Tony Manero

[rating:4]

O título de “Tony Manero” (Chile, 2008) já escancara, sem deixar dúvidas, o parentesco do pequeno drama naturalista de Pablo Larrain com o filme que transformou John Travolta em astro e anunciou o domínio da disco music no cenário pop dos anos 1970. Espectadores que nunca viram o longa-metragem norte-americano podem expressar alguma incredulidade, por causa da aura (falsa!) de filme escapista e alto astral que cerca “Os Embalos de Sábado à Noite”, mas estarão errados ao fazê-lo. As duas obras tratam o mesmo tema – a falta de perspectiva de toda uma geração – com um tom amargo e realista, dão ênfase a personagens bem construídos e elevam o tom crítico em relação a dois modelos sociais bem distintos, mas que se assemelham na ausência de preocupação com o lado humano de políticas sociais repressivas.

Obviamente, as abordagens ao tema são muito diferentes, cada uma inserida dentro de um contexto político, econômico e estético muito particular. O filme chileno não tenta esconder seu tamanho mínimo, enveredando sem pudor pela estética imperfeita, minimalista e naturalista que tem dominado as cinematografias periféricas do século XXI (e aí podemos incluir autores de todos os países, inclusive EUA, que não mantêm relações com grandes estúdios). Seus atores têm rostos comuns, corpos comuns, falam como gente comum e agem como gente comum – e isto é um grande elogio para uma época em que personagens de filmes maiores mais parecem bonecos pré-fabricados em linhas de montagem. Aqui, mesmo os menores coadjuvantes têm luz própria e parecem existir do lado de cá da tela.

O protagonista de “Tony Manero” é Raul (Alfredo Castro), um homem monossiblábico na faixa dos 50 anos que cultiva uma obsessão toda particular por “Os Embalos de Sábado à Noite”. O cineasta Pablo Larrain constrói o mundo que cerca o personagem com grande cuidado e enorme senso de humanidade. Ele mora numa pensão de quinta categoria, onde dança todas as noites num palco improvisado, quase sempre copiando (mal) as coreografias de John Travolta. As tardes são passadas no cinema local, caindo aos pedaços, enquanto ele decora cada gesto, cada fala de Tony Manero. Aliás, é curioso como o cinema pouco aborda esse incrível fenômeno de identificação que existe entre entre espectador e personagem, um fenômeno descrito e estudado na teoria fílmica desde Hugo Munsterberg (ou seja, 1916).

À primeira vista, pode até parecer que nada haja de comum entre Tony Manero (o original) e Tony Manero (o imitador), mas bons observadores irão observar que o elo de união entre os dois é extamente o tema do filme: a falta de perspectiva. As noites de sábado representavam a única oportunidade de brilhar, para o personagem de John Travolta, um filho de latinos pouco alfabetizado cujo futuro rescende a fracasso. Seu clone chileno não tem nem mesmo as noites de sábado, embora sonhe com elas. Ele namora uma moradora da pensão, flerta com a filha dela (é obviamente respeitado por todo mundo lá, devido a razões que nunca descobrimos), mas não gosta mesmo de ninguém. No auge da impotência pelo imbolismo, ele aciona o mecanismo natural de auto-preservação que todos possuímos e persegue a pose do Tony Manero original. Compra um terno idêntico, se esforça para montar um pequeno palco com iluminação no nível do chão, que permita valorizar suas coreografias meia-boca.

O surgimento de um concurso na TV local, para escolher o melhor imitador de Tony Manero, acelera o processo de auto-destruição acionado pelo desespero de querer algo da vida que não se pode ter, e nem sequer se sabe o que é. Aos poucos, nosso Tony Manero de araque vai se revelar um psicopata, indo de pequenos furtos a assassinatos para manter vivo o processo de identificação com o dançarino norte-americano. O roteiro, lindamente escrito pelo diretor (com ajuda do ator Alfredo Castro e Mateo Irribaen), deixa diversas brechas para o espectador preencher – algo louvável nos dias de hoje –, trata de manter as surpresas sem trair a coerência dos personagens, e encontra espaço para nos dar um panorama assustador dos anos de chumbo da ditadura de Pinochet (anos 1970, quando a história se passa).

