Che: O Argentino

[rating:3]

Grande parte da juventude contemporânea, que anda por aí vestindo camisetas de grife estampadas com o rosto de Ernesto “Che” Guevara, não conhece a biografia ou as idéias do homem que co-liderou a revolução comunista em Cuba. Durante certo tempo, a comunidade cinematográfica esperou que a biografia em duas partes dirigidas por Steven Soderbergh, com suas quase cinco horas de duração, contribuísse para sanar essa lacuna histórica. A julgar por “Che: O Argentino” (Che Part One: The Argentinian, EUA/França/Espanha), contudo, o projeto não parece ter atingido o objetivo.

Observando-se a reação dos críticos ao lançamento, realizado no início de 2008, é possível perceber que “Che: O Argentino” esteve muito longe de ser unanimidade. A maior parte da imprensa conservadora dos EUA achou que Soderbergh glorificou a figura de Guevara, contribuindo equivocadamente para solidificar a reputação mitológica de um homem que, segundo defende, foi um assassino. Do outro lado, comunistas de carteirinha e simpatizantes em geral consideraram o filme superficial, simplista e sem alma, como se tivesse dirigido por um diretor que não tinha convição e nem paixão sobre o que estava fazendo.

Descontando os exageros de parte a parte, há algo de verdadeiro nas duas posições. Pelo menos nesta primeira parte da cinebiografia, Che é apresentado como um estrategista militar duro, mas que nunca perde a ternura – ou seja, o filme não consegue ir um centímetro sequer além da imagem pública projetada pelo guerrilheiro e eternizada em livros de bolso que podem ser encontrados até em bancas de revista. Soderbergh, que entrou no projeto substituindo o diretor Terrence Malick, oferece um relato compacto dos dois anos em que a guerrilha cubana, liderada por Fidel Castro, lutou nas selvas de cuba até derrubar o ditador Fulgêncio Batista, em 1958. Não ganhamos a oportunidade de conhecer melhor Che, o homem. Seus medos, seus amores, suas dúvidas, nada disso aparece no filme.

O roteiro de Peter Buchman contribui para este retrato superficial, na medida em que entrelaça duas cronologias distintas, e este entrelaçamento reforça, talvez involuntariamente, a aura mitológica que envolvia o personagem. Soderbergh intercala cenas em preto-e-branco e coloridas, realizando uma curiosa inversão – as imagens em P&B, cronologicamente posteriores, mostram Che em Nova York, durante a célebre conferência das Nações Unidas em que assumiu o papel de mito, mascando um charuto cubano e com a boina militar. Essas cenas priorizam closes e planos-detalhes, em um estilo cuidadosamente calculado para dramatizar a curiosidade internacional a respeito daquele homem sedutor e de personalidade enigmática.

Já o relato da campanha nas selvas de Cuba é filmado quase sempre em planos gerais e/ou médios, com a câmera posicionada à distância, o que dá ao resultado geral uma atmosfera desdramatizada, sem emoção, quase jornalística. Soderbergh diz que evitou fechar o foco porque não queria mostrar Che sozinho em nenhuma tomada – afinal, ele fazia parte de uma revolução comunista, doava-se para o grupo e acreditava fervorosamente nessa ideologia.

Ao optar por essa estética, contudo, o cineasta acabou eliminando boa parte do drama, de forma que o filme se assemelha, muitas vezes, a um documentário jornalístico, frio e distante. Com isso, perde-se a emoção e as nuances humanas que poderiam ajudar a captar um pouco da desejável complexidade moral das ações polêmicas do personagem.

É importante observar, também, que julgar “Che: O Argentino” sem pensá-lo junto ao seu filme-gêmeo (“Che: A Guerrilha”, que dramatiza a tentativa fracassada da revolta boliviana, culminando com o assassinato do guerrilheiro) é forçosamente uma tarefa inconclusa, visto que os dois filmes foram escritos como um roteiro único, e divididos em duas partes distintas por razões estritamente comerciais. Isso posto, cabe ainda ressaltar a excelente interpretação de Benicio Del Toro (produtor original do filme) no papel-título, bem como a energia com que o numeroso elenco – incluindo o brasileiro Rodrigo Santoro, que aparece em algumas poucas cenas como Raul Castro – veste as fardas verdes dos guerrilheiros.

O DVD de locação da Europa Filmes não tem extras. Enquadramento (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1) são tradicionais. A versão para colecionador, dupla, acrescenta um making of e uma versão em formato mp4, para tocadores portáteis.

– Che: O Argentino (Che Part One: The Argentinian, EUA/França/Espanha)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Benicio Del Toro, Julia Ormond, Santiago Cabrera, Rodrigo Santoro
Duração: 134 minutos

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6 comentários em “Che: O Argentino

  1. Já vi essa primeira parte e confesso que realmente gostei muito! Rodrigo, quando vc compra pelo site da Cd Point, vc escolhe que tipo de entrega? Encomenda cadastrada ou sedex??

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  2. Eu acho que o filme mostra algo que deveria ter tido espaço aí na sua crítica: o Che que não cumpre uma missão e perde o comando para um outro oficial, um Che que fica encarregado de uma missão de “2ª classe”, que é carregar prisioneiros, um Che egoísta a ponto de não esperar camilo para entrar em havana (eu acho que era havana sim). Modestiamente falando, acho que o filme conseguiu ir sim além dos planfetos que fazem a cabeça da meninada vermelha. achei interessante o justiçamento…onde não perdoa dois desertores…mas é complicado pro diretor se equilibrar naqelas dua correntes que voce citou acima…uns amam demais e outros odeiam…o fato é que é um personagem muito transcendental, aí narrar alguns fatos fica parecendo glorificação e narrar outros fica parecendo tentativa de denegrir a imagem..

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  3. Apesar do excelente trabalho de Benicio, daria duas estrelas ao filme. A obra não contextualiza a utopia que conduziu a revolução, a transformação de jovens comuns em guerrilheiros, o apoio popular à luta armada. Vê-se, de pronto, a perseguição, mais parecendo um “O Fugitivo” caribenho.

    Confesso, ainda, que apesar do filme basear-se no diário de Che, a mitificação imposta por Soderbergh é surpreendente para os padrões atuais. Na ótica do diretor, a personalidade de Che transitou por anos de guerrilha, privação, morte e barbárie, sem que estas condições extremas lhe afetassem minimamente a fibra moral, a sanidade, ou mesmo a “ternura”. Ao final, o telespectador fica em dúvida se assistiu a um argentino ou a um kryptoniano.

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