Harry Potter e o Enigma do Príncipe

[rating:3.5]

O cineasta inglês David Yates estreou na tela grande comandando a quinta aventura cinematográfica do bruxo adolescente oriundo da literatura infanto-juvenil. Conseguiu a proeza de reduzir uma maçaroca de mais de 700 páginas para um longa-metragem enxuto de duas horas e meia, sem deixar de lado a fidelidade ao livro tão exigida pelos milhões de fãs. Por esta razão, foi mantido pelos produtores no comando de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Reino Unido/EUA, 2009), sexta aventura do herói no cinema. E se sai bem na tarefa, contando a história de maneira segura e extraindo da equipe de pós-produção os melhores efeitos especiais em CGI de toda a série.

O filme é tudo aquilo que os leitores da série, escrita pela inglesa J.K. Rowling, esperam. Traz de volta as três dúzias de personagens queridos da franquia literária (a maioria deles, como o gigante Hagrid e a professora Minerva, em participações minúsculas que consistem em recitar duas ou três frases) e abre generoso espaço para seqüências pomposamente ritualizadas, que revisitam famosos ambientes do castelo de Hogwarts vistos em filmes anteriores (como o salão de jantar). Mais importante: mantém a tradição de investir em duas linhas narrativas paralelas. A primeira envolve a maturidade física e emocional de Potter e colegas, com paqueras e crises de ciúme a torto e a direto; a outra diz respeito à investigação sobre o passado do bruxo Voldemort, cada vez mais ameaçador e poderoso.

Há várias maneiras de analisar “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”; o filme se sai razoavelmente bem algumas, mas deixa a desejar em outras. Quando se analisam os aspectos do enredo, por exemplo, obtém-se um paradoxo curioso. Como filme isolado, “O Enigma do Príncipe” mostra-se desigual e de ritmo frouxo, dedicando tempo demais a intrigas adolescentes e acelerando o clímax de tal maneira que corremos o risco de se perder em meio às minúcias (especialmente aqueles de nós que não leram os livros, meu caso).

Já como parte integrante de uma série, o longa atinge resultado oposto, respondendo a uma série de perguntas que haviam ficado pendentes nas aventuras anteriores. Como e de que maneira Voldemort conseguiu ressuscitar, sem que os bruxos de bem percebessem a manobra? Qual a relação dele com o castelo de Hogwarts, que parece conhecer tão bem? E em que lado da guerra se encaixa o ambíguo professor Severo Snape (Alan Rickman), tão importante nos três primeiros filmes e tão sumido nos dois seguintes? “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” encaixa perfeitamente essas peças no quebra-cabeça gigantesco que é a franquia inglesa.

Um grande destaque no filme de David Yates deve ser dado à concepção visual. Direção de arte e fotografia seguem fielmente o conceito geral estabelecido para a série, que consiste em tornar a atmosfera mais sombria e violenta a cada novo filme. “O Enigma do Príncipe” atinge o ápice dessa estratégia indo contra a lógica utilizada até “A Ordem da Fênix”; a tendência barroca de atulhar o castelo de Hogwarts de quartos e salões e intermináveis objetos decorativos foi acertadamente abandonada, em prol de um design de produção mais limpo, que prioriza espaços vazios e sombras, além de investir em uma paleta de cores restrita, com muito cinza, azul, chumbo e negro.

Seguindo outra tradição – fazer da série uma espécie de portfólio de grandes atores ingleses –, David Yates agrega ao elenco o versátil Jim Broadbent (no papel no novo professor de Porções). Com tanta gente talentosa à frente das câmeras, Yates se dá ao luxo de prescindir da presença de Ralph Fiennes (o intérprete de Voldemort não aparece) e utiliza em raras cenas atores qualificados do porte de Helena Bonham Carter e Timothy Spall – este último entra mudo e sai calado, aparecendo por meros dois segundos ao abrir uma porta.

