Giallo – Reféns do Medo

[rating: 2]

Embora já estejam consolidadas como um subgênero legítimo do thriller de suspense desde o princípio da década de 1930, as histórias envolvendo ações sangrentas de assassinos em série de identidade desconhecida se tornaram verdadeiramente populares cerca de quatro décadas mais tarde, a partir do começo dos anos 1970. Essa popularidade veio a reboque de um ciclo do cinema popular italiano cujo principal autor foi Dario Argento. O cineasta, muito cultuado em círculos cinéfilos mais formalistas, andou amargando certa obscuridade a partir de meados dos anos 1990. “Giallo – Reféns do Medo” (Giallo, Itália, 2009) representa uma tentativa, desde o sugestivo título, de resgatar a fama e o respeito desse círculo de cinéfilos.

O que tem o título a ver com o ciclo que celebrizou Argento como diretor estiloso? É que esse ciclo era conhecido justamente como “giallo” (palavra que significa “amarelo” em italiano). Este subgênero, nascido mais para o final dos anos 1960, substituiu o spaghetti western no imaginário do público de baixa renda europeu. Os filmes do ciclo consistiam em transposições para o cinema das aventuras policiais em que detetives precisam identificar e prender serial killers. Essas aventuras eram publicas em livros de formato popular, vendidos em bancas de revista, e formatados dentro de capas-padrão na cor amarela.

Nas telonas, os giallos ganharam características específicas, graças ao trabalho de Dario Argento em thriller sugestivos como “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970) e “Prelúdio Para Matar” (1975): os matadores sempre utilizavam luvas de couro negro, tinham identidades desconhecidas, e praticavam crimes com requintes cada vez maiores de violência gráfica. As tramas boladas por Argento incluíam sempre um estrangeiro dentro da Itália – normalmente um norte-americano, a fim de trazer nomes internacionais para o elenco – obrigado pelas circunstâncias a perseguir o criminoso. As cores saturadas e o uso abundante de câmera subjetiva eram outras características do ciclo.

Fãs de Argento que esperarem encontrar um legítimo giallo – expectativa criada pelo título original – deverão ficar decepcionados. Infelizmente, este que é um dos diretores mais conhecidos e respeitados a militar no subgênero fílmico que envolve a atuação de serial killers fez um longa-metragem medroso, que mimetiza de maneira pouco inspirada filmes mais recentes do estilo (em particular os ótimos “Seven – Os Sete Pecados Capitais” e “O Silêncio dos Inocentes”) e deixa de lado justamenta as características exóticas que davam aos seus próprios filmes um sabor original. A paleta explosiva de cores, a iluminação quase expressionista, a câmera que buscava ângulos inusitados, tudo isso inexiste em “Giallo – Reféns do Medo”, que ainda por cima traz personagens desinteressantes e uma trama burocrática.

O enredo é centrado na busca desesperada empreendida por uma americana (Emanuelle Seigner) pela irmã mais nova (Elsa Pataki), seqüestrada por um misterioso assassino que retalha mulheres bonitas em Roma. Mas o personagem principal é, na verdade, um detetive italiano (Adrian Brody) que tem o hábito de trabalhar sozinho. Os dois seguem pistas bizarras espalhadas pela capital italiana, em cenas descaradamente roubadas dos dois exemplares mais famosos do subgênero. Preste atenção, por exemplo, na “ressurreição” de uma vítima supostamente morta do criminoso, que abre os olhos e murmura algumas palavras ao ter o rosto iluminado por uma lanterna – a cena é absolutamente idêntica a outra existente no filme de 1995 de David Fincher.

Além disso, como em “O Silêncio dos Inocentes” (1991), a vítima seqüestrada é mantida viva pelo assassino, cuja identidade é mantida em segredo apenas durante o primeiro ato, sendo revelada logo em seguida. O roteiro – o primeiro da carreira de Argento que ele não escreveu – deixa passar uma série de furos bobos. Como explicar, por exemplo, o fato de que o detetive interpretado por Brody, italianíssimo, não fala em italiano sequer com os colegas de farda, que entre si se comunicam na língua européia? E o que dizer da seqüência que mostra o detetive indo apanhar uma lista ilegal com um bibliotecário – uma lista cuja importância narrativa é zero, já que não aparece em nenhuma cena posterior – a não que o momento está lá apenas para copiar um trecho idêntico de “Seven”?

Para piorar a situação, “Giallo” padece de um problema que nunca havia aparecido na obra pregressa de Argento, que é o medo da transgressão, da ousadia, do excesso. A fotografia é limpinha demais, correta, e até mesmo as seqüências de ultra-violência praticamente desapareceram do corte final do longa-metragem, sem falar que o ótimo elenco internacional parece curiosamente inexpressivo, o que apenas confirma um dos piores defeitos do cineasta, que é a direção de atores deficiente. No fim das contas, “Giallo – Reféns do Medo” mais parece uma refilmagem medrosa de um trabalho de Dario Argento nos anos 1970 do que um legítimo exemplar do diretor italiano.

