2012

[rating: 2.5]

A humanidade é – sempre foi, de fato – fascinada com a idéia do fim do mundo. Certamente deve haver alguma explicação mítica e/ou psicanalítica por trás de tal fascínio, mas essas explicações devem ser procuradas num consultório de psiquiatria ou no gabinete de algum antropólogo. No cinema, particularmente na versão espetacular da atividade em que Hollywood se especializou, só dá para encontrar narrativas que permitam ao espectador experimentar a sensação de viver esse momento, sem ter que enfrentá-lo na verdade. Sim, é uma válvula de escape. Essa é uma boa maneira de abordar “2012” (EUA, 2009), terceira versão cinematográfica do diretor alemão Roland Emmerich para o apocalipse.

Obcecado desde sempre com a idéia de destruição cada vez mais massiva e espetacular, Emmerich rema com a maré. Em 1996, ele destroçou o planeta numa invasão alienígena. Em 2004, a catástrofe chegou com o carimbo do aquecimento global. Desta vez, Emmerich recorre a uma antiga lenda maia, mistura profecias obscuras de milhares de anos com noções enganosas de geologia e astrofísica, e inventa o cenário ideal para esmigalhar o planeta com terremotos, vulcões, tsunamis, incêndios e todo o tipo de catástrofe natural que se possa imaginar – tudo “documentado” com uso massivo de imagens geradas por computador, em seqüências enormes de ação e efeitos especiais que deixam pouco espaço para desenvolvimento de personagens (mesmo num filme com 158 minutos de duração).

O enredo, que segue meia dúzia de pessoas cujos destinos colidem no dia do fim do mundo, mistura explosões na superfície do sol, alinhamento dos planetas com o sistema solar e aquecimento anormal do núcleo da Terra como fatores conjugados que provocam a completa destruição do planeta. Todos esses eventos convergem no dia 21 de dezembro de 2012, data em que uma velha lenda maia prevê a extinção da Terra. Nesse dia, acompanhamos a corrida frenética de um motorista particular (John Cusack) e de sua família em busca de uma improvável salvação. Outros personagens importantes incluem um geólogo norte-americano (Chiwetel Ejiofor), o presidente dos EUA (Danny Glover) e sua filha nervosinha (Tandie Newton), um assessor da Casa Branca (Oliver Platt), um bilionário russo (Zlatko Buric), um radialista maluco-beleza (Woody Harrelson) e mais um punhado de gente tonta que corre de um lado para outro, enquanto o chão se abre e traga cidades inteiras, como Los Angeles e o Rio de Janeiro.

O grande número de personagens importantes, aliado à predileção evidente do diretor alemão por longas seqüências de ação frenética que intercalam cada 10 ou 15 minutos de filme, impedem a platéia de cultivar empatia por algum personagem em particular. O herói da vez supostamente deveria ser Jackson Curtis (Cusack), mas a absoluta ausência de informações positivas sobre ele bloqueia a possível afeição desenvolvida pela platéia. Aliás, Jackson não passa de uma pálida imitação do personagem de Tom Cruise no “Guerra dos Mundos” de Steven Spielberg: um pai ausente, mais preocupado em fuçar no Google do que em brincar com os filhos na única noite mensal que passa com eles, que precisa de um chacoalhão de forças maiores para poder descobrir que a família é algo que importa. Touché.

De certa forma, discriminar um filme desses por desrespeitar as leis da Física não parece uma atitude analítica muito adequada. Seria o equivalente cinematográfico a um padre fazer um sermão para um bando de católicos praticantes, ou seja, pregar para os já convertidos. Afinal, todos sabemos que o público-alvo dos blockbusters é formados por jovens e adolescentes que estão pouco se lixando para a verdade científica que existe (ou deveria existir) por trás dos eventos encenados. Portanto, é melhor deixar de lado o argumento de que o arremedo de Ciência que Emmerich apresenta no filme não passa de um amontoado de bobagens que não fazem o menor sentido. Isso é fato, mas um fato que não melhora nem piora o resultado final.

Por outro lado, o diretor finalmente descobriu um ingrediente poderoso em filmes cuja escala torna complicado desenvolver o lado humano dos personagens: o humor. Com diz Woody Harrelson, em certo momento da trama, bons narradores usam o humor para atrair a platéia. Assim, sai o tom solene e épico dos arrasa-quarteirões anteriores e entra uma atmosfera de sátira irreverente, que transforma até mesmo as seqüências mais absurdas e destruidoras – em particular o vôo cego de avião sobre os arranha-céus de Los Angeles, que se liquefazem logo abaixo – em um espetáculo divertido. O senso de humor, infelizmente eliminado da narrativa no terceiro ato, salva “2012” de se tornar, na dimensão narrativa, aquilo que representa visualmente: um desastre absoluto.

O DVD nacional carrega o selo Sony. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– 2012 (EUA, 2009)
Direção: Roland Emmerich
Elenco: John Cusack, Chiwetel Ejiofor, Danny Glover, Oliver Platt, Woody Harrelson
Duração: 158 minutos

19 comentários em “2012

  1. esses filmes do tipo catástrofe , voce gosta mesmo que eles não precisem daqueles draminhas familiares entre os personagens, uma história, só toda a ação vale todo o filme?