Antes de lamentar essa decisão, contudo, é importante lembrar que “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” é legítimo exemplar de uma série infanto-juvenil, cujo público alvo é formado por garotos entre 12 e 20 anos. Para que a magia funcione (sem trocadilhos), esse publico precisa ver os dramas, desejos e problemas do cotidiano devidamente representados na tela. Vem daí o interesse genuíno com que David Yates filma as desventuras amorosas de Potter e seus amigos, e provavelmente essa é a parte mais vívida e interessante do filme. Portanto, ao ver este filme, não adianta reclamar de falta de verossimilhança ou densidade emocional – se é isso que você deseja ver, vá à prateleira de drama da locadora mais próxima ou tente um filme com censura 18 anos. Para o que se propõe, “O Enigma do Príncipe” é bem divertido.

A Warner lançou o filme em DVD no Brasil em versões simples e dupla. A primeira traz apenas o filme, com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). A segunda agrega um segundo disco, contendo dois documentários (sobre o elenco e sobre a autora dos livros, J.K. Rowling), jogos infantis e trailers.

– Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, Reino Unido/EUA, 2009)
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Michael Gambon, Jim Broadbent, Emma Watson
Duração: 153 minutos

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24 comentários em “Harry Potter e o Enigma do Príncipe

  1. só nao concordo com a parte em que “é tudo o que os fãs queriam”, porque do livro para o filme se perde muita coisa legal. interessante que o roteiro inibe cenas muito legais da trama literária, (seguindo a linha de raciocínio escolhida para a tela, claro!) mas acrescenta outras que podia muito bem ficar sem elas.

    Axo que esse é mais do que nunca para fãs e acompanhantes da série, porque fora do contexto nao dá para entender nada.

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  2. Oi, Rodrigo,

    Acho complicadíssimo avaliar filmes baseados em livros quando não conhecemos as obras originais, mas não deixo de achar corajoso assumir isso.

    Não me compreenda mal, mas muita asneira é falada a respeito dos filmes por críticos que desconhecem os livros. E, ao contrário do que você afirmou na crítica de Harry Potter e a Ordem da Fênix, não acho em absoluto desnecessárias as comparações entre o criador e a criatura, ou o livro e sua respectiva tradução para o Cinema.

    De forma alguma me considero um fã da série. Não só porque não se encaixa na literatura que aprecio como também por causa de suas fragilidades narrativas e estilísticas. Apesar de não sofrer da tal Pottermania, não deixo de concordar com os fãs. A série nas mãos de Yates tem sofrido com a inabilidade do diretor de transformar em imagens e sons os livros de J.K. Rowling.

    É sempre difícil quantificar, mas o IMDb é testemunha de que o filme anterior é avaliado como o pior dentre todos os lançados. Já O Enigma do Príncipe é avaliado como o melhor, mas acho que ainda é cedo para tomarmos esse julgamento como definitivo.

    Enfim, acho que quando se trata de uma crítica mais ampla, que busca abarcar as produções mais populares, menos cerebrais e exigentes, é preciso ser um pouco mais criterioso. Não basta justificar qualquer produção segundo uma proposta baseada na diversão. O resultado disso é que a crítica não só se despe de seu papel como também se desgarra do grande público, do qual parece querer se aproximar.

    PS. Não conheço outros trabalhos de Yates, mas só de lembrar das interpretações na Ordem da Fênix, sinto calafrios e me pergunto, será que inundar os cenários de sombras é suficiente para ocultar a inaptidão dos atores e da direção?

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  3. Ph, tenho na minha cabeça que livros são livros, filmes são filmes. Produtos independentes. Se partirmos da idéia de que um filme só é bom quando reproduz o livro, estaremos caindo na cilada de julgar o trabalho de uma mídia com base em um produto feito para outra. Temos por aí casos e mais casos de grandes filmes feitos de péssimos livros, e vice-versa.

    Quanto aos problemas de atuação, até concordo com você no que diz respeito aos atores jovens. Eles são fracos, em sua maioria, inclusive o Daniel Radcliffe. Mas não acho que a qualidade das interpretações variou entre os filmes. Realmente não acho. Creio que “A Ordem da Fênix” seja bem melhor que os dois primeiros da série, em particular o segundo, que considero bem fracos.