Não é difícil contextualizar “Tony Manero” dentro do panorama de produção cinematográfica independente da América Latina construído a partir da progressiva abertura política no continente (ou seja, do final dos anos 1980 para a frente). É um cinema naturalista, feito com poucos recursos e desprezando solenemente o melodrama. Há reminiscências claras dos Cinemas Novos e do Terceiro Cinema (movimentos dos anos 1960 que faziam o elogio do cinema imperfeito), mas sem os simbolismos obscuros e as conotações político-ideológicas daquela época; é um cinema calcado no movimento interior dos personagens, mas que não esquece de dialogar com sua época. Em poucas palavras, é um belo cinema.

O DVD nacional sai com o selo da Imagem Filmes. Enquadramento (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 2.0) são bons.

– Tony Manero (Chile, 2008)
Direção: Pablo Larrain
Elenco: Alfredo Castro, Paola Lattus, Hector Morales, Amparo Noguera
Duração: 98 minutos

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14 comentários em “Tony Manero

  1. Onde você viu senso de humanidade no personagem? Quando o cara mata uma velhinha com uma lata de atum ou quando mata o projecionista do cinema? O ator lembra mais o Al Pacino em Scarface do que o Tony Manero, apesar que o scarface também tinha algum princípio, como o de não matar crianças.
    Acho que a sinopse do filme podia ter muito melhor aproveitada, se tivessem sido inserido mais o contexto político da época e a falta de perspectiva vinda de um regime totalitário, e logo a alienação/idolatria como forma de fuga. Infelizmente muitos novos realizadores tentam chocar
    pela violência gratuita, que é um caminho fácil, do que por um roteiro melhor elaborado.
    Ps: O Tony Manero é filho de Italianos no filme de Travolta, e não latino.

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  2. “constrói o mundo que cerca o personagem com grande cuidado e enorme senso de humanidade”, Ah sim, a referência foi ao mundo e não ao personagem.
    Quanto a terem um lado político bem pronunciado, a única coisa que aparece relacionada a político são alguns panfletos contra o regime, ficou faltando muita coisa pors personagens terem um lado político bem construído e pro filme alcançar um nível fora do vazio/gratuidade de existência.

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  3. Jump Boy, o personagem é obviamente um psicopata, mas isso não o deixa menos empático. Se o mundo fosse tão preto e branco como você pinta, o público não torceria descaradamente por Hannibal Lecter no final de “O Silêncio dos Inocentes”.

    Nosso Tony Manero de araque é um cara obviamente hiper-mega-insatisfeito com a própria vida. Ele é corroído progressivamente pela inveja, por ciúmes, e pela incapacidade de comunicar sentimentos (que todo psicopata tem). E acho irônico você falar em “chocar pela violência gratuita”, porque 1) a violência não é nada gratuita, e 2) NENHUMA morte cometida por ele no filme é mostrada, pois elas sempre acontecem off-screen. Ou seja, a violência está na cabeça de quem vê, e não no filme em si.

    Ah, e os personagens não têm um lado político pronunciado. Mas há muito mais no filme do que aquilo que você aponta. Existe a atuação da polícia política, a cena com os caminhões do exército, e a atuação (discreta) dos habitantes da pensão na resistência ao regime. Sem panfletarismo.

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  4. Não é questão de ser preto e branco, e sim de nexo. Mesmo porque, psicopatas tem padrões, não saem matando velhinhas que encontraram caídas no meio da rua. E não senti empatia nenhuma pelo personagem e acho difícil qualquer público sentir, não que isso seja obrigatório,
    mas o roteiro podia ter sido melhor elaborado.
    A cena em que ele mata o projecionista é claramente mostrada e em close, pode rever.
    E nas outras o personagem aparece desferindo os golpes diretamente, logo, isso não dá chance a outra conclusão de desfecho se não a morte brutal (e gratuita) e sem concessões.
    Exatamente, eles não tem um lado político bem pronunciado, ao contrário do que diz na cabeça da sua crítica.