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  2. Só uma correção quanto à lenda Maia. A lenda não prevê a extinção da Terra, mas sim o fim de um ciclo de 5.125 anos. De acordo com os maias, os ciclos anteriores terminaram em destruição, mas isso não significaria o fim do planeta. Ainda não assisti ao filme, mas Emmerich deve ter distorcido tudo.

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  3. Achei o filme muito chato, muito ruim, deu um sono danado. Sabe aqueles fimes que você não vê a hora de acabar? Pois é, 2012 é um deles. Nem os efeitos impressionam. Muito fraco.

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  4. Para mim, este é o melhor filme feito pelo Emmerich! Além de ter um show de efeitos visuais e especiais, tem um roteiro que lança discussão sobre vários pontos interessantes. Fora mencionar um tema que, como você bem disse, causa muito interesse na gente: o fim do mundo!

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  5. Bom, eu gostei do filme, nao é nenhuma maravilhaaaaa, mas tambem nao me arrependo de ter assistido, acho legal o tema e a visão que cada diretor coloca em seus filmes sobre o final tudo.
    abraço pessoal.

    Ps. Rodrigo sempre leio suas criticas, mesmo as vezes nao concordando acho muito legal o seu ponto de vista em relaçao aos filmes, PARABENS.

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  6. Não gostei do filme, não pelo tema, ou pelas trapalhadas pseudocientíficas, mas porque parece uma colagem de muitos outros filmes semelhantes, como Impacto Profundo, Guerra dos Mundos e , é claro, os do próprio Emmerich, Independence Day e O Dia Depois de Amanhã. Achei que talvez veria alguma inovação, mas foi pedir demais a um diretor tão repetitivo…

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  7. Nem assisti, mas já concordo com o que o Rodrigo falou. Na verdade, os argumentos por ele apresentados – de que o filme não desenvolve os personagens e que possui problemas na narrativa – já foram vistos em outras películas do gênero (Um dia depois de amanhã)- me faziam acreditar que 2012 realmente era algo descartável, até mesmo em comparação com outros “arrasa quarteirões”. A crítica ratifica minha suposição.

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  8. Cinema é entretenimento!

    Ainda bem que ao sair do cinema não precisaremos fazer um relatório dissertativo pseudo intelectual dos personagens para apresentar em uma banca!

    Achei o filme bom, apesar de realmente parecer com os outros do genero (o q nao eh de todo, ruim)!

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  9. Êta filme ruim, sou um interessado em blockbusters, mas isso não significa que precisam insultar minha inteligência com tanta bobagem, e olhe que não sou geólogo ou geógrafo, acho que esses tiveram um troço vendo o filme.
    Parece um roteiro feito em um fim de semana, e sem contar na velha cena da pessoa que tenta salvar o cachorro, pô 6 bilhões de seres humanos morrendo e todo mundo torcendo por um chiuaua, tenha dó!

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  10. Acho engraçado como há certos amigos que não tem coragem de discordar de opiniões dos seus… Para mim isso não é amizade, no máximo, isso é, se realmente o for, camaradagem.

    Sem contar que esses comments que simplesmente apoiam o tom do autor do post muito mais parecem fakes. Mesmo não sendo, chegar a dizer que não tem efeitos especiais bons no filme, até para mim que sou um que rema contra a maré, que sou enjoado com efeitos especiais, seria demais.

    O filme 2012 é um filme legal, que é bom de assistir pelas cenas de ação. Se você vai para assistir um filme que toda a hype está em “o fim do mundo” e espera ter melodramas, pensaments profundos sobre a existência humana ou mesmo qualquer coisa do tipo, sinto muito pois você irá penar em achar um filme que assim o faça! Vejam o exemplo de “O dia em que a Terra parou” com o Keanu Reeves. Ele tentou fazer isso e mesmo com toda a hype não adiantou de nada.

    Então, criemos mais personalidade e aprendamos a ter opiniões próprias!

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  11. Concordo, Erick, ter opinião própria é salutar. Mas ter opinião própria não significa necessariamente discordar de quem escreve. Quer um exemplo? A sua própria argumentação. Sua lógica (quem espera encontrar algum conteúdo num filme de ação vai quebrar a cara) não tem nada de original. Centenas de leitores já escreveram esse mesmo argumento, em dezenas de páginas diferentes, neste mesmo site. Não é por isso que vou afirmar que você não tem personalidade, certo?

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  12. Eu leio as críticas do Rodrigo por um motivo simples: o texto dele cativa e ele entende de cinema como poucos ( e os outros, pra mim, digo logo quem são, o Figueroa e o KMF). Não são boçais e escreve pra um público, inicialmente leigo, sem deixar a profundidade de lado.

    Mas já discordei diversas vezes dele aqui no blog, lembra Rodrigo? “Wall.e” ele adora e eu detesto, entre outras preferências.

    Ou seja, ninguém é obrigado a concordar com o cara. Mas Lê-lo, se vc quer ter informação confiável e de qualidade, é fundamental.

    Depois vc vai no cinema e vem aqui elogia-o ou detona! Isso é democracia. Isso é ter personalidade.

    Uma curiosidade: Rodrigo vc é parente do Carrero escritor? Não gosto dos livros dele mas adoro os papos com a Eden na CBN.

    Abção!

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