    Por fim, preciso lembrar que dirigir um filme é muito, muito mais do que orientar atores. Embora o David Yates me pareça estar longe de ser um diretor com toque autoral, não acho que ele seja ruim. Pior do que o Chris Columbus, acho que não é mesmo.

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  4. Dirigir Harry Potter é mais complicado do que dirigir a maioria dos livros (ao meu ver). Além de ser uma série de sete livros que vão aumentando o núemro de páginas, complexando mais a trama e trazendo mais detalhes, o filme sofre por ter diversos diretores dirigindo a mesma franquia. Então acredito que foi um pocuo dififcil de David Yates retomar uma historia que já seguia e dirigir os ultimos livros da série (os mais complicados).
    Há também o fato da industria, querendo ou não Harry Potter é um filme voltado para a industria e para um público alvo infanto-juvenil, em sua maioria sem um ponto de vista critico cinematofrafico muito estruturado.
    Achei Harry Potter e o Enigma do Principe a adaptação mais interessante da série, quanto a melhor eu não sei, teria que ver os demais novamente, mas com certeza é o mais interessante e o mais maduro (fato um tanto lógico).

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  5. Rodrigo, me dê umas dicas de como posso destravar meu aparelho de dvd para rodar discos da área 1. Gostaria também que vc me desse dicas de marcas de aparelhos que sejam multregionais.
    Você sabe me dizer se gravador de dvd de pc roda todas as regiões???

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  6. Player de DVD para PC também obedece ao esquema de regiões (mas existem softwares para destravá-los, como AnyDVD). Quanto a destravar o aparelho, você tem que procurar no Google. Existem sites que explicam como fazer, mas você precisa saber o modelo. Cada modelo tem uma forma diferente de destravamento, e até existem alguns que só destravam na assistência técnica.

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  7. Confesso a você que o meu modelo que é o Panasonic S-35 não possui código na internet para destrava-lo e as assistências daqui de Recife não estão mais fazendo isso.
    Como você faz para rodar os seus discos de área 1?? Me indica um aparelho que rode todas as regiões???

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  8. olá pessoal!
    Gostei do filme. Só achei que teve pouca ação e as sequências mais importantes do filme ficaram vazias, como a morte de Dumbledore e a descoberta que o príncipe mestiço era na realidade Snape. No mais é bom como os atores cresceram, estão belos e os efeitos especiais e direção de arte estão impecáveis como sempre foram durante toda a série. Esse filme de Harry Potter é uma comédia romântica adolescente com toque de magia e que irá “rios” de dinheiro por aí afora. Agora é só esperar pela primeira parte do fim de Harry Potter no cinema no ano que vem.

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  9. Quase todos os aparelhos atuais rodam filmes de todas as regiões, Pedro. A maioria destrava digitando algum código no controle remoto. Quando for comprar o próximo, peça na loja exatamente isso: um aparelho que venha destravado ou que você possa fazê-lo sozinho. O meu aparelho é um Pioneer de 1999, importado, que nunca deu problema (e eu destravo pelo controle).

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  10. Gostei bastante do filme.. como fa da serie tenho q reclamar das omissoes.. não me conformo em não ter visto nenhuma aula de Defesa Contra as Artes das Trevas ministrada por Snape, fiquei passada com isso. Só me resta lamentar muito e reclamar muito, e esperar pra ver se pelo menos nos extras do DVD aparece uma aulinha.
    Fora esse probleminha, o filme foi otimo. Tom Felton se destacou bastante como Draco e James Broadbent deu show com Slughorn. Michael Gambon finalmente fez um Dumbledore aceitável e quase q me arranca lágrimas. Alan Rickman sempre perfeito e lindo. Achei um filme na medida e bem melhor que o 5, mas não supera o 3 de jeito nenhum.