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  5. Acho que você queria um filme político de serial killer, uma coisa assim meio George Romero. Como encontrou um drama focado num sujeito comum, não gostou. Eu entendo. Mas, à parte a observação sobre o lado político (nisso você tem razão, meu subtítulo é ruim e vou modificar), todas as demais observações carregam para o lado da subjetividade (“psicopatas têm padrões”, sim, e o nosso tem os dele; talvez você não tenha notado que só mata de forma impulsiva, quando sente inveja ou raiva, e nunca planeja os crimes). O fato de a polícia jamais investigá-lo diz muito (pelo menos para mim) a respeito do que o filme deseja informar a respeito da política.

    Verdade, o personagem é mostrado dando os golpes brutalmente. Não dá chance a outra conclusão que não a morte brutal. Mas vamos aos fatos: você não vê a violência. Ponto. Você pode achar que é a mesma coisa, mas não é.

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  6. Fico com a parte do filme situado em um momento político (o personagem nem precisava ser politizado, como não é) de forma bem trabalhada e dispenso a parte do serial killer, aliás inoportuna sua citação ao Romero, se estou criticando o caminho fácil da violência como preenchimento de lacuna na personalidade do personagem que muitos filmes novos tomam, não seria essa minha expectativa quando li a sinopse.
    E pelo contrário, o que me atraiu (e a maioria do público provavelmente) na sinopse foi exatamente o “cidadão comum” , mas o que vemos é um personagem pouco real e cotidiano,
    ao contrário do Tony Manero original.
    E a questão de não se ver a violência em alguns trechos é apenas estética, o resultado é o mesmo.

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  7. Eu citei o Romero porque ele é um diretor cujo subtexto político é explícito, evidente, o que não acontece aqui. A questão da representação da violência na tela é outra. Entendo a sua bronca com o filme, mas não concordo que qualquer tipo de representação visual seja apenas uma questão de escolha estética. Nunca é, nem nesse filme e nem em qualquer outro. Não dá pra desvincular as questões estéticas de outras esferas (política, ideológica, social, religiosa, etc.).

    Dito isso, parece-me evidente que você tem absoluta clareza dos motivos pelos quais não gostou do filme, e isso é sempre muito bom. Não se trata daquelas situações estilo “não sei porque não gostei e gostaria de descobrir”. Você já mostrou que sabe. Então, talvez seja apenas o caso de esquecer esse filme, que não lhe disse nada, e partir para outros.

    Ah, e parabéns por não deixar a discordância descambar para os insultos.

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  8. Excelente filme, é claro que é cheio de humanidade, o protagonista não é maniqueistamente apresentado como mal, vilão, como em filmes rasos é real crível e até mais ameno que muitos seriais killers da vida real. A verdade é que a realidade que agente vive é suja é dura é terrível, é uma visão pessimista eu sei e as vezes procuramos um mundo diferente disso na alienação ou em filmes em que queriamos uma realidade na qual sempre o mal perde, o bem ganha, em que as pessoas são totalmente más ou boas e assim por diante. Nós somos os únicos animais que mente e isso trouxe toda uma evolução do cérebro pra interpretar a leitura do corpo. Enfim um filme que me fez pensar bastante e isso é sempre bom.

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  9. Ué, e desde quando o povo italiano não é latino?

    Adjetivo
    la.ti.no

    1. referente ao latim
    2. referente aos povos da Europa e América que falam línguas derivadas do latim

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  10. eu acho eu sendo filho do reginaldo faria deveria ser respeitado por que fui discriminado no condominio residencial giardino ele me expulsaram dela e quem ficou foi um bandidinho que ja foi preso

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