O DVD brasileiro traz o selo da California Filmes. O disco é simples e tem apenas o filme, com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e som em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Giallo – Reféns do Medo (Giallo, Itália, 2009)
Direção: Dario Argento
Elenco: Adrian Brody, Emanuelle Seigner, Elsa Pataki, Robert Miano
Duração: 92 minutos

10 comentários em “Giallo – Reféns do Medo

  1. Pelo contrário, Rodrigo. A respeito do texto inteiro, hehe, mas principalmente sobre a parte da ‘ousadia’ e ‘transgressão’. Giallo é o filme mais ousado do Argento exatamente por essa reversão de expectativa que, lendo textos net afora (este, por exemplo) dá pra avaliar o quanto funcionou. Giallo é pega-ratão mesmo, e eu senti vontade de aplaudir o Dario por, depois de 40 anos, de eu achar que ele já havia surtado o suficiente por 20 diretores juntos e que nada mais me pegaria desprevinido, conseguir me passar a perna e me surpreender desse jeito. Eu esperava tudo, menos Giallo do jeito que eu vi. Foi maravilhoso.

    Mas não vou ficar falando aqui de cada aspecto do filme e de cada um dos porquês de eu não compartilhar da tua opinião. coloquei o link pro meu texto ali direto no meu nome, caso interesse.

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  2. Luis, li o seu texto, achei muito bom e recomendo a todos os leitores que quiserem uma opinião diferente da minha. É salutar ter acesso a leituras diferentes da mesma obra; afinal, se todo mundo visse os filmes do mesmo jeito, a crítica não teria nenhuma função nesse mundo.

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  3. Rodrigo,me tire uma dúvida,o dvd foi lançado na versão do diretor?
    Fiquei sabendo que o Argento ficou impossibilitado de lançar nos cinemas lá de fora,uma versão da forma que ele queria.
    Talvez esse seja o problema da qualidade do filme ser duvidosa,a versão dele não deu às caras(se bem que ele tá em decadência há algum tempo)

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  4. Rodrigo
    como já tinha falado com vc eu não gostei de Giallo. A crítica do Luis Henrique Boaventura é muito bem argumentada. Aliás, já tinha lido muito a esse respeito. O filme seria muito bom por “enganar” todo mundo e entregar um suspense sem suspense. Eu discordo. Acho, que além dos pontos que você citou, tem mais coisas que não funcionam no filme. Emanuelle Seigner continua linda e inexpressiva. A relação que ele tenta fazer entre o assassino e o personagem de Brody não funciona, o assassino parece um menudo deformado e todo o trabalho em vão que Brody teve em meses de investigação, é recompensado com dias… Seria a grande ajuda de Emanuelle Seigner??? Tem outra coisa que me incomodou muito. Acho que não ficou muito clara a relação yellow/ giallo. Achei um dos acertos do filme, mas na tradução isso se perdeu um pouco… Tem muita gente que não vai pescar esse dueto.
    Sem contar que Argento perdeu a grande chance de entregar um final perturbador. Preferiu nos entregar uma cena posterior absolutamente desnecessária e muito “final feliz”.
    Aceito o argumento do Boaventura, mas ainda prefiro o velho Argento original e com todas as qualidades ditas por você Rodrigo. Prefiro o tradicional Sleppers do que a “ousadia” de Giallo.

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  5. Não sei nada sobre a versão do diretor, Daniel. Eu vi o DVD nacional e não sei qual versão ele traz, infelizmente.

    Danilo, correto sobre Emanuelle Seigner. Quanto à suposta “ligação” entre assassino e detetive, acho que essa parte é uma das piores, graças a um roteiro furado e mal escrito. Na verdade, não sei se o roteiro tenta mesmo estabelecer essa relação ou se somos nós, espectadores, que embarcamos nessa teoria implausível, por causa da péssima maquiagem do “amarelão”.

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  6. É o pior filme da carreira de Dario Argento. Parece aqueles filmes feitos para mercado de vídeo, daqueles que passarão em Super Cine no futuro. Saudades da época de “Suspiria”, “Tenebre” e “O Pássaro das Plumas de Cristal”. Parece que o amarelo perdeu o tom com o passar dos anos. Uma pena, Dario Argento é um gênio, um cineasta autoral que já brindou o público com inúmeras obras-primas.

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  7. Assisti Giallo em blu-ray. A qualidade de imagem é apenas razoável, mas em alguns momentos é péssima, apresenta muita granulação e pouca nitidez nas cenas escuras. Em relação ao filme, opa ! Isso é um filme ? É tudo muito ruim !

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  8. Só um comentário. O assassino é uma comédia. Parce uma mistura de Fofão com Rambo, é sério. Assistam e confirmem o que eu disse. A atriz loira é péssima…péssima. Filme fraco de Dario Argento

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  9. Gostei do filme , que ao contrario dos outros filmes mostra uma verdadeira carnificina sangrenta e mintirosa, porém Giallo monstra a nós telespectador , que para chama a atenção do publico não é necessario sangue e tripas pelo chão, más sobretudo a peça fundamental á historia eo ambiente cinematografico .

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  10. o filme é um lixo.
    o detetive que é bom, mas tudo é ridiculo
    mal feito
    sem noção
    o amarelo, a mulher quase morta recitar e o detetive gravar e ela dizer amarelo amarelo, piada
    parece filme dos anos 20, pq quando soube q era 2009 me surpreendeu, pq no convento onde a mulher é jogada, o investigador olha para o policial e fala, pergunte a madre se viu um taxi. Para né agora tem cameras espalhadas, da pra ver placa, e tem q o detetive fazer a entrevista com a madre e outras pessoas, tudo muito mal soluciionado
    Decepção é o nome
    E no final, que final? uma porcaria
    pensei q era Frances o filme, pq eles que gostam de deixar tudo pela metade
    uma droga de filme

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