The Spirit – O Filme

[rating: 2.0]

Se algum espectador desavisado assistir a um minuto de projeção de “The Spirit – O Filme” (EUA, 2008), sem saber exatamente o que está vendo, vai achar que está frente a frente com alguma continuação de “Sin City” (2005). Não é só o esquema de cores (ou a falta delas) e a excessiva carnavalização dos personagens, expressa nos figurinos e na maquiagem sem explicação do personagem de Samuel L. Jackson. O buraco é mais embaixo. Frank Miller quis fazer um filme sobre um detetive durão e solitário – uma variação extravagante do arquétipo do herói noir – que constrói com sua cidade uma relação de amor quase carnal. Ou seja, é exatamente a mesma coisa que ele fazia quando desenhava e escrevia os quadrinhos que originaram o longa-metragem de 2005.

São boas HQs, por sinal. Mas, como todo mundo está cansado de saber, toda história adaptada de uma mídia para outra exige alterações para funcionar. E infelizmente Frank Miller não tem a mínima noção do que significa ser um diretor de cinema. Ele é o que é: um desenhista e escritor de quadrinhos que, por conta de uma série de circunstâncias especiais, ganhou o poder de dirigir um filme com elenco respeitável e orçamento milionário. Acontece que, como diretor, Miller é um excelente desenhista. E seu filme resulta mais oco do que garrafa vazia de Coca-Cola. Ao mesmo tempo, consegue ser um thriller sem suspense, uma comédia sem humor, uma drama sem interesse humano e uma aventura sem emoção. Em resumo, é um filme que não pulsa, resumido perfeitamente pela primeiríssima imagem que surge na projeção: a linha reta de um eletrocardiograma, indicando a interrupção dos batimentos cardíacos de uma pessoa. Ou, no caso, de um filme.

Supostamente, “The Spirit – O Filme” deveria homenagear o personagem criado por Will Eisner na década de 1940. O herói, um policial assassinado que volta do além e decide usar os poderes sobrenaturais para auxiliar o combate à criminalidade, é sempre citado pelos historiadores dos quadrinhos como o primeiro super-herói com caráter humano. Spirit (Gabriel Macht) é mulherengo, meio hesitante e, apesar de não ser exatamente burro, não possui intelecto particularmente brilhante. No filme, ele enfrenta o arquiinimigo Octopus (Sam Jackson, com ridícula maquiagem em torno dos olhos) e a ex-namorada Sand Saref (Eva Mendes), agora convertida em negociante ilícita de itens históricos, em busca de um artefato mágico que pode conter o sangue de Hércules e dar a imortalidade a quem o possuir.

Sim, é uma historinha boba que não faz jus ao personagem original de Will Eisner. Especialmente porque Frank Miller não aplicou ao material a mesma abordagem fiel que Robert Rodriguez (“Sin City”) e Zack Snyder (“300”) utilizaram nas adaptações das novelas gráficas escritas por ele mesmo. Miller se apropriou do material desenhado e escrito pelo seu ídolo para criar uma variação mal disfarçada de seu próprio Sin City, em versão com ego inflado. E se no papel os monólogos sobre a relação de amor entre um homem e uma cidade (“Minha cidade grita… ela é minha mãe… ela é minha amante, e eu sou seu espírito”) funcionam, em um filme eles soam simplesmente bregas, excessivamente kitsch, quase à beira do ridículo mesmo.

A rigor, não há nada em “The Spirit – O Filme” que realmente capture a atenção do espectador. O cenário futurista-retrô em preto-e-branco, salpicado por pontos de luz e cor eventuais, seria interessante se não tivesse sido visto antes no já citado “Sin City”. Ademais, Frank Miller insiste em introduzir, volta e meia, alguns inserts de imagens bidimensionais em contraluz, um recurso típico dos quadrinhos que simplesmente soa juvenil e primário quando enfiado à força dentro de uma narrativa audiovisual.

O elenco, recheado de nomes interessantes, parece completamente perdido, talvez com a exceção de Samuel Jackson, que parece se divertir à beça com o texto extravagante e os figurinos carnavalescos que lhe entregaram. Eva Mendes capta o tom farsesco e entra na onda, super-interpretando à vontade e sem medo de cair no ridículo. Já o herói Macht oferece uma performance inexpressiva que se pretende… edificante. Scarlett Johansson, por sua vez, se mostra desconfortável, de forma que quase podemos ouvir seus pensamentos (“tomara que a gravação acabe logo para eu filmar de novo com Woody Allen”). Considerando que o roteiro não guarda qualquer surpresa e se desenrola de maneira previsível, “The Spirit – O Filme” alcança um resultado decepcionante.

O DVD da Sony Pictures contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica, respeitando o enquadramento original) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– The Spirit – O Filme (EUA, 2008)
Direção: Frank Miller
Elenco: Gabriel Macht, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, Eva Mendes
Duração: 103 minutos

5 comentários em “The Spirit – O Filme

  1. ESta é uma oportunidade de ouro para o genial Frank Miller deixar de brincar de diretor e voltar a fazer aqueles quadrinhos soberbos que só ele e mais ninguem sabe desenhar. Nunca gostei das adaptações de Sin City e 300 feitos por cineastas medianos ( Robert Rodriguez e Zack Snyder). O sucesso comercial desses filmes certamente cegou os olhos de Miller, a ponto de ele pensar que HQ e cinema são a mesma coisa, o que infelizmente não é. Frank Miller tem total domínio da arte de fazer quadrinhos como eles realmente devem ser feitos:com suas regras próprias. Talvez o sucesso de Miller como quadrinista esteja no fato de que ele faz HQ como se tivesse fazendo cinema, o que incrivelmente acaba dando certo. A proposição contrária — fazer cinema como se estivesse desenhando gibi — é algo que nem mesmo o mestre Miller ainda conseguiu realizar satisfatoriamente. Esqueçamos The Spirit, o filme.

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  2. Senti que um quadrinho que eu gostava devia ter ficado intocado. Foi estragado grosseiramente! O que laskou mais é que Octopus não tem rosto no HQ, deixando o filme com um “agora você sabe quem ele é”. O filme fica entre “revelação”, que é um saco quando um longa tenta resolver/explicar todos os fatos obscuros do quadrinho e uma novidade, explicando de onde surgiu cada personagem.
    Se era para ser um X-Men explicando, trazendo fato novo e ainda continuando a trama criada na tela, ficou longe, viu? Muito longe!

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  3. Só vale a pena pra ver a Eva Mendes e a Scarlet Johansson mas…bem a gente pode ver elas em filmes melhores né???

    E Miller, volte a fazer aqueles quadrinhos maravilhosos da década de 80 que são tão bons que coloco tranquilo entre algumas das melhores coisas produzidas na arte do século XX.

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