Vale a pena! Recomendadíssimo!

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  6. Desculpe, mas no cinema em que vi o filme em 3D – Cinemark – foi exibido sim o curta, também em 3D. Além disso achei o recurso extremamente relevante! Essa coisa de jogar coisas na plateia (como em ‘Beowlf’), isso sim é um supérfluo. O 3D dá um novo sabor à experiência, além de contribuir, e muito, para o fator estético.

    E ‘Ratatouille’ não foi lançado em 3D, ‘Up’ é o primeiro 3D da Pixar.

    …Mas voltando a ‘Up’, eu estava muito desconfiado e até um pouco raivoso por esse filme mal ter chegado e já ter ganho tantos louvores como abrir Cannes e ter entrado em uma lista das dez melhores produções da década. “Onde ficam Nemo, Remy e o Sr. Incrível nisso? (ainda não vi WALL.E. Heresia, eu sei)”, pensei. A Pixar, ainda que eu conhecesse sua capacidade de superação e qualidade inabalável, não poderia ter reinventado a roda!… Mas tive que dar o braço a torcer, especialmente por que o filme me fez chorar e rir O TEMPO TODO. Poucas vezes experimentei isso. Fora o rigor estético e o roteiro impecável, eles ainda têm o interminável dom de criar personagens inesquecíveis!
    ‘UP’ não deve nada a seus irmãos mais velhos…

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  7. Só mais uma coisa: Rodrigo é ímpressão minha ou É SÓ VOCÊ MESMO que “dirige” esse site (ótimo por sinal)??!!?
    Se sim como consegue acompanhar tantas estréias, rapaz?!?

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  8. Bom saber que o curta também está em 3D.

    Sim, Well, tá lá embaixo na seção QUEM FAZ O SITE, inclusive. Sou eu sozinho; o site é um hobby, eu não ganho dinheiro com ele.

    Na verdade, até o ano passado, as atualizações eram até mais constantes. Coisa de seis, sete textos por semana. Atualmente tenho escrito um ou dois semanais, apenas. Espero que as obrigações profissionais permitam que o ritmo melhore um pouco, mas a minha expectativa é que isso aconteça só no começo de 2011, depois que eu defender a tese de doutorado.

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  9. Rodrigo, crítica perfeita.
    De certa forma, não ter prestado atenção na fama que precedia esse filme abençou minha sessão. Simplesmente entrei na sala não esperando nada mais do que mais uma animação de qualidade da Pixar. Fui surpeendido por um filme de aventura como há tempos não se via.

    O filme é encantador. Desde o seu prólogo, que já nos deixa boquiabertos, até a cena em que o Carl cai em si, e muda de comportamento. Tocante. Destaque também para os cachorros falantes, que apesar de falarem continuam agindo essencialmente como cães.
    Sobre o enredo ser previsivel. Não acredito que isso venha a ser um erro, mas uma característica comum a filmes de aventura.

    Para mim Up está na lista de grandes filmes de aventura direcionados para crianças e adultos. Podemos colocá-lo na mesma prateleira dos primeiros Indiana Jones, De volta Para o Fututo e até mesmo Goonies.

    Ah, assisti o filme aqui em São Paulo em 3D e mesmoa ssim tinha o curta Parcialmente Nublado!

    Um abraço!

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  10. Ótima crítica, Rodrido ! Igual ao João, também não sabia de toda a badalação que precedeu o lançamento de UP por aqui. Ainda bem, pois também saí surpreendidíssima do cinema. Que animação linda ! Vamos combinar que aquele prólogo é para adultos, né ? Uma aula de cinema com sua concisão, clareza e repleta de informações visuais capazes de refazer a trajetória de uma vida. Como o silêncio foi bem utilizado ali !
    Mas o que mais me tocou no filme foi a reflexão sobre o passar do tempo e o que fazemos com nossas vidas e sonhos, com nossa capacidade de renovar a esperança na própria vida, com o que ela tem de belo e de irremediável. Amei !

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  11. Olá, Rodrigo
    Quando eu morava em São Paulo, fazia parte de um grupo de cinema que discute os filmes que estão em cartaz. O grupo tem 14 anos de existência. Coisa rara no Brasil, não é? Mudei-me para Curitiba, mas continuo diagramando o jornal do grupo.
    Eu li o teu texto sobre o filme À Deriva, e gostaria de saber se você autoriza a publicação dele no nosso jornal. Claro que mencionarei todas as fontes possíveis, inclusive o endereço do blog.
    O jornal vai para mais de 400 pessoas, até para fora do Brasil. Vai para Argentina, Espanha e Estados Unidos.
    Embora o objetivo do grupo é discutir filmes em cartaz, o jornal já é mais maleável, discute qualquer coisa, desde que esteja relacionado com o cinema. O filme UP-ALTAS AVENTURAS, foi o último que o grupo discutiu.
    Caso você autorize, informo que só arrumamos a formatação do texto, de acordo com as regras do jornal, mas não mexemos no texto.
    Você pode entrar no site do grupo para ver como são os jornais.
    Se possível, mande um email pessoal para mim, para dizer se autoriza ou não, e, caso autorize, como você quer que o qualifique no jornal.
    Obrigada

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