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  11. Esse foi um ótimo comentário complementar à crítica: feito por alguém que leu os livros, sabe traçar comparações com os filmes anteriores e, ainda bem, não é fundamentalista demais com relação à fidelidade entre livro e filme (a respeito da ausência sequer de menção relacionada a Snape como professor da citada matéria, acho que é uma omissão bem grave, sim; toda a ação dos outros cinco filmes tinha relação direta com o professor que ministrava essa disciplina. Só agora me dei conta de que isso também ocorre neste filme, mas como eu não tinha lido o livro, não sabia disso).

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  12. Definitivamente, Harry Potter 6 peca nos mesmos erros do 5º filme. O Filme fica preso em tramas não muito relevantes durante quase toda a sua duração, de repente chega o final, que vai super corrido, engolindo tudo, então, os créditos sobem. Na ordem da Fenix, Yates costura o enredo com as transições com notícias do Profeta Diário, que soam meio cafonas, nesse, melhor que no anterior, optou-se por abandonar as subtramas, mas creio que cortaram as erradas.
    Passou-se um ano e espalharam-se por toda Hogwarts casais “se pegando”. Sirius morreu, isso quase foi absolutamente esquecido. A única citação a isso é uma singela expressão triste de Harry ao ouvir sobre o Regulus, irmão de Sirius.
    Quanto à verossimilhança que falou na resenha acima, concordo quando diz que não é isso que deve ser buscado em Harry Potter, mas há de convir que algumas coisas não caem bem. Há muita frieza na série Harry Potter. Vale ressalta,r como exemplo, novamente o caso do Sírius. Outro é a morte do Dumbledore. Maggie Smith(Minerva) reagem muito bem, com olhos encharcados e sua expressão triste, na medida certa. A cena seguinde já é o trio de “heróis” na torre do Dumbledore com suas expressões atônitas, como se nada tivesse ocorrida. Até o Tom Felton está muito melhor e próximo de algo “verossímil” na cena em que tenta matar Dumbledore.
    Saí do cinema como se o filme tivesse sido em vão. Se Harry Potter fosse uma obra exclusiva do cinema, essa parte do épico poderia quase completamente ser excluída sem que alterações significativas ocorressem no todo.

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  13. Rodrigo, estava na Livraria Cultura por esses dias e encontrei o dvd do “The Legend of Hell House”. Sei que tem uma crítica postada desse filme aqui no site e assim como você, também o assisti numa dessas reprises da madrugada na tv.
    Confesso que ao rever o filme, ainda me causou um certo impacto. Claro que não mais o mesmo que me causou há uns 16 anos atrás. Mas ainda me deu uns bons arrepios na espinha.
    Já que você gosta do Dário Argento, fiquei sabendo que vão lançar em dvd aqui no Brasil “O Gato de Nove Caudas”, que faz parte da trilogia dos animais. Já assistiu???

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  14. “Hell House” em versão brasileira ou importada? Não sabia do lançamento do Argento, mas acho uma boa. Não vi esse filme, apenas os outros dois da trilogia dos animais (“O Pássaro das Plumas de Cristal” e “Quatro Moscas em Veludo Cinza”).

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  15. “Hell House” em versão importada mesmo. Esse filme nunca foi lançado em vídeo aqui no Brasil, por isso que comprei no ato.
    Por falar em Argento, você comprou “Tenebre” e “Quatro Moscas em Veludo Cinza” em versão importada ou os baixou?? Espero que com o lançamento de “O Gato de Nove Caudas” em dvd, eles lançem também as outras duas partes da trilogia.
    Se bem que “O Pássaro…” já existe em dvd no Brasil pela extinta Aurora Dvd e agora pela Silverscreen.

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  16. David Yates fiel aos livros? Desde quando? Não sou fanático, já ando indiferente a Harry Potter há um bom tempo, mas tenho certeza que os fãs (apesar da indiferença, ainda sou um deles) não gostaram. Desde a Ordem da Fênix ele vem alterando as principais partes do filme como bem quer, sem contar outros detalhes menores que não precisavam ser mudados. Não gostei dos 2 últimos filmes e todo mundo que eu conheço e gosta de HP tem a mesma opinião. Na minha opinião o diretor mais fiel da franquia foi o Chris Columbus, embora o melhor filme tenha sido o 3º, dirigido por Alfonso Cuarón…

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