Gato de Nove Caudas, O

[rating: 3]

O rígido sistema de produção de filmes populares estabelecido na Itália, entre as décadas de 1950 e 1980, fazia com que os diretores e produtores apostassem continuamente em ciclos de cinema de gênero. Quando um filme fazia sucesso, dezenas de variações eram produzidas em seqüência, até que o público começasse a ficar saturado. Desta forma, assim que o spaghetti western começou a dar sinais de declínio, no começo dos anos 1970, as produtoras italianas passaram a abrir espaço para uma nova geração de cineastas. Dario Argento foi o nome que se destacou, lançando as bases para um novo ciclo de filmes populares de horror urbano.

“O Gato das Nove Caudas” (Il gatto a nove code , Itália/França/Alemanha, 1971) é o segundo título assinado por Argento, e um dos primogênitos deste novo gênero. Foi precedido, claro, pela fabulosa estréia do diretor (que atuava antes como crítico e já tinha roteirizado um longa para Sergio Leone), chamada “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1969), e que permanece até hoje como um dos melhores trabalhos de Argento. Junto com o terceiro filme do diretor, “Quatro Moscas em Veludo Cinza” (1971), este filme completa uma espécie de trilogia infomal de thrillers de suspense que carregam títulos exóticos envolvendo animais.

Nos três casos, o enredo é basicamente o mesmo: cidadão comum auxilia a polícia na investigação dos assassinatos cometidos por um serial killer, que por sua vez logo começa a perseguir aquele que o persegue. Seguindo a lição de Sergio Leone, Argento constrói um estilo maneirista, cheio de badulaques estilísticos, que incluem o uso abundante da câmera subjetiva (quase sempre sob o ponto de vista do criminoso), paleta de cores saturadas, uso de trilha sonora de influência jazzística e percussiva, e seqüências de violência gráfica, com assassinatos cada vez mais sangrentos e bizarros. Esses filmes logo ganharam a alcunha de “giallos”.

O protagonista, em geral, é sempre um sujeito singular – e muitas vezes norte-americano, para justificar a presença de atores veteranos e/ou novatos promissores vindos dos EUA, da mesma forma que acontecia no ciclo de spaghetti westerns. Em “O Gato das Nove Caudas”, o herói é um velho cego (Karl Malden), ex-jornalista, que começa a suspeitar sobre mortes misteriosas envolvendo pessoas ligadas a um famoso instituto de pesquisas médico-biológicas.

O próprio Dario Argento demonstrou insatisfação, anos depois, ao falar sobre “O Gato das Nove Caudas”. Em comparação à excitante estréia do cineasta, ocorrida dois anos antes, o filme é de fato muito inferior. Apesar de levar adiante a proposta maneirista de Argento, recorrendo a um nível de estilização bem maior (as longas tomadas de câmera subjetiva e toda a decupagem, que privilegia ângulos bizarros e planos de reação que sempre sugerem a presença de alguém na cena que os demais personagens não conseguem ver), a história do filme é óbvia e derivativa, como um romance de Agatha Christie escrito por um imitador barato.

Convém lembrar que os melhores trabalhos da escritora inglesa, influência fundamental para o ciclo do “giallo”, sempre foram férteis em espalhar pistas sobre a identidade do assassino misterioso, o que transformava seus livros em deliciosas brincadeiras de caça ao tesouro. Em “O Gato das Nove Caudas”, contudo, Argento não oferece uma única pista a respeito do criminoso, limitando-se a apresentar meia dúzia de suspeitos. Ao esclarecer o caso, após um clímax com toques assustadores (a cena do cemitério é particularmente interessante), o espectador atento percebe que jamais poderia ter desvendado os crimes, se baseados apenas na lógica e nas informações disponíveis.

O DVD brasileiro leva o selo da Platina Filmes. É simples, e traz como extras somente trailer, um spot de TV e outro de rádio. O aspecto original (widescreen anamórfico) está preservado; existem três trilhas de áudio (inglês, italiano e português), todas em quatro canais (Dolby Digital 2.0).

– O Gato das Nove Caudas (Il gatto a nove code , Itália/França/Alemanha, 1971)
Direção: Dario Argento
Elenco: James Franciscus, Karl Malden, Catherine Spaak, Pier Paolo Capponi
Duração: 112 minutos

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6 comentários em “Gato de Nove Caudas, O

  1. Parece que você gostou da dica que eu te dei quando soube que “O Gato…” iria sair em dvd, não?
    Também gostei do filme, mas o acho inferior ao “Pássaro das Plumas de Cristal”.

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  2. já eu sou um grande fã. Ainda não vi esse filme que é muito difícil de encontrar. Agora vou comprar o dvd e juntá-lo a minha coleção. Continuo achando que “Profondo Rosso” é imbatível.

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  3. Da trilogia, só me falta ver “Quatro Moscas No Veludo Cinza”. Também sou louco pra ver “Tenebre”, que matar a curiosidade em breve.
    Também não acho o Argento um grande cineasta, mas gosto do seu trabalho.

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  4. “Tenebre” é bem legal (eu confundo com o “Terror na Ópera”, mas acho que é nele que tem um plano-seqüência incrível mostrando somente pés). Já o “Quatro Moscas” é meio fraco. Espero escrever sobre ele nas próximas semanas.

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  5. Eu adorei “Quatro Moscas no Veludo Cinza”. Achei inclusive superior a “Gato de Nove Caudas”, que comprei recentemente.
    Rodrigo, o plano sequecia envolvendo pés está no irregular “Sleepers” e não no “Tenebre”. Eu tenho a coleção quase completa do Argento e o acho sim um grande mestre. “Tenebre” é um grande filme, com uma reviravolta absolutamente genial no enredo.
    Já “Terror na Ópera” é o mais caro, mais comercial e também o mais fraco de todos.

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  6. “O Gato de Nove Caudas” é fanstástico, mas o final é mesmo um anti-clímax, o que não costuma acontecer nos filmes de Argento. O final de “Tenebre”, por exemplo, é fantástico. E apesar de não ter a trilha sonora composta pela banda de rock progressivo Goblin, aqui temos a belíssima composição de Ennio Morricone. Argento é o cara!

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