Sinédoque, Nova York

[rating:3.5]

Algumas pessoas dizem que o verdadeiro gênio de um artista reside na simplicidade, ou na capacidade de dizer muito utilizando pouco. Embora isso não seja necessariamente verdade, no cinema esse ditado tem se mostrado bastante confiável. Há artistas, porém, que não estão interessados nele em absoluto; alguns desses artistas são brilhantes e parecem ter algo novo a dizer. Charlie Kaufman é um desses sujeitos. Sua estréia na direção, com “Sinédoque, Nova York” (Sinecdoche, New York, EUA, 2008), confirma que Kaufman possui o raro dom de combinar generosas quantidades de inteligência e pretensão, com resultado bastante irregular.

Qualquer espectador que já tenha visto um dos filmes roteirizado por ele (“Quero Ser John Malkovich”, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”) já deve ter percebido o quanto Charlie Kaufman é fascinado/obcecado pelo processo de funcionamento da mente humana. Nós não pensamos de forma linear. Nosso pensamento é construído a partir de fragmentos que se acumulam e colidem uns com os outros, gerando uma massa de conhecimento nem sempre inteligível. A maneira como estruturamos nossa argumentação se assemelha mais a um rizoma – uma colméia, por exemplo – do que a uma linha reta.

Os filmes que levam o dedo de Kaufman perseguem esse tipo de estrutura fragmentada com crescente grau de sofisticação. Se fosse possível colocar lado a lado este “Sinédoque, Nova York” e “Quero Ser John Malkovich” (1999), cujo roteiro marcou a estréia de Kaufman no cinema, seria possível ver o quanto o escritor, e agora diretor, sofisticou essa busca obsessiva por estruturar enredos ficcionais na forma de rizomas. “Sinédoque, Nova York” é o equivalente cinematográfico de uma boneca russa. Você abre uma camada e encontra outra, idêntica e menor, e assim por diante, indefinidamente.

É impossível negar a perícia de Charlie Kaufman na construção meticulosa desta boneca russa cinematográfica. Há tantas idéias, tantas referências visuais, tantas metáforas e observações argutas – muitas vezes auto-depreciativas, e sempre críticas – sobre tantos temas: para quê serve a arte? Qual o lugar do homem no mundo? Aliás, o que é o mundo? Qual o lugar do artista nele? O que representam os sentimentos para a existência? E, acima de tudo, como as múltiplas questões que o filme levanta se relacionam com o todo, que é a vida?

“Sinédoque, Nova York” conta a história (?) de um autor de teatro, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman). Ele é casado com uma artista plástica (Catherine Keenan). Ela está grávida. Ele sofre de insegurança crônica, está em depressão, vive em consultórios médicos, tem um flerte com a bilheteira do teatro onde ensaia uma peça. A vida do casal é uma piada sem graça. As coisas mudam quando ela vai sozinha a uma exposição em Berlim – e não volta. Quase ao mesmo tempo, ele ganha um prêmio que consiste em uma soma vitalícia de dinheiro para montar uma produção teatral, uma espécie de bilhete azul para fazer o que quiser. Qualquer coisa, durante o tempo necessário.

Tudo isso acontece nos primeiros 15 minutos de filme, enquanto as coisas ainda caminham de forma razoavelmente linear. A decisão de Cotard é pegar a grana do prêmio e criar um espetáculo em permanente work in progress, sem platéia, e sem data para estrear. Ele cria um universo ficcional, aluga um gigantesco galpão em Nova York, e começa a construir uma espécie de universo paralelo, em que ele é deus – e atores interpretam todos aqueles que vivem em torno de Cotard, inclusive ele mesmo. Passam-se anos. Cotard continua escrevendo a peça, expandindo seu “universo”. Logo, o Cotard ficcional está encenando uma peça dentro da peça, e as diferentes versões de cada personagem criar relações afetivas entre si, e o filme enlouquece de vez. Cuidado para não acontecer o mesmo com você.

Há que se destacar, acima de tudo, o tamanho da pretensão de Charlie Kaufman. O filme é ambicioso de uma maneira que lembra um pouco Stanley Kubrick (e aí é covardia, já que Kubrick foi o único artista cinematográfico a compensar uma mania de grandeza abissal com o mesmo tanto de talento), filtrado por uma narrativa em forma de mosaico à maneira de Robert Altman. A gente percebe que no meio daquele entulho narrativo sem fim – em que múltiplas versões do mesmo personagem convivem, a ponto de até mesmo os próprios atores (que são personagens, que são atores…) se confundirem – existem inteligência e talento. Mas a ambição é tão grande que Kaufman não sabe a hora de parar, e transforma seu filme num emaranhado inteligível de boas idéias.

O pior é que, analisado friamente e com algum esforço, “Sinédoque, Nova York” traz à luz algumas soluções cinematográficas de primeira classe. Observe, por exemplo, como o casal Cotard trilha caminhos inversos ao longo da narrativa. Kaufman ilustra isso através da escala do trabalho de cada um: enquanto sua peça cresce sem controle (como o filme, aliás!), sua mulher trabalha com peças em miniaturas cada vez mais ínfimas. No começo do filme, ele monta um espetáculo normal, e ela pinta quadros normais; no final, uma cidade inteira é palco pequeno demais para a peça dele, e os quadros dela são tão minúsculos que não se consegue vê-los mais a olho nu.

Além de tudo, é o filme de um autor. Existem pequenos momentos brilhantes na interação entre os muitos personagens (como o namoro entre a bilheteira real e o Cotard ficcional), em que Kaufman exercita sua verve afiada para observar as idiossincrasias da espécie humana. O protagonista, que esconde um ego gigantesco através de densas camadas de insegurança e neurose, é a cara de seu autor, o humor auto-depreciativo tentando desesperadamente esconder uma atmosfera de tristeza tão densa que se pode quase cortá-la com uma faca (além disso, lembra demais os outros protagonistas de Kaufman). E o elenco enorme e multifacetado, obviamente se deliciando com um material tão improvável e delirante, oferece desempenhos que vão do excelente ao sensacional, incluindo uma performance emocionalmente avassaladora de Philip Seymour Hoffman.

Por fim, acho significativo citar um raciocínio do crítico inglês Edward Buscombe, um dos principais especialistas contemporâneos no estudo do cinema de gênero. Ele observa que um dos méritos desse tipo de filme (western, musical, comédia romântica, etc.) é operar dentro de um sistema mais ou menos rígido de códigos, equilibrando-se entre a familiaridade de certos elementos e a novidade de outros. Quando um artista investe demais na noção romântica de autoria, freqüentemente renuncia à comunicação com o público. Quando isso acontece, a arte descamba para a excentricidade. Em “Sinédoque, Nova York”, isso acontece com freqüência. Há talento e criatividade no filme, mas também há certo desinteresse em estabelecer uma construção de sentido narrativo.

O DVD nacional da Imagem Filmes é simples e não contém extras. O aspecto de imagem (widescreen anamórfico) e o áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) têm boa qualidade.

– Sinédoque, Nova York (Sinecdoche, New York, EUA, 2008)
Direção: Charlie Kaufman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Michelle Williams
Duração: 124 minutos

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6 comentários em “Sinédoque, Nova York

  1. Rodrigo, sua crítica traduz de forma nítida a impressão que tive do filme e não conseguia traduzir em palavras. Fui vê-lo antes de ler esta crítica, e confesso que me impacientei diversas vezes durante a projeção, o que me impediu de ir embora antes do final foi a sutil sensação de que estava vendo algo novo, diferente, e bastante rico em imagens e atuações (Philip Seymour Hoffman, sempre genial; Catherine Keener, maravilhosa, adoro-os), enfim, havia CONTEÚDO naquilo tudo. Mas o filme é muito, muito CONFUSO. Um quebra-cabeça daqueles! Saí sem entender nada do filme; e os poucos que ali estavam, todos com cara de quem pensava ” Meu Deus, que filme foi esse?” Se houvesse lido sua crítica antes, talvez tivesse entendido um pouco o filme como agora. Será que os outros filmes roteirizados por Charlie Kaufman, como “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, também são assim, difíceis, herméticos?

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  2. Embora o senso comum abrace esse noção do surrealismo como falta de sentido narrativo, ela está historicamente errada. De certa forma, acho curiosa essa reação de “quanto menos compreensível melhor” que tanta gente propõe, por exemplo, aos filmes de David Lynch. Existe sentido ali. Pode não obedecer a uma lógica simples ou linear, mas faz sentido.

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  3. Quando eu vi o filme achei um verdadeiro chute no ovo, de tão ruim. Na hora estava cansado e com fome. Mas depois de jantar e dormir, lembrei do filme gostando dele, e gosto dele cada vez mais. Este é um filme que posso realmente chamar de filme de arte, sem aquele significado de filme feito com poucos recursos, ou do tipo “que não acontece nada e você entende porra nenhuma, mas sai do cinema com um sorriso inteligente”.
    Podemos enxergar a vida como uma obra em construção, uma peça inacabada, precisando sempre de um ajuste, um acréscimo, e não para de prosseguir nos mais variados graus de complexidade, como a ambiciosa peça teatral de Caden Cottard. As constantes mudanças de perspectiva que temos da vida à medida que amadurecemos são análogas às mudanças de título que o próprio Cottard dá à sua obra. E justamente em seu último pensamento que ele sabe como intitular a peça.
    Recomendo com entusiasmo, com o cuidado de ir ver o filme com disposição física e mental para poder apreciá-lo.

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