Passageiros

[rating:2]

Críticas de filmes podem, às vezes, ser traiçoeiras. Especialmente no caso de thrillers como “Passageiros” (Passengers, EUA, 2008), cuja premissa se concentra em uma revelação espetacular que precisa permanecer oculta até o terceiro ato da produção, sob pena que ela se transforme em algo enfadonho e previsível, como a montagem repetitiva de um quebra-cabeça que você já resolveu antes. Portanto, é preciso muito cuidado com as palavras. Uma frase mal colocada e pronto, lá se vai o grande segredo sem o qual o filme não passa de um desengonçado aprendiz de marioneteiro.

Para espectadores que adoram esse tipo de filme – o thriller fantástico, que roça em elementos sobrenaturais e esconde um enigma capaz de gerar um grande “Uau!” quando for finalmente revelado – “Passageiros” pode ser um bom passatempo. Ou não. Se você encara o cinema como algo mais do que passatempo leve para noites de sábado, provavelmente gostaria de ver algo que tivesse personagens mais interessantes, dramas humanos mais intensos, ou mesmo ação mais energética. “Passageiros” não tem nada disso, e acumula uma enorme quantidade de clichês gastos que caminham pesadamente, como um mamute de três pernas andando sobre a neve.

É o tipo de filme que nos faz pensar como nem mesmo um sobrenome respeitável (o diretor Rodrigo García é filho do grande escritor colombiano Gabriel García Marques, cuja pena jamais seria capaz de produzir alguns dos diálogos melodramaticamente rasos que enchem o longa-metragem) funciona como garantia de qualidade, nesses dias tão escassos em criatividade e ousadia que vivemos, em pleno século XXI. De qualquer modo, enquanto trama de mistério, “Passageiros” se resume a entregar aquilo que se espera dele: uma intriga que começa tímida, cresce aos poucos vitaminada por aparições-surpresa de personagens que somem logo em seguida, encarada do ponto de vista de uma moça razoavelmente confusa e simpática, talhada para angariar a empatia do público ainda na primeira cena.

Essa moça é Claire (Anne Hathaway), psicóloga que vem emendando pós-graduação atrás de pós-graduação e se escondendo do trabalho de verdade. Percebendo isso, o chefe dela (Andre Braugher) lhe entrega uma tremenda tarefa: cuidar dos poucos sobreviventes de um acidente aérea ocorrido na área de Washington. Ela faz isso, não sem relutância, e começa a perceber coisas estranhas: os sobreviventes têm memórias divergentes sobre o acidente, e todos os que supõem ter visto uma explosão a bordo passam a sumir misteriosamente. Ela é seguida por homens ameaçadores. Um sobrevivente desmemoriado que parece ter sido esquecido pela polícia surge do nada. E a vizinha tranqüila (Dianne Wiest), que parece saber mais do que devia sobre o caso?

Como se praxe, Claire passa a desconfiar de algum tipo de conspiração em massa, ao mesmo tempo em que se envolve afetivamente com um dos passageiros (Patrick Wilson). Obviamente, tudo vai ser explicado lá pelo final, quando a moça finalmente tem acesso ao grande segredo por trás da trama. Um thriller clássico, cujos elementos narrativos são infelizmente organizados preguiçosamente por um diretor que tem se contentado, nos últimos tempos, com trabalhos menores para a televisão. “Passageiros” é oco e sem graça; não é habitado por gente interessante, não tem um único diálogo que permaneça na memória, não possui uma grande cena de ação, e seu final supostamente bombástico traz à memória uma meia dúzia de filmes recentes (que não vou citar aqui para não estragar nenhuma surpresa), todos muito melhores e mais instigantes.

O DVD da Imagem Filmes tem áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0) e imagem no formato original (widescreen anamórfico).

– Passageiros (Passengers, EUA, 2008)
Direção: Rodrigo García
Elenco: Anne Hathaway, Patrick Wilson, Andre Braugher, Dianne Wiest
Duração: 93 minutos

5 comentários em “Passageiros

  1. “Passageiros” lembra muito um filme chamado (…). Mas, no geral, achei o resultado obtido pelo Rodrigo García BEM melhor, especialmente por causa do elenco, que segura as pontas de um roteiro que falha em surpreender e que possui algumas falhas.

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  2. Kamila, mil desculpas, mas tive que editar teu comentário. A comparação com o outro filme praticamente entregava a surpresa final para quem havia visto a obra anterior (foi por isso, inclusive, que não cedi à tentação de citá-la, conforme escrevi no último parágrafo do texto). Apenas discordo de você quanto à qualidade: o filme-irmão que você citou tem soluções visuais (especialmente na montagem) muito mais criativas, e seu protagonista também é um homem bem mais interessante. É o que acho, pelo menos.

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  3. só estando desatento com a pipoca ou namorando p não perceber o fim desse filme… além do mais achei q ela descobre mto aos poucos, deveria ter um fim mais curto.

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  4. Por favor gente, não joguem um balde de água fria! O filme é excelente, os personagens bem construídos, as interpretações convincentes e o enredo cautelosamente bem escrito segura o telespectador na poltrona até a última gota, ou cena. A revelação, dita pelo Rodrigo, bombástica, não soou assim, mas trazando compreensão aos personagens centrais e aos assistidores. Repare como Patric conduz Eric com enigma, desconfiado da verdade, nos faz acreditar que ele é paranóico. Assistam e não se arrependerão. Eu vi, qundo meu filho foi ver eu vi de novo e quando minha esposa foi ver lá estava eu de novo.
    Rodrigo, aproveitado o espaço, não achei no seu site, críicas sobre o ótimo “O menino do pijama listrado”. Vale a pena porque não é mais um filme de guerra mostrando as atrocidades contra os judeus, só as percebemos sutilmente por alguns poucos diálogos. O interessante é o assunto sendo abordado por dois garotos de oito anos, um judeu e o outro alemão, que fazem amizade, sob a ótica inoscente deles. Por favor, coloca a crítica no seu site, vai!

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  5. VOU RESUMIR MEU COMENTARIO. REALMENTE O COMEÇO É BEM AGUA COM AÇUCAR, MAS O FINAL É DELICIOSAMENTE DOCÊ, COMO UM SABOR DE UMA ESPERADA SOBRE MESA DE DOMINGO A TARDE EM UM ALMOÇO EM FAMILIA. ACREDITO QUE O ROTEIRO OS TEXTOS BEM LEVES E NADA SURPREENDENTES TENHAM SIDO PROPOSITALMENTE ESCRITOS, SENDO RECOMPENSADOS COM A SURPRESA NO FINAL DO TRAILLER. VALE A PENA ASSISTIR SIM! DEIXA SUAS CRENÇAS DE LADO E ENTRE NA HISTORIA.
    PEDRO OLIVEIRA, 29 ANOS, JORNALISTA, SAO PAULO